Blog do Jeso

O poeta da Vila

por Cristovam Sena (*)

O poeta da vila, de Cristovam Sena - Blog do JesoA microrregião do Lago Grande do Curuai faz fronteira com dois municípios: Óbidos e Juruti.

É um dos doze distritos que compõem o município de Santarém, formado por mais de 60 comunidades espalhadas em área de várzea e terra firme.

Leia também do autor – Navarrinho fez o Madureira chorar.

Abriga uma população aproximada de 20 mil habitantes, população superior a dos recém criados municípios de Belterra (17.036) e Mojui dos Campos (15.446).

Desde a década de 1980, o Lago Grande do Curuai almeja se emancipar de Santarém. É uma região que recebe pouco investimento público, tanto Estadual como Municipal. O que não a difere das demais regiões do interior.

Andei pela primeira vez pelo Lago no início da década de 1980. A Emater tinha inaugurado um escritório na Vila do Curuai e o agrônomo Jaci Barros foi chefiar a casa.

Como extensionista da Emater, eu fazia viagens periódicas para acompanhar e executar serviços de campo. Naquela época, a principal atividade econômica da região era a agropecuária familiar. Os agricultores viviam de pequenas criações de gado e produção de farinha de mandioca em pequena escala, complementada pela pesca e coleta de frutas da floresta e várzea.

Viviam a vida tradicional do homem do interior da Amazônia, sem pressa e sem sonhos capitalistas de consumo e acumulação. Para eles, a vida, mesmo difícil, fluía como um igarapé a correr tranquilo na direção do rio.

Foi lá que conheci a cultura do curauá e fiz dela um cavalo de batalha por mais de duas décadas, pois enxergava na fibra uma saída econômica para os pequenos produtores da região. Fato que não aconteceu. Fomos vencidos pelas circunstâncias que levaram o projeto ao fracasso, não pela incapacidade dos produtores de abastecerem de fibras naturais (juta, malva e curauá) a indústria que se estabeleceu em Santarém, mas por motivos diversos que não vale a pena aqui comentar.

Nesse período que trabalhei naquela região convivi com pessoas simples, simpáticas, que atraíram minha atenção. Uma delas foi o Raimundo Duarte Nobre, conhecido em todo Lago Grande como Catebreu.

O jovem Ericson Aires, dono do Sebo Porão Cultural, aqui em Santarém, publicou no Blog do Jeso uma matéria que retrata em rápidas pinceladas a figura do Catebreu, que ele considera “um ser encantado da Amazônia, lenda viva do Lago Grande do Curuai, apaixonado por livros. Um herói quixotesco, guardião de um templo onde ele reina absoluto, sozinho, nos confins de uma Amazônia que ninguém quer ver”.

Pois o Catebreu é tudo isso que o Ericson disse, e um pouco mais.

É uma “avis rara” que tem a Vila do Curuai como habitat. Uma pessoa única, excepcional, que tive o prazer de conhecer. Apesar de ter passado pouco tempo frequentando escola – é semi analfabeto – sempre se interessou por livros. Criou uma amizade grudenta com eles.

Foi uma criança de porte físico esmirrado, desengonçado, que sofreu com as brincadeiras dos colegas, o atual bullying. Por isso, passou pouco tempo frequentando a escola, onde mal aprendeu a ler.

Discriminado, preferiu se afastar da turma. Mesmo longe dos bancos escolares as chacotas com relação ao seu porte físico se multiplicavam e ele preferia levar tudo na brincadeira, nunca se irritava, não revidava. Preferia se isolar.

Começou a pedir livros para quem aparecesse pela Vila. Com esses livros doados montou a primeira biblioteca no Curuai. Desorganizada, mas montou. Inicialmente na sala da sua casa. Os alunos da vila passaram a frequentar sua modesta residência em busca de livros e revistas para ler, o que acabou despertando interesse da direção da escola.

Quando o município reformou a escola Antônio Figueira, levantou ao lado uma sala de madeira para que o Catebreu instalasse sua biblioteca anexa ao educandário.

Contratado pelo município para prestar serviços na Unidade de Saúde como vigia, devido ao seu interesse pelos livros acabou transferido para a escola, onde foi tomar conta da sua biblioteca. Quando foi demitido a biblioteca, retornou para a sala da sua residência.

A amizade com os livros levou Catebreu a versejar os acontecimentos que se passavam na Vila, a homenagear pessoas e fatos com seus “versos de pé quebrado”, com aquela caligrafia retorcida que precisa ser observada com atenção para se descobrir o que está escrito.

Sempre que chega alguém que ele considera importante, ele se aproxima daquela pessoa e muitas vezes já vai levando em mãos um verso fresquinho para homenageá-la.

No verão de 1996, o repórter Ivacir Matias veio ao Lago Grande colher imagens sobre a cultura do curauá. Ele fazia parte da equipe que apresentava o programa Globo Rural. O verão tinha sido forte e o lago estava seco.

Acompanhei a equipe e o barco encalhou na comunidade do Inanu. Somente com ajuda de um prático que conhecia os caminhos sinuosos e estreitos do fundo do lago conseguimos chegar até a Vila do Curuai.

Esse fato foi registrado pelo Catebreu sob a forma de poesia: “Globo Rural enfrenta a batalha lagograndense”. Poesia de oito estrofes, com quatro versos cada uma, manuscrita:

………………..
Mas seus esforços valeram
Batalharam a chegar
Viram o nosso sofrimento
Na vontade de navegar
…………………

No ano seguinte, em função da reportagem do Globo Rural, o Lago Grande recebeu a visita do governador Almir Gabriel e sua comitiva. Foi o primeiro governador a visitar o Lago Gande.

Rosivaldo Colares, extensionista da Emater e atual Secretário Municipal de Agricultura, que trabalhou na Vila do Curuai nesse período, tinha presenteado Catebreu com uma máquina de escrever portátil. Para homenagear os visitantes ilustres, ele escreveu longa poesia, com 19 estrofes, agora datilografadas. Como ele me considerava o responsável pelo o que estava acontecendo com a fibra do curauá, deu à sua poesia o título “Cristovam Cena”. Assim com C mesmo. As duas poesias fazem parte do acervo do ICBS.

A máquina facilitou a vida do escritor e dos seus leitores. Aumentou sua produção, escreveu folhetos enaltecendo personalidades e a própria Vila do Curuai. Hoje, numa demonstração de carinho dos comunitários, é conhecido como o “Poeta da Vila”.

O que leva um jovem do interior da Amazônia, nascido em berço pobre, pais semi-analfabetos, a gostar de livros?

Qual o mistério que envolve essa criatura que o torna um ser especial, a viver sua infância longe de tudo que se relacione com o conhecimento explicito, adquirido através de livros e manuais, e mesmo assim se tornar diferente dos iguais da sua comunidade?

Como bem disse o Ericson: Catebreu “é um herói quixotesco, guardião de um templo onde ele reina absoluto, sozinho, nos confins de uma Amazônia que ninguém quer ver”.

O que significa Catebreu?

Nem o Google sabe!

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* Engenheiro florestal, é diretor-fundador do ICBS, Instituto Cultural Boanerges Sena.

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Uma resposta a O poeta da Vila

  • Nerivaldo Cesar disse:

    Parabéns Cristovam, por nos trazer luz com seu artigo, sobre a bonita história existencial desse amazônida Catebrel. Adoro Curuai. Sempre vou lá a trabalho da Justiça. Vou procurar conhecer essa riqueza.

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