O roubo da Muiraquitã. Por Paulo Cidmil

Como no famoso livro Macunaíma, de Mario de Andrade, uma alegoria ficcional que realiza viagem imaginária sobre nossas terras contando as andanças de Macunaíma em busca da Muiraquitã roubada, cuja perda trouxe má sorte e o desassossego ao seu povo.

Criação literária que também é uma narrativa que revela a singularidade do povo brasileiro. Nos mostra a religiosidade, crendices, encantarias, pouca aptidão e apego a lógica cartesiana dos colonizadores e a ingenuidade que nos faz presa fácil dos vendedores de sonhos mirabolantes e coroas de lata.

Paulo Cidmil (*)

Essa peculiar visão de mundo, com um pé no primitivo e outro no espaço sideral em direção ao futuro, tem verdades incontestáveis. Uma delas é a existência da Muiraquitã.  Eu mesmo pude observar uma, esculpida em pedra, recolhida das águas do Tapajós e exposta no Museu Nacional, hoje ruínas.

Amuleto capaz de trazer sorte, fartura e poderes transcendentais aos indígenas que gozavam de sua proteção, passou a ser objeto de desejo do colonizador. Tanto que faz o regatão Wenceslau, o gigante comedor de gente, que Macunaíma sabia ser Piaimã, se apoderar do talismã.

Essa historia é recorrente, acontece todos os dias nas terras do Tapajós. Assim também pude testemunhar Wenceslau carregado de histórias pra boi dormir, com muita astúcia e hábil manejo da informação, iludir grandes chefes dessas terras e capturar a Muiraquitã.

Exímio manipulador, de fala mansa, contador de estórias bonitas, vendedor de facilidades, Wenceslau logo viu que a terra era promissora. Gente pacata, de poucas perguntas e questionamentos (coisa que aborrece Wenceslau sobremaneira) e deslumbrada com os ditos feitos do forasteiro vindo das terras do bem virá. Wenceslau não perdeu tempo, tratou de vender o seu peixe.

Peixe que nem ele tinha, ouviu o canto da sereia nas terras de Macunaíma. Primeiro disse: ajudo vocês a realizarem festança internacional e trago toda a corte das artes para reverenciar esse chão, eu sei os caminhos. Opa! todo mundo se animou.

Isca lançada, Wenceslau começou os trabalhos. Esperto, colou no cacique das artes do lugar, que sem maliciar as artimanhas do malandro, foi lhe abrindo portas.

 

De aldeia em aldeia, passando a lábia, contando aventuras mirabolantes onde ele  e parceiros famosos eram os heróis, dizia que todos esses seres iluminados poderiam se fazer presentes no grande acontecimento a um simples convite seu.

Evento que antes ele ajudaria, depois ele faria junto, por fim, ele próprio realizaria e porque não, ser o humilde dono, de todo o acontecimento.

Hábil no manejo das telinhas mágicas onde os parentes de Macunaíma vivem de olho, Wenceslau foi colecionando gentes para embalar em sua rede. Ali ele aparecia como o grande comendador das artes das terras do bem virá. A cada dia, os parentes de Macunaíma ficavam mais impressionados com os feitos do ilusionista.

Logo Wenceslau estaria ladeado de um grande chefe de uma das aldeias da tribo. O chefe tudo fez para agradá-lo, até honraria lhe concedeu na grande assembleia das aldeias. Cuidou de suas idas e vindas às terras do bem virá para trazer novidades e organizar a festança. Garantiu que nada faltasse a Wenceslau e foi logo reservando um bom dinheiro para a realização do evento.

Assim, Wenceslau foi adquirindo mais força. Ia alugando os ouvidos de diversas personalidades da tribo. Em pouco tempo, era o grande locatário das cabeças do lugar. Como macaco, só largava a mão de um, quando o outro já estava agarradinho e no papo.

Ao chegar às terras de Macunaíma, dizia que todo o povo das artes das terras do bem virá queria vir à grande festa. Nas terras do bem virá dizia ter as tribos nas mãos, e ser ele o grande pajé branco.

De galho em galho Wenceslau chegou ao tuxaua maior, tutor das festas da aldeia. Esse, encantado com o mundo mágico de Wenceslau, mandou montar um grande circo, fazendo despesa que não poderia ser feita depois da virada da lua. E garantiu um lugar de destaque, ao lado de Wenceslau, no momento da grande festança.

No circo, Wenceslau iria apresentar seu mundo mágico e toda sorte de artistas. Toda tribo começou acreditar que no dia seguinte após a grande festa o mundo seria diferente. Quem iria duvidar de Wenceslau. Ele dizia amém igreja, e abobalhados parentes de Macunaíma respondiam: Amém!!!

Até o tuxaua maior da tribo comemorou em sua telinha mágica, bem dizendo o dia em que conheceu Wenceslau.

Menos Macunaíma. Esse era matreiro, bom de lábia e difícil de cair em uma.  Sabia que os seus parentes tinham aptidão para inventar heróis de pés de barro. Quem sabe até para derrubá-los mais facilmente.

Aos poucos as grandes estrelas sumiram e a festa passou a ser para exibir os artistas do local. Ninguém percebeu essa manobra, inebriados com as estórias de grandeza contadas por Wenceslau. E todos trabalhavam voluntária e arduamente em prol do acontecimento.

Os grandes chefes da tribo foram em busca de dinheiro para realizar o festejo. Uma gastança que nem na festa sagrada da tribo se viu. Assim, financiado com o dinheiro da tribo, Wenceslau conseguiu realizar o evento que já era propriedade sua. Estava concretizado parte de seu plano.

Chegado o grande dia, Wenceslau convocou todos os chefes da tribo e até autorizou alguns a discursar. Apresentou as atrações que eram muitas e seriam vistas nas telinhas mágicas do circo. Para isso, Wenceslau correu o mundo em busca de novidades.

Mas na verdade, Wenceslau serviu café requentado, estórias já exibidas nas telinhas mágicas e vistas e revistas nos canais dos provedores de estórias. Provedores que Wenceslau convidou para se fazerem presentes. Nas terras de Macunaíma, as estórias foram vendidas como novidades inscritas para a festança.

Passada a euforia inicial, Curumim foi na festa? Mas quando já. Cunhantã apareceu? Axi porcaria. As telinhas do circo falavam sozinhas. As gentes do lugar só apareciam para dançar carimbó ou quando veio moça famosa mostrar sua estória na telinha.

 

O que ninguém sabia, e só Macunaíma e alguns parentes desconfiavam, é que por trás das boas graças de Wenceslau havia um segredo sinistro. O Piaimã queria se apoderar do talismã do povo de Macunaíma: a Muiraquitã.

Sempre que a tribo quiser grande festa, só com autorização de Wenceslau. E a Muiraquitã muito bem guardada só poderá ser vista nas mãos dele. Essa é a intenção do Piaimã comedor de gente, macaco gordo e guloso prestes a cair do galho.

Macunaíma, que o tempo todo observava cada passo do gigante de pés de barro, bolou um plano para não deixar o talismã cair nas mãos do aventureiro.

Antes que os parentes deixassem que a Muiraquitã fosse parar nas mãos de Wenceslau, Macunaíma pegou a verdadeira e trocou por uma imitação chinesa igual, mas tão igual, que quem visse jurava ser a Muiraquitã encantada dona da sorte e fazedora dos desejos.

Não sem antes levar a falsa para mestre pojó benzê. Velho negro feiticeiro, criado pelos pajés da antiga tribo Tupaiu. Pojó botou um feitiço com cinco pragas bem postas.

Que no saco desse cobrelo,

no rabo as hemorroidas,

que amolecesse os miolos e as partes, para que chame urubu de meu loiro, tome bênção a cachorro e não brinque mais com as cunhãs.

Que finde seus poderes de ilusionista vendedor de gato por lebre

e por fim, que desse dia em diante, Wenceslau fosse conhecido nos quatro cantos da tribo pelo nome de Rainha da Inglaterra. O malandro com cara de otário, que aluga ouvido alheio, na intenção de enganá-los para que trabalhem em  função de seus planos.

P.S.: Texto dedicado ao cinema brasileiro. Indústria que produz cerca de 120 filmes de longa metragem por ano. 70% ficam nas prateleiras a espera de salas de exibição. Limitam-se a participação em festivais de cinema no Brasil e exterior em busca de visibilidade.


** Paulo Cidmil, santareno, é diretor de produção artística e ativista cultural. Escreve regularmente neste blog.

Leia também de Paulo Cidmil: Ver com os olhos livres: o quase trintão festival teatral santareno.

Nota do editor: textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados no espaço "comentários" não refletem necessariamente o pensamento do Site Jeso Carneiro, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

3 Comentários em: O roubo da Muiraquitã. Por Paulo Cidmil

  • Que texto delicioso, com metáforas cortantes e coruscantes. Parabéns, Cidmil! E tu acabas por confirmar o velho ditado popular: “Santo de casa não faz milagre… e nem eventos cinemáticos, pelo visto.

  • Maravilhoso , Cid Mil com este texto vc se credencia a qualquer academia , que em tempos de muitas lorotas , precisa trazer Macunaíma não mais como o herói mal caráter , deixando aos Wenceslaus lau Laus, esta má sina ao novos colonizadores que como Orellana têm o mesmo fim de policarpo. Parabéns e viva o cinema brasileiro e que o Teatro Santareno recupere o seu Muiraquitã

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *