Ver com os olhos livres: o quase trintão festival teatral  santareno. Por Paulo Cidmil
Peça Muyrakytã, grupo Terra Firme; no trono, Odete Costa

Mais uma mostra de teatro se encerra, dessa  vez a 29ª. É isso mesmo, a Vigésima Nona Mostra de Teatro de Santarém. Foi uma semana melhor que as outras, porque divertida. Foram muitos e bons espetáculos. Uma maratona que surpreendeu pela qualidade.  O que inclui textos, figurinos e bons atores.

Em cada um dos grupos que subiram ao palco era possível identificar o amor ao teatro e muitas potencialidades artísticas. Dos 10 grupos presentes à Casa da Cultura, fui espectador de 7 apresentações. Foi uma sucessão de boas surpresas.

“A Farsa do Boi e o Desejo de Catirina”, do Grupo Kauré, visita o folclore popular apresentando uma comédia enxuta que se sustenta em ótimo elenco, em que se destaca o excelente figurino e maquiagem, que dão vida e alegria aos personagens.

A boa atuação do ator Kenedy Harilal, com seus cacos e improvisos e perfeito domínio de cena, em muito se sustenta pela competência do elenco, com destaque para a atriz Patrícia Abranches e os jovens atores Matheus Ribeiro e Bia Serique, que não deixam que o espetáculo oscile e perca a dinâmica.

 

“O Acarajé de Jesus”, do grupo Papa Xibé. Outro bom espetáculo com excelente e oportuno texto (em tempos de onda fundamentalista evangélica). Mostra a apropriação do acarajé por igreja evangélica, que muda o nome do quitute de origem africana e simbolicamente é comida de orixá, aqui rebatizado pelo pastor como “Acarajé de Jesus”, passando a ser comercializado pelos fieis como abençoado. Demonizando o acarajé da baiana tradicional.

Ótima comédia e boa atuação do elenco, em que se sobressai a performance  de Fábio Barbosa  e Daniele Riker,  que conduzem a peça com energia contagiante, envolvendo a plateia.

Ver com os olhos... teatro santareno
“Exagero Total”, grupo Faces. Ator George Pisa

“Cantos, Contos e Encantos Tapajônicos”, do grupo Olho D’água, é  o resultado de um mergulho profundo na oralidade popular, resgata histórias e personagens que habitam o imaginário amazônico.

Crendices e lendas são apresentadas na excepcional interpretação de Elisângela Dezincourt, que imprime intensidade dramática aos personagens, transferindo para o palco todo o realismo fantástico presente nos relatos colhidos junto aos contadores de estórias da região.

“Dia de Palhaçaria”, aqui, um exemplo de como o teatro, como ferramenta de mobilização, pode estar inserido no âmbito da educação, da inserção social e  cidadania.

Montagem que reuniu animadores e  educadores culturais, parceria do projeto Saúde e Alegria com a trupe do palhaço Pimenta, trazendo diversão e conteúdo lúdico educativo. Acredito que os espetáculos “Rei Leão”, do grupo Grutap, e “Glee em Busca de Seus Sonhos”, da Pastoral do Menor, apresentações que não pude assistir, tenham um pouco disso tudo.

“Ninho de Amor”, do Grupo José Dilon, comédia romântica, teve do público cumplicidade quase instantânea  devido a trilha sonora recheada de hits da musica brega.

O espetáculo conta a história de dois cantores do gênero relembrando o auge de suas carreiras, que se entrelaça com uma história de amor.  O destaque fica por conta da boa atuação dos atores Alfredo dos Santos e Paula na condução do espetáculo. Que ainda tem o auxílio luxuoso de Vinicius de Moraes recitando poema que pontua as passagens de cena. Uma criativa sacada da direção.

“Muyrakytã”,  do Grupo Terra Firme, com  um elenco majoritariamente de crianças e adolescentes,  fato  que comprova o quanto se trabalha para a constante renovação e permanência da atividade teatral, nos remete à ancestralidade tapajônica e tem o mérito de trazer ao palco o herói pouco lembrado Nurandaluguaburabara.

Se os fluminenses tem Arariboia e os manauaras tem Ajuricaba,  aqui na foz do Tapajós temos Nuranda.  O fato que merece registro é a presença no palco de Odete Costa, a grande homenageada do festival, uma operária do teatro. São 25 anos de Terra Firme e de trabalho pela arte dramática no município.

Teatro santareno, 29 festival
Ninho de Amor, do grupo José Dilon. Em cena, Alfredo dos Santos e Paula

“Exagero Total”, do grupo Faces, é uma comédia baseada em sucesso teatral que chegou aos cinemas com grande êxito. Trabalho do ator e comediante Paulo Gustavo. Se não apresenta uma ideia original, o espetáculo consegue atingir seu objetivo arrancando boas gargalhadas do público.

Isso graças a atuação do ator George Pisa, que sustenta o monólogo montado em uma Dona Hermínia (Norminha) tão a vontade, que se permitiu abrir intervalos no espetáculo para a entrega dos Muiraquitãs, troféu que premia os participantes do festival.

A mostra também foi um exemplo do que não se deveria fazer com os grupos teatrais da cidade. Treliça de iluminação atravessando o palco e no espaço da plateia sendo um objeto cênico permanente presente em todos os espetáculos, monitores de som na boca de cena interferindo no palco e na visão da plateia, ausência de microfones adequados para os atores.

A inexistência de cenotécnicos,  iluminadores e sonoplastas com qualificação para montagens teatrais é outro problema a ser enfrentado. Os grupos parecem estar em uma corrida de obstáculo para realizarem suas montagens.

É difícil para o artista subir ao palco sabendo que vai atuar não apenas para contar uma história e defender seu personagem.  Terá que superar problemas com sonoplastia, iluminação e fingir que não vê objetos alheios ao espetáculo em plena cena.

Isso exige maior e permanente concentração dos atores. A ausência de microfones obriga o ator a uma emissão vocal de maior extensão, o que impõe, além do esforço físico, habilidade interpretativa para que seu personagem não perca o tom e as nuances que a cena exige. O artista entra em cena perdendo de 2 x 0 e tem que virar o jogo.

Todo esse material humano poderia estar sendo utilizado em uma interface com a área da educação, realizando campanhas de sensibilização sobre meio ambiente, violência urbana, doenças sexualmente transmissíveis, memória do município, e temas como civilidade e cidadania. Teatro também pode ser gerador de renda.

O festival pode ser uma excelente oportunidade para integração regional, isso requer verbas e apoio logístico para que possa receber com dignidade grupos que venham de outros municípios (peço desculpas aos integrantes do grupo Uirapuru, de Oriximiná, que apresentou o espetáculo “Uma Cabocla Chamada Norminda”, que infelizmente não pude assistir).

Há de haver uma política de incentivo que proporcione aos grupos que venham a ser selecionados para festivais e mostras em outras regiões do país, condições de irem apresentar seus espetáculos, realizando intercambio e absorvendo novos conhecimentos e experiências.

Ver teatro santareno
Elenco da “A Farsa do Boi e o Desejo de Catirina”, do grupo Kauré

Em nenhum lugar do mundo o teatro sobrevive sem mecanismos de apoio e  incentivo público.  É preciso que os gestores e órgãos de fomento cultural do Estado e Município tratem o teatro que se faz em Santarém com mais respeito e a sensibilidade necessária para entender o bem valioso que temos em nosso quintal.

Esse festival parece ser visto como uma criança iniciante, mas trata-se de um movimento maduro, que no próximo ano será um trintão. Precisa ter algo mais que apenas constar no calendário cultural. Já é hora de existir verba específica no orçamento do município para sua realização.

Fornecer infraestrutura para eventos, por vezes ineficiente e inadequada, não é política cultural. E no caso do festival isso não corresponde a 30% das necessidades de produção.

O Município carimba a chancela de apoio, o evento vai para o portal do município, que apresenta bons números no atacado, mas isso pouco acrescenta no desenvolvimento da  arte cênica local. Aqui, nesse caso, não são os grupos de teatro os amadores.

O movimento teatral de Santarém é sinônimo de resistência. Conseguem realizar bons espetáculos, formar plateias e promover uma renovação permanente.  E sequer existe na cidade um aparelho cultural adequado para montagens teatrais, o existente foi transformado em repartição pública.

Toda essa capacidade de mobilização criativa não surpreende. O teatro em Santarém é uma tradição às vésperas de completar um século. Desde a fundação do Teatro Vitória e as montagens autorais de Felisbelo Sussuarana, Eimar Ressa, Filó Damasceno e cia.

 Fui ao festival tendo em mente uma frase presente no Manifesto da Poesia Pau Brasil publicado em 1922, na Semana de Arte Moderna: “ver com os olhos livres” — livres de conceitos, livres de expectativas baseada em vivencia anterior, livres de comparações subjetivas a serviço da negação do esforço alheio.

Mas aqui também caberia outra do poeta Paulo Leminski: “quero ver com meus ouvidos, escutar com meus próprios olhos”.

Teatro santareno, ver com os olhos
Elisângela Dezincourt em diálogo com a plateia após uma das peças

— * Paulo Cidmil é diretor de produção artística e ativista cultural. Escreve regularmente neste blog.

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