Meninos, eu vi! São Raimundo, 75 anos. Por Helvecio Santos, São Raimundo, de 1968
Time do São Raimundo em 1968. Onde aparecem Inacinho (o 4º em pé, da esq. p/ dir., e Manuel Maria, o 2º agachado. Estádio Elinaldo Barbosa. Foto: Rdo Gonçalves

No ensejo dos festejos pela passagem dos seus 75 anos de fundação, com este texto homenageio o São Raimundo Esporte Clube (Santarém-Pará), sua imensa torcida e a todos que comungam com o entendimento de que futebol é alegria, oportunidade de encontro e crescimento pessoal.

Helvecio

Penso que nesta oportunidade, cai como uma luva falar das lembranças que me ligam ao São Raimundo, um período rico em experiências e muito feliz da minha vida. 

Para compreenderem o texto – eis que já declarei que sou azulino de raiz – por um bom tempo vivi o dia a dia do alvinegro santareno e antes de jogar no meu querido Leão, já dei glórias ao Pantera e este vestibular foi a escada que me proporcionou chegar àquele. Fui Campeão de Aspirantes e do Torneio Início de 1967 pelo São Raimundo, títulos até então nunca conquistados.

Assim, conto aqui um pouco dessas lembranças e também relembro um pouco de uma Santarém de um branquíssimo sorriso arenoso, verdadeiramente Pérola de um cristalino Tapajós, beijada levemente pelo gigante Amazonas.

Convido os leitores que viveram essa época a embarcarem neste passeio memorial e os que não viveram, a imaginarem esse ambiente futebolístico, numa cidade de sonho, sonho sonhado por uma geração. A minha geração!

Então, senhores passageiros, apertem os cintos, a viagem vai começar e Deus é testemunha que falo a verdade. Eu vi e vivi, ninguém me contou!

Vi e convivi com grandes jogadores e ex-jogadores alvinegros, figuras que são incontornáveis, verdadeiras lendas. E quem haverá de negar?

É impossível falar do São Raimundo sem falar do Nego Otávio, um dos maiores beques que vi jogar. Altivo, “Tinha a dignidade de um mestre sala”.

Outros de igual estatura desfilaram perante meus olhos de adolescente, o que torna o Nego Otávio ainda mais emblemático. Que dizer do Goitinho e suas perfeitas bicicletas estilosas, coisa de dar inveja a Leônidas da Silva, o Diamante Negro, criador da mesma e eternizado em uma marca de chocolate?

Que dizer do Orlando Cota de quem, dentro de campo, jamais alguém tirou um sorriso, tamanha a paixão pelo seu alvinegro, levada às raias de religião? Que dizer do Rubem Araújo, imortal Rubem Cachorro e o “canhão” que tinha nos pés? O homem que em Óbidos, batendo tiro de meta, marcou gol contra? Como isso foi possível? Pasmem! O campo não tinha a dimensão oficial e ao disparar o petardo a bola bateu na trave contrária e voltou, pegando o goleiro desprevenido.

Que dizer do Amiraldo e do Valdo Bidala que já em 1967 batiam faltas com a magistralidade que o Zico imortalizou ao redor do planeta? E do Pedro Nazaré? Lateral com cruzamentos tão perfeitos que faziam parecer haverem sido alçados com as mãos na grande área.  

Saudades do Bosco ou Balãozinho que fazia com a bola o que o Ronaldinho Gaúcho fez em comerciais na TV ganhando rios de dinheiro e do seu companheiro Jurandir, egresso do Seminário São Pio X, passos largos e dignidade ainda maior, que tratava a bola como uma das muitas santidades que estudara no Seminário.

Saudades do Genésio e suas elegantes e perfeitas saídas do gol em pontes maravilhosas que pareciam querer parar no ar.

Lamento pelos que não viram o Mazinho, negrinho sorriso, ensaboado, liso que nem canderú, que escondia a canela sei lá onde, deixando os “xerifes” a ver navios e os gandulas cansados de trocarem números nos placares até então, manuais.

Que dizer do Espadim, carinhosamente Freveu, e suas estilosas matadas de bola no peito? Que dizer do Dão, ariano que por preguiça ou inteligência, nunca dava mais do que dois passos pra lá e dois passos pra cá, bailando ao som de um imaginário conjunto musical, sempre adivinhando a trajetória da bola e colocando-a milimetricamente nos mais cobiçados espaços do gramado?

E do Pedro Olaia, artista com a bola nos pés que quando o vigor físico lhe abandonou, mudou o foco da arte exibindo sensibilidade no Museu Dica Frazão?

Que dizer da elegância do Antonio Edilson – como gosto de chamá-lo e não Santos, como é conhecido – formando dupla de zaga com Miguel Coruja, um dos melhores cabeceadores que conheci e que, com o Brito e Pedro Nazaré, formavam uma zaga quase intransponível?

Pobre dos que não viram! Paro por aqui, mas tem mais,muito mais! A lista é extensa…

Numa Santarém romântica, de domingueiras matinais embaladas por shows no auditório do Cristo Rei, comandados por Ércio Bemerguy e Edinaldo Mota e transmitidos ao vivo pela ZYR-9 – Rádio Emissora de Educação Rural de Santarém Ltda; de banhos na Coroa de Areia ou mergulhos na Vera Paz; de geniais pecados veniais no Poço Frio do Antonio Palma, ali pras bandas do Mapiri; de tardes de Rai x Fran no Elinaldo Barbosa; de vesperal no Cine Olimpia e de noites de seresta nas vozes de Expedito Toscano, Machadinho, Armando Soares, Abelardo, Ray Brito, Wilsinho Fonna ou nas vitrolinhas portáteis, Roberto Carlos, Agnaldo Rayol, Paulo Sérgio, até que a rayovac acabasse ou uma bacia d’água afogasse a paixão vertida do eletro portátil, os campos formadores dos craques tinham origem definida.

Os jogadores do Náutico eram oriundos do campo da Base Aérea (hoje parte do Parque da Cidade); os do Flamengo, das “peladas” de fim de tarde no  areião em frente à Prefeitura (hoje Museu João Fona); os do América, do areião em frente à casa do Zeca BBC (entre o Mascotinho e o Terminal Turístico), dos campos do Dom Amando e do Colégio Batista; os do São Raimundo, do areião da saudosa Coroa de Areia e das peladas do Grupo Escolar Barão do Tapajós, ali na Travessa Dois de Junho.

Os do Leão? Bom, estes vinham de todo lugar! Da Aldeia, da Prainha, do Dom Amando, do Arapixuna, de Belterra, de Oriximiná, de Alenquer, de Boim, de todo lugar.  

Às 18:00 horas, pelo serviço de alto falante “A Voz da Liberdade”, estrategicamente instalado nos altos do Castelo, na esquina da João Pessoa (hoje Lameira Bittencourt) com Travessa dos Mártires, ouvia-se a oração da Ave Maria na doce voz da Ruth Santos.

Após a contrição da reza, as regras tacitamente combinadas nas “peladas” na areia que começavam ali pelas 17:00 horas estavam liberadas e era a hora do vale tudo: voadoras, rasteiras, rabo de arraia.

Era hora dos mais fortes ou dos mais rápidos e só estes se arriscavam a continuar nos “rachas” que terminavam quando o véu da noite a todos cobria e nada mais se podia ver. 

Depois do banho no limpíssimo Tapajós, vinha a “social” com o papo na Praça da Matriz ou na Praça do São Raimundo ou com fartas doses de bacardi com coca cola e limão no Mascote, ou pecados no Tapajós Bar e no Pau das Garças, ali na “carreira” do “Seu” Cajuhy, estaleiro que ficava no areião no cruzamento do que hoje é a Avenida Tapajós com Travessa Padre João, onde as “garças” faziam ponto.

Vivi esses fatos e convivi com as estrelas do nosso futebol que constelaram esse período áureo e aqui destaco dois jogadores do São Raimundo que por características diversas coloco-os na galeria dos imortais e não me queiram mal os que não concordarem: Inacinho, pela versatilidade e o Manuel Maria, por ser um especialista.

Com o Inacinho ou Dom Inácio, como em respeito a seu futebol ainda o chamo, tenho uma relação singular. Foi o responsável pela vitrine na qual apareci. Nunca esqueci e nunca neguei o quanto sou grato a Dom Inácio, mas isso em nada influenciou sempre tê-lo distinguido como o jogador mais completo que passou pelos campos de futebol de Santarém.

Duvido que tenha um jogador que apresente curriculum igual. Dom Inácio foi craque em todas as posições que jogou e foram todas. Com todo respeito aos outros, podia escolher a posição que quisesse jogar e não seria exagero dizer que no mínimo jogaria tanto quanto o dono da posição.

Começou jogando de ponta esquerda, foi lateral esquerdo, lateral direito, centro avante, meio de campo, zagueiro e até no gol jogou. Chutava tanto com a esquerda quanto com a direita, ambas com a mesma precisão. Dono de uma impulsão impressionante, cabeceava magistralmente bem, era mestre na arte da antecipação e sabia como poucos usar os braços para demarcar seu espaço. A natureza também lhe foi pródiga, pois sempre foi esbelto sem precisar lutar com a balança.

Joguei algumas vezes contra ele e foi o centro avante mais difícil que marquei. Para uma melhor avaliação desta afirmação, marquei jogadores do naipe do Edvar (Tuna e Remo), Afonso Lins (Tuna e Remo), Petróleo (São Raimundo), Carlos Alberto Marcosa (América/São Raimundo), Timbó (Norte), Antunes (irmão do Zico, América do Rio de Janeiro) entre outros.

Ave, Dom Inácio! Pobres dos que não o viram jogar!  

Outra sumidade do nosso futebol, Manuel Maria, ponta direita especialista, filho da dignidade ambulante, saudosíssimo “Seu” Davi Nataniel.

A melhor lembrança que tenho dele é uma das tardes de Rai x Fran. Elinaldo Barbosa lotado, ele parado em frente ao Acari (lateral esquerdo do São Francisco), os pés passando a centímetros da bola sem tocá-la, provocação de quem sabia estar frente a um marcador implacável. Ali estava um touro furioso frente ao toureiro, casco das patas tocando o chão, um esperando o movimento do outro e ambos esperando o momento certo para o golpe mortal.

Em intervalos, a torcida gritava olé, ora para o atacante, ora para o marcador. Findo o espetáculo, dentro do campo não havia vencido nem vencedor. Na verdade o grande vencedor fora o público, extasiado com a pura magia, momento em que o movimento de rotação da Terra parou em respeito ao equilíbrio necessário ao duelo dos titãs.   

Determinado, Manuel Maria passava o tempo que fosse necessário até aprender um drible ou fazer uma jogada. O drible do “elástico” que o Rivelino imortalizou na Copa de 70, o Manuel Maria já executava em 1967.

Antes dos treinos passou muitas tardes na sede do São Raimundo, Galdino com a Senador Lemos, “dialogando” com um pé de laranjeira que tinha no quintal, o qual servia de marcador, até aprender o tal do “elástico”, drible que vira Jorginho, ponta direita do América do Rio de Janeiro, executar.

Era um ponta arisco, driblador, com muita velocidade e o único defeito que tinha nos tempos de São Raimundo era cruzar da linha de fundo com a cabeça baixa. Esse defeito foi corrigido já na Tuna Luso onde jogou antes de se transferir para o Santos. Aí se fez um ponta moderno, completo. Não foi à toa que jogou ao lado de Pelé.

2009 Serie D São raimundo campeão 01
Campeão nacional da série D, mais expressivo título da história do São Raimundo

Manuel Maria foi o maior especialista que vi jogar e olhem, vi o Jairzinho, o Rogério e o Maurício do Botafogo, o Volmer do Grêmio, o Valdomiro do Internacional, o Tita do Flamengo e outros, do Vasco, do Atlético Mineiro, do Cruzeiro etc etc etc.      

Vivi o futebol santareno dos sonhos, varinha mágica escondida nos pés de nossos “minhocas” (jogadores da terra), hoje ofuscados por “babas” de aluguel. Que covardia!

Vi estádio lotado, em contrapartida à decadência de hoje, onde a “ilusão entra em campo no estádio vazio”. Vi as cores alvinegras reinarem absolutas nas camisas e nos calções, ao contrário de hoje, sufocadas em um painel mercadológico colorido.

Santarém cresceu, o futebol involuiu, a torcida sumiu e só alguns poucos resistem.

Se olharmos com os olhos do coração, veremos que a paixão que movia “Seu” Duca (pai do Surdão e do Rubem Cachorro), é a mesma paixão que move o Pinduca.

Enquanto “Seu” Duca, elegantemente vestido em engomados trajes de linho holandês, andava de um lado para outro chutando traseiros e canelas, cabeceando ombros e cabeças, segurando e empurrando os torcedores à sua frente dando “força” aos jogadores e fazendo fora de campo o que os jogadores faziam dentro do campo, o Pinduca canta sua paixão nas arquibancadas ou onde quiserem lhe dar um espaço, por menor que seja.

No mais, para o nosso futebol quase todo feito de “sobras”, “babas” dos clubes das capitais, ao final de cada temporada ficam as dívidas, os canhotos das passagens aéreas e as camisas ainda tingidas pelo pouco suor de alguns cidadãos que brevemente irão beijar o escudo e tingir as cores de outra agremiação.

Hoje, quando a névoa do tempo começa a pratear meus cabelos, contando estas histórias, sinto-me como o velho Timbira do poema Juca Pirama, de Gonçalves Dias.

Ante a incredulidade de muitos, timidamente, afirmo:

“Meninos, eu vi!”

Aliás, vi e vivi, ninguém me contou!

P.S.: respeitosamente dedico estes escritos aos jogadores, aos torcedores e aos familiares dos jogadores que não puderem lê-lo, estejam onde estiverem. Dedico também aos amigos Dom Inácio. Rubem Chagas e Raimundo Gonçalves.


— * É advogado e economista santareno. Reside no Rio de Janeiro, de onde escreve regularmente neste blog.

Leia também dele:
Que venham as árvores!

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4 Comentários em: Meninos, eu vi! São Raimundo, 75 anos. Por Helvecio Santos

  • Helvécio Santos , meu caro.

    Boas lembranças, É verdade que não voltamos ao passado, porém, o passado volta até você.
    Quanto ao Inacinho, coaduno com sua opinião, um baita jogador.

    Quero incluir, nessa relação , quem na minha opinião foi o Pelé da Zaga, o inigualável Dom Helvécio Santos. ( Até pelo nível de inteligencia, percebendo imediatamente no inicio de sua carreira que estavas ERRADO no timeco chamado Gato Preto Pirento, transferiste de Grupo, indo a Clube a Clube…..Clube só tem um, em todos os tempos em Santarém, oeste do Para: Chama-se SÃO FRANCISCO FUTEBOL CLUBE. este Sim! Aqui é LEÃO….
    Helvécio Santos- És considerado o Pelé da zaga em Santarém! Tenha certeza!

  • Honrado com a dedicatória desses escritos e duplamente credenciado por ser o presidente da Assembléia Geral do São Raimundo Esporte Clube, apresento parabéns e o agradecimento pela belíssima narrativa em forma de prosa com tons de indisfarçada nostalgia poética de seu testemunho que inicia com sua gratidão por ter vivido quando ainda bem jovem, o dia a dia do alvinegro onde foi formado na categoria de base antes de jogar como titular absoluto no seu querido Leão, conforme atesto.
    De tudo que foi contado homenageando nosso querido Pantera e os seus atletas que você tão bem conheceu, nessa verdadeira viagem aos tempos de glória, permita-me, tal como o autor chileno Pablo Neruda, “Confesso que vivi”.

    • Que elegância e precisão! As mesmas, dentro e fora do campo. Um abraço saudoso e com muita emoção.

  • Que elegância e precisão! As mesmas, dentro e fora do campo. Um abraço saudoso e com muita emoção.

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