por Helvecio Santos

Minha mãeNão era alta, como a via quando criança. Nos meus últimos tempos em Santarém precisava abaixar para beijá-la na testa.

Aparência frágil, não pesava mais que cinquenta quilos. Cabelos pretos delicadamente anelados, um olhar observador e profundo, desses que não precisam de palavras como leito e sozinhos mandam mensagens.

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A robustez manifestava-se no seu caráter, na honestidade inegociável, no irrepreensível respeito a todos e no imaculado sacerdócio de esposa e mãe.

Gostava de roupas simples, o que vinha ao encontro da nossa situação naquela época. Normalmente vestidos feitos por minha irmã Neusa, Manona para mim, todos de algodão com pequenas estampas florais.

Nunca usou sapato de salto alto e até acredito que não sabia caminhar com eles e também nunca a vi de sandálias havaianas. Gostava mesmo era de chinelos de couro, tipo franciscano, macios, bem ao modo da delicadeza que seus pés exigiam.

Em demorados banhos fazia-se sempre cheirosa, sabonete Phebo, dos tradicionais, embalagem amarela, e não dispensava o seu talco Cashmere Bouquet.

Educada, nunca a vi levantar a voz com qualquer pessoa e em qualquer situação e, quando me punia, explicava amorosamente porque o fazia.

Às vezes negociávamos a punição e mesmo quando não tinha sucesso no pleito, isso não a impedia que minutos depois me cobrisse de beijos.
Se à distância, chamava-me com um assobio inconfundível.

Gostava de música e não esqueço o sorriso que ganhei quando num longínquo Dia das Mães lhe dei de presente um radinho à pilha, desses que levávamos para o campo de futebol. Momento especial acontecia quando botava seu LP preferido e do toca discos vinha o som de “Obreiros do Senhor”.

Sim, mamãe era evangélica, congregava na Assembléia de Deus, igreja que ficava ao lado da casa do “Seu”Macambira, na 24 de Outubro, quase esquina da Augusto Montenegro, conduzida pelo Pastor Otoniel.

Não era apegada a bens materiais. Seu maior tesouro, depois dos filhos e netos, era sua bíblia sagrada.

Carne vermelha não era “sua praia”. Adorava frango na brasa e peixe cozido, deleitando-se no caldo como entrada. Não dispensava um bom mingau de banana, caribé com manteiga e um cafezinho à tarde, pó passado no saco e café torrado e pilado em casa, tarefa que me era confiada.

Pontualmente, às nove da noite, orava, mas não dormia sem que todos os filhos estivessem em casa.

Nos últimos anos que esteve fisicamente entre nós, sua grande amiga era Dona Francisca, vizinha que morava na casa alugada pelo “Seu” José Serruya. Após o banho da tarde, programa certo, sentavam para conversar.

Mamãe, evangélica, Dona Francisca, espírita, mãe de santo.

Não sabíamos o que tanto conversavam mas o certo é que uma pediu à outra que quando o Altíssimo chamasse, a que ficasse cuidasse dos filhos da que se fora. Mamãe foi chamada primeiro. Por respeito à sua memória e seu cuidado de mãe mesmo após a passagem, somado ao imorredouro carinho que nutro por sua amiga, Mãe Francisca é como até hoje me refiro a ela.

Mamãe fez sua viagem espiritual no dia 11 de fevereiro de 1981.

Vinte e nove anos se foram e até hoje sinto saudades daquele olhar meigo que só as mães sabem olhar, da maciez de sua voz, do toque suave de suas mãos e até do punir, melhor, educar, sinto saudades.

Ah! Como gostaria de voltar a ser criança, pegar em suas mãos e juntos irmos ao mercado fazer compras.

Ainda hoje, nos meus momentos difíceis, como tantas vezes fiz antigamente, busco ajuda em seus conselhos, porto seguro mais que seguro, e viajo na espiritualidade perguntando como ela faria. Sempre encontro respostas positivas. Também nos momentos bons, nos momentos de felicidades, somos parte do mesmo corpo.

Olhando-me fixamente no espelho da vida, narcisistamente vejo em mim traços de sua beleza. Menos a exterior e mais a interior, e cultivando essa beleza descubro-me cada vez mais lindo.

Foi tanto amor, tanto zelo, que às vezes ouço sua voz chamando-me pelo carinhoso: Meu Preto!

Em meu peito….saudades…saudades…saudades!

Estes escritos são para todas as mães que se sentem tão bonitas por fora quanto o sabem ser por dentro, e a todos os filhos que descobriram que todo dia é Dia das Mães.

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Publicado originalmente no jornal Gazeta de Santarém em 15/05/2010

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