Estado do Tapajós: a perspectiva muda ao primeiro passo, de Paulo Cidmil, bandeira do tapajós

Bandeira do Estado do Tapajós

por Paulo Cidmil (*)

Quando estamos diante de uma sociedade na qual percebemos vigorosa atividade econômica, rica expressão cultural, uma natureza exuberante, farta e diversificada gastronomia e um povo acolhedor, nos acomete uma certa embriaguez de satisfação e prazer. Assim, orgulhoso de meu lugar, vi há poucos dias amigos vindos do sudeste do país, em visita a Santarém.

Esse encanto que o Tapajós provoca em seus visitantes não é privilégio de Santarém. É possível embarcar em uma lancha às 6 da manhã, por duas horas contemplar a imensidão do rio Amazonas e passar o dia em Óbidos. Passear entre seu tranqüilo casario colonial, como uma viagem no tempo no meio da floresta amazônica.

Desfrutar de um almoço típico da região: peixe frito com arroz, feijão, farinha, salada e pimenta. Simples, barato, cujo tempero parece ser o complemento do ambiente. Finalizar com suco de murici e doce de cupuaçu com castanha. A dose exata para a plenitude dos sentidos.

A tarde pode te levar a um banho na cachoeira do Curumu, como se fosse uma visita as iaras e encantados para alegrar o espírito. Às 18 horas, na mesma lancha, voltar a Santarém.

Quando meus amigos saíram para essa viagem, pensei: aventura de doido. Voltarão extenuados. Engano. Chegaram renovados, energizados e muito mais entusiasmados. A felicidade às vezes custa muito pouco.

Essa percepção que temos de nosso lugar, em muito acentuada pela reação de encantamento que provoca naqueles que nos visitam, alimenta, além do orgulha por nossa terra, uma sensação de termos tudo que nos basta. É algo como um pouco mais de sorte. Ser escolhido entre tantos, desprovidos de fartura e beleza, no mais amplo sentido.

Tamanho prazer é como se nos anestesiasse, nos alienasse de perceber o isolamento cultural que vivemos. Agravado pelo surgimento da internet que nos da ilusão de poder estar e dialogar com o resto do país e o mundo. Se a net é valiosa e insubstituível ferramenta de informação, comunicação, pesquisa e entretenimento, ela esta longe de ser uma experiência sensorial plena.

Estamos atolados em problemas complexos, acossados por capitalistas do século XIX, sem vínculos afetivos com nossa terra, em busca de ouro, madeira, bauxita e terras para expandir seu agronegócio. Todas, atividades de alta concentração de renda na mão de poucos. Voltadas para exportação, logo, de baixa arrecadação tributária no Estado, quase nenhuma para o Município. Some-se a isso a baixa geração de empregos e uma população em franca expansão.

Cresce o passivo ambiental, cresce a pressão sobre o sistema público de saúde, cresce os conflitos agrários e a grilagem de terras, cresce a periferização e violência urbana, cresce a contaminação de terras e rios no planalto por excesso de agrotóxico. Em um raio de 500 km, a quase totalidade desses problemas converge para Santarém, com reflexos diretos nos sistemas de saúde, segurança pública e assistência social.

Agronegócio, porto exportador de grãos e extração madeireira necessitam de estudo que avalie o custo benefício para os municípios. Se bons para o governo Federal, paira dúvidas se o que deixam em tributos compense o que trazem em problemas a curto elongo prazo.

Se não bastasse, temos um problema crucial que nos paralisa: estar territorial e administrativamente vinculados ao Estado do Pará. Viver engessado por uma administração central e ter que assistir o engodo de uma publicidade às vésperas de eleição, inaugurar administração regional prometida na eleição anterior. Mais um corpo físico sem recursos e autonomia.

Divulgando croquis de diversos portos na região, como realidade em curso, numa descarada fake news oficial. Trabalham no distante Estado paraense manipulando informação para aprofundar nossa dependência e isolamento.

No Pará não querem ouvir falar em pavimentação da BR-163. Os recursos para nossa região são escassos. A política cultural do Estado é no entorno de suas barrigas, para a distante Belém.

O que mantém Santarém de pé é seu pujante comércio, por ser um entreposto comercial e ter se transformado nos últimos anos, em polo universitário. Mas estamos cercados por toda espécie de aventureiros e seus negócios nada convencionais.

Após o plebiscito de 2011, mergulhamos numa perplexidade e desalento avassalador quanto a nosso futuro. Hoje um movimento que nunca esteve de fato nas mãos do povo, por diversas manobras de políticos ansiosos pelo controle político de um desejo coletivo, se resume a um esforçado porta-voz. A repetir os mesmos erros de iniciativas passadas.

Há movimentos organizados de indígenas, quilombolas, ribeirinhos, trabalhadores rurais, pescadores, Tapajós vivo, (o Rio, no caso), mulheres, estudantes, lutando por suas agendas específicas. O que podia ser comum a todos não parece entrar na pauta: O Estado do Tapajós.

Essa bandeira não é posse de político e nem território de um instituto que não horizontaliza a participação. O Estado do Tapajós só será possível quando for bandeira na mão dos movimentos populares da região.

Precisamos estimular um enfrentamento que revele nosso inconformismo e provoque o movimento que nos tire da inércia. Uma simples mudança no perfil de nossas redes sociais tipo: De Santarém, Tapajós, Brasil – De Juruti, Tapajós, Brasil – De Itaituba, Tapajós, Brasil, já é uma atitude.

Somos 1.500.000 de pessoas nesse faroeste. Do Matogrosso ao Suriname.

Se tivermos 100 mil perfis de Facebook, Instagram, Twitter, com essa atitude, daremos materialidade a um anseio coletivo e criamos um fato convincente com tendência a se multiplicar. É um pequeno passo de enorme significado.

Sempre que me perguntam o que significa Tapajós no meu perfil do Facebook, respondo: é o Estado onde nasci. É a maneira que encontrei para divulgar esse projeto que um dia haverá de se materializar. Temos todos os argumentos, alimentar esse sonho é como vislumbrar um horizonte mais promissor para os meninos e meninas que estão chegando.

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* Ativista Cultural e diretor de Produção Artística.

Leia também de Cidmil:
O obscuro futuro do povo brasileiro e de sua quase democracia.

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3 Comentários em: Estado do Tapajós: a perspectiva muda ao primeiro passo, de Paulo Cidmil

  • Caro Paulo!

    Este é um tema que em meu modo de vista infelizmente causou um cisma no estado do Pará como um todo e até hoje tem seus reflexos expostos cotidianamente de forma indireta e outras vezes de forma bem direta.

    Acredito que nossa população como um todo, quer sejam os moradores da região metropolitana e nordeste do estado e que alguns pejorativamente chamam de “Parazinho”, região do Tapajós (que tem meu respeito e carinho pois tive o prazer do morar durantes 02 maravilhosos anos em Santarém) e região do Carajás que também tem minha admiração, onde estabeleci residencia em Marabá por também 02 anos. Todos nós não estávamos preparados para uma discussão desse tipo. E a classe política oportunista como é, aproveitou essa oportunidade para tirar seus proveitos próprios.

    Assuntos complexos foram resumidos em eixos como: O Pará só investe em Belém e jogas as migalhas para Carajás e Tapajós, ou se dividimos o Estado, teremos mais infraestrutura para as regiões do Carajás e Tapajós, pois são regiões geograficamente afastadas da capital, ou ainda são forasteiros querendo dividir nosso estado. Eles colocaram puramente os interesses eleitoreiros em frente ao bem-estar da população, utilizando artifícios rasteiros de jogar a população dessas regiões uma contra a outra.

    Se Belém fosse essa maravilha toda de investimentos, não haveriam periferias como o Guamá, Jurunas, Outeiro entre outros onde não há o mínimo de segurança, saúde, saneamento básico. Uma cidade em que o nível de assassinato é estratosféricos com uma média de 350 assassinatos ao mês.

    Se a distância para capital fosse um fator preponderante para o desenvolvimento de uma região, Sergipe seria o estado mais desenvolvido, pois é o menor da federação brasileira. Entretanto, apresenta um dos piores IDH, níveis de saneamento básico, educação etc.

    Infelizmente, em ambos os lados, quer seja pelo SIM ou pelo NÃO trapacearam nossa população e venderam fábulas para consolidar independente do resultado dividendos políticos: Prova disso? Zenaldo Coutinho depois do Plebiscito se tornou prefeito de Belém e a família Salame reina em Marabá. Nem precisando expor quem reina absolutamente na política santarena mesmo não sendo eleito pelo voto da população.

    Para finalizar meu questionamento, uma única discordância que tenho diante do belíssimo texto é quando o autor informa que no Pará não se quer a construção da BR 163, vale lembrar que recursos para essa obra são de origem federal, em nada tendo interferência do estado. Não esqueçamos que estamos sob o mandato de um presidente usurpador, corrupto e que tem os menores índices de investimento nos últimos 30 anos. E em relação a cultura o autor informa que a política de cultura do estado está voltado para Belém e “sua barriga”. eu pergunto, qual a política de cultura no nosso estado? Se promover uma feira com expositores de livro durante 7 dias ou colocar 02 dias de apresentação de ópera em um dos teatros mais bonitos do Brasil, onde a maioria da população não tem acesso ou nunca sequer entrou no recinto para conhecê-lo, não me parece nem sombra de uma verdadeira política de cultura. Talvez a melhor realidade seja aquela informada pelo IDEB (índice de Desenvolvimento da Educação Básica) onde temos (o Pará) a 4º pior nota do Brasil.

    Talvez esteja na hora mesmo da sociedade política, novamente manifestar seu interesse em discutir novamente esse tema, mas dessa vez sem bairrismo, sem mágoas, sem falsas notícias e principalmente sem a intervenção política/eleitoral. Realizando um grande debate fraternal, afinal hoje somos todos filhos de um mesmo estado e amanhã podemos ser irmãos, frutos da união de estados fraternos.

    Que bons ventos conduzam o Pará e o Tapajós!

  • Llorra perdedores Lorra!!! esses mocorongos vão viver de que se criarem um estado ? de exportarem piracuí e cuia…. nem futebol tem para se divertir …. aquela “praia” de alter do cão é só carestia bosta e hepatite!!!!

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