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Juma e a nossa herança de regatão

Juma e a nossa herança de regatão, onça Juma, abatida Juma, abatida a tiros logo após a passagem da Tocha Olímpica por Manaus

por Josué Vieira (*)

josué vieiraNão havia outras razões para que o Realismo Mágico tivesse nascido em outro lugar se não fosse na América Latina, Garcia Marques de suas memórias, trajetos, historietas de bairros, das identidades permanentes e deixadas de lado na sua misteriosa conhecida Barranquilha, uma América miniatura.

Leia também do autor – És tu, pró?

Vargas Llosa da crítica sobre as “castas” sociais vigentes na América Latina, onde figuram personagens de bordeis, políticos, asseclas da vida inventada, propostas existenciais e a recorrente pobreza produzida pelas formas de acumulação capital, dos desvalidos que produzem muito e dos anônimos endinheirados que consomem tudo.

Manuel Scorza com suas “Baladas” descrevendo os conflitos do ambiente rural peruano, de seus massacres camponeses nos Andes Central, a fantasia e a denúncia convivendo num gingado de bolero em que lâminas postas na saia rodada da bailarina ceifam as prerrogativas de um sonho coletivo de igualdade; dos amantes… unidos pela necessidade e discordantes de si próprio.

Julio Cortázar com seus rompantes narrativos, de personagens autônomos, fugidios das expectativas e da própria narrativa feita artesanato intelectual, o estranho se materializando na forma de presença absoluta de um dia ter encontrado esse “conhecido” brevis, pronto a sufocar.

E de Jorge Luis Borges, persona lettre decomposta numa prosa envolvente, esclarecedora, um passeio pelos jardins da filosofia, teologia, metafísica, o saber é cego por isso enxergamos.

Não podendo esquecer de Alejo Carpentier, fundador do real maravilhoso, criador na literatura latino americana de um mundo legendário, mágico, descomedido para representar e justificar eventos históricos ocorridos no período da transição de poder na região caribenha, cita-se Haiti, onde a elite colonial branca de origem francesa era substituída à força pelos nativos cativos, escravizados e empobrecidos reunidos em volta da ideia de independência, de descolonização.

Qual, também, Murilo Rubião com sua semelhança kafkiana sobre o absurdo e as situações insólitas ocorridas no cotidiano que desemboca em fantasias, surrealismos, critica às engrenagens burocráticas da vida, e sobre o caráter corrompido do ser humano.

Na mesma seara, retirando lições e significados do oculto, e com penetrante humor negro semelhante ao de Rubião, José J. Veiga, que assim como Manuel Scorza, carregou a realidade dramática do mundo rural para as belas-letras representativas do mundo como fingimento comprometido, Veiga não se poupou do deleite de caracterizar a vida apreensiva do ruralismo estabelecido no Centro-Oeste brasileiro, cita-se Goiás.

Panorama de nomes e propostas existenciais de registrar e conhecer a vida, ligados pelo compromisso de retratar as linhas matriciais que seguram as modalidades existenciais em comunidade, as necessidades de estabelecer a privacidade, a sociabilidade e a solidariedade seletiva posta em ação antes das palavras, antes das nominações e finalidades dolosas, cujo ponto de encontro narrativo desses literatos é a verossimilhança.

Ao lado dos prosélitos do pantheon realismo mágico, Juma, onça de 9 anos que residia no Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), Manaus, Amazonas.

Mascote do 1º Batalhão de Infantaria da Selva (1º BIS), foi abatida à tiros no ultimo domingo (19/06) por se recusar a voltar para a jaula e tentar atacar um militar, tudo isso após cerimônia de passagem da tocha olímpica pelo complexo militar, na qual Juma não estava licenciada para tal apresentação, pois conforme a autorização do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), a licença para o evento era para o macho da espécie alcunhado de Simba.

“Erramos ao permitir que a Tocha Olímpica, símbolo da paz e da união entre os povos, fosse exibida ao lado de um animal selvagem acorrentado. Essa cena contraria nossas crenças e valores. Estamos muito tristes com o desfecho que se deu após a passagem da tocha. Garantimos que não veremos mais situações assim nos Jogos Rio 2016.”, diz o Comitê Organizador das Olimpíadas “Rio 2016” no pequeno comunicado postado no perfil facebook Rio 2016; reconhece o erro, mas não se desculpa e toma providências.

Tocha Olímpica.

Ao lembrar que a “Tocha Olímpica” é “símbolo da paz e da união entre os povos” separa os humanos dos outros animais, “exibida ao lado de um animal selvagem acorrentado”, traz a tona a velha celeuma entre civilizados e bárbaros, entre os “eleitos” e os “outros”.

Eles ficam “muito tristes com o desfecho que se deu após a passagem da tocha”, mas não se resignam com a morte do Símbolo Nacional inscrita na lista do Ibama de espécies ameaçadas, e prometem “que não veremos mais situações assim nos Jogos Rio 2016”, porque Juma não é símbolo da paz e da união entre os povos.

Porque era apenas um felino acorrentado que vivia numa jaula militar, e só prestou para uma demonstração circense de uma imagem da Amazônia selvática, atrasada, jogada para o escanteio do capitalismo, que ainda padece com problemas estruturais e sanitários seculares, por isso o braço forte do Estado, o Exercito, precisa controlar.

Onde a única liberdade do ser humano nessas plagas é se contentar com o trabalho e a imagem de “cordialidade”, assim como Juma, cuja liberdade era obedecer e no dia em que tentou reaver o titulo natural de maior felino do continente americano, de animal territorialista que necessita de até 150 m2 para viver em liberdade na floresta foi parada a tiros pelos militares.

O assassinato da Juma representa o ponto final de muitas situações criadas para a Amazônia nos últimos 60 anos, esse fato é uma espécie de “de te fabulla naratur”, na melhor definição de Horácio (Sátiras 1, 1-69): “Quid rides? Mutato nomine de te/Fabula narratur” [De que estás rindo? É a ti que se refere a história, apenas com o nome trocado”].

Esse crime, acima de tudo, representa a falência das ideias de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável, na verdade o desmascaramento de tais premissas, por que até o momento esses conceitos serviram na Amazônia para deixar mais longe os recursos naturais de quem mais dependia dele, porque nossa legislação ambiental “sustentável” produz mais monstrengos depredatórios que faz como outras Jumas “invadam” os espaços de vida social e acabem numa mesma jaula militar em que a onça abatida à tiros passou seus últimos dias.

A morte da felina carrega toda a falência social da sustentabilidade e desenvolvimento sustentável para a Amazônia, reafirmando que essas ideias servem aqui para produzir novos espaços de segregação e divisão desigual dos direitos de uso e exploração dos recursos naturais da floresta, além de provocar um desequilíbrio na fauna e flora nativa.

Juma desde sempre não foi convidada “Pra esta festa pobre / Que os homens armaram / Pra me convencer / A pagar sem ver / Toda essa droga / Que já vem malhada / Antes de eu nascer”.

É vitima primária de nossa ideia de “viver melhor”, dos novos e megalômanos empreendimentos imobiliários de classe A recém inaugurados e recém falidos pela crise assombrosa no Brasil, que devastaram a natureza forçando o êxodo da fauna, porque resgatada como animal mal-tratado e de cativeiro.

Juma assim como outras que vivem refugiadas nas conurbações urbanas de “originárias” passam para o status de “convidadas” até serem consideradas de “alheios/outros” e sofrerem retaliações violentas, como foi Juma por sua desobediência libertária.

De toda forma todos nós puxamos aquele gatilho, há sangue em minhas mãos, sangue inocente, vítima de nosso ego civilizador, da publicidade de nosso ethos dominador.

A conta da “Tocha Olímpica” foi a Juma, sacrificamos para receber prataria nova, todo argumento que justifique seu assassinato é ranço das relações sociais cotidianas, é “herança de regatão” que bebe na desinformação que produz violência.

O abatimento da Juma reflete até que ponto podemos chegar com nossa ideia de “cordialidade”, de “homem cordial” tão bem desenhado por Sergio Buarque de Holanda na obra “Raízes do Brasil”.

Sacrificamos os de casa em favor de algo novo, vindo de fora, como fosse única oportunidade na vida. Aniquilamos os de casa para satisfazer nosso ego libertino do festejar.

Se não fosse realidade, estaria inscrito como conto, novela ou romance da estética literária Realismo Mágico, a relação entre verossimilhança e ação social é tão bem definida na tragédia Juma, que antes de compor o legado negro das Olimpíadas, ficar ao lado do Estado do Rio de Janeiro falido, dois mortos pelo desabamento de um ciclovia, ela é uma historia real mágica.

Porque a normalidade com que o COB, o Exército, os órgãos de proteção ambiental e a sociedade tratam o assunto apresenta elementos fantásticos embebidos no racionalismo “civilização/barbárie”, como na “Amazônia é assim…” portanto eles que resolvam.

Por seguinte, a realidade do assassinato é tratada intuitivamente; a morte é apenas uma percepção da realidade e da história dos homens, ela é feita “necessária”, portanto praticamo-la.

Apesar de real, os elementos que suportaram a vida da Juma no zoológico do CIGS podia acontecer, era uma hipótese, hoje tornaram-se urgentes e precisos por conta da fauna expulsa de seu habitat devido a intervenção capital do homem na floresta.

As explicações substituem o tempo da ação, a “tristeza” por parte do Comitê Organizador das Olimpíadas “Rio 2016” tenta substituir a resposta pontual, tentam distorcer o tempo, a visão estética tenta substituir a experiência do real.

Se tudo isso fosse trabalhado pelas belas-letras, incluindo experiências fantásticas no meio, e uma certa preocupação estilística resultaria num Realismo Mágico.

Mas, não… aconteceu!

#tragico.

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* Santareno, é professor universitário em Manaus. Escreve regularmente neste blog.

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4 respostas a Juma e a nossa herança de regatão

  • jpau disse:

    Fico imaginando como seria a Filosofia e a História dessa morte se fosse o contrário; ou seja, o bicho ter devorado uns recrutas desse Quartel do Exército…

    • Josue Vieira disse:

      De qualquer forma é injustificável o abatimento da Juma, e se por infortúnio viesse acontecer a algum militar também seria injustificável porque a expressão “morte em serviço” possui um outro iceberg contratual submerso em contratos institucionais, enquanto o de Juma está nas condições como foram criadas essa morte não possuindo justificativa localizada na ação pela ação. Os fundamentos estão em outras situações que levaram a Juma para a jaula e de como o zoológico do CIGS foi transformado nos últimos anos em deposito de animais resgatados por conta de maus-tratos ou que foram recolhidos no perímetro da zona urbana famintos, feridos, expulsos de seu habitat por conta da capitalização imobiliária, agrícola e pecuária da terra na Amazônia, no caso de Juma em Manaus (AM).
      E por conta de ser injustificável, essa ação necessita de resposta pontual por parte do Estado na responsabilização do COB e do Exercito por conta do assassinato da Juma, que se fosse no caso de algum militar também necessitaria de uma resposta pontual, não uma nota expressando a tristeza por conta do ocorrido, como se isso fosse substituir os trabalhos do braço punitivo do Estado por conta de assassinatos praticados dentro de seu território soberano.

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