* Duas versões e a imagem editorializada

por Samuel Lima (*)

Dois grandes nomes do jornalismo mundial percebem, pelo mesmo ângulo, uma questão de fundo que atravessa a alma secular do Jornalismo. Cláudio Abramo e Carl Bernstein (da célebre cobertura do “Caso Watergate”) entendem que a missão maior do repórter é apurar a melhor versão da verdade – e publicá-la.

Uso essa referência para discutir três versões da “verdade” professadas pelo jornal Folha de S. Paulo e dois telejornais da TV Globo (Bom Dia Brasil e o Jornal das Dez – da Globo News). O fato: um mega protesto que reuniu dezenas de milhares de argentinos, contra o governo de Cristina Kirchner, no último dia 8 de novembro (batizado nas redes sociais de “8N”).

No maior jornal diário brasileiro, esse acontecimento que mobilizou multidões na Argentina, ganhou o destaque na capa da edição de 09/11 (https://migre.me/bOlGS), com uma imagem central sobre a seguinte legenda:

MEGAPANELAÇO: Em Buenos Aires, milhares fizeram o maior protesto contra Cristina Kirchner, pedindo mais liberdade de expressão e repudiando um terceiro mandato (Mundo, A26).

Na hierarquia da Folha de S Paulo, os milhares de argentinos que protestaram contra o governo de Cristina Kirchner o fizeram: em primeiro lugar em defesa da suposta “liberdade de expressão” e, em segundo lugar, contra um possível “terceiro mandato”.

Temos aí, no limite, uma meia verdade. Moldando os fatos à visão editorial do diário paulista, o capeiro editorializou a imagem, como se poderá observar comparando o relato de outro repórter (Ariel Palácios, da Globo News) e a própria cobertura da imprensa portenha (no Clarín).

A reportagem de Sylvia Colombo (direto de Buenos Aires), na editoria Mundo (09/11, p. A26) resume a motivação do protesto em três questões, acrescentando à legenda a preocupação com a “segurança”. Contudo, a jornalista da Folha escreve que:  (a) O protesto foi organizado por opositores da presidente Cristina Kirchner; (b) os organizadores estimaram em 500 mil o total de participantes – a polícia não divulgou dados; (c) Os participantes do ato eram principalmente de classe média e alta.

A versão da verdade para o Clarín (ed. 09/11), o principal porta-voz da oposição ao governo de Kirchner, traduz-se em outro discurso, com sensíveis diferenças a suposta agenda da mobilização publicada na Folha. Confira:

La principal destinataria de las protestas fue la presidenta Cristina Kirchner. Las consignas fueron variadas: se vieron carteles rechazando su posible “re-reelección”; pidiendo por el fin de la inseguridad y mejor Justicia; se repetían quejas escritas y verbales contra la corrupción y la inflación, entre otros reclamos (https://migre.me/bOnAz). [Grifos meus]

Nos grifos acima, destacamos as questões: contra a re-reeleição de Cristina, o fim da insegurança (pública), melhor Justiça, contra a corrupção e a inflação. Um rol de motivos de envergadura pública muito mais consistente, inequivocamente, que os dois (no limite três, no texto da reportagem) resumidos pela Folha de S. Paulo.

As duas versões da Globo

Esse lapidar exercício de “publicar a melhor versão da verdade” encontra, em dois telejornais dessa emissora, um exemplo ainda mais visível e contraditório.

O primeiro discurso jornalístico é da repórter Delis Ortiz, correspondente da TV Globo para a região do Mercosul. No Bom Dia Brasil (ed. 09/11), Ortiz começa jurando que o megaprotesto não tinha “organizadores”, era fruto da magia das redes sociais, guiadas talvez pelo deus-mercado, divindade ancestral do deus Tupã:

A razão do protesto era leque de insatisfações: falta de segurança, inflação, corrupção, controles na economia e ameaças à liberdade de expressão. (…) A principal avenida da Capital, a 9 de julho, ficou repleta de gente com panelas, apitos e bandeiras. Valia tudo para mostrar o desgosto com o governo de Cristina Kirchner. (…) Não havia um líder que encarnasse o comando do panelaço. A convocação foi pelas redes sociais. (…) Há um ano [a presidente] tinha mais de 60% e agora está com 28% (https://migre.me/bOoyH). [grifos meus]

Comparemos agora esse relato com o do jornalista argentino Ariel Palácios, que trabalha na mesma emissora, no canal a cabo (Globo News, Jornal das Dez, ed. 08/11):

O “panelaço” desta noite tem dimensões significativas. Centenas de milhares de pessoas estão protestando em todo o País. (…) O leque de protestos é muito amplo, já que os manifestantes reclamam contra a escalada inflacionária – que a presidente Cristina diz que não existe –, dos escândalos de corrupção dos ministros e do vice-presidente, Amado Boudou, também reclamam contra as restrições que o governo Kirchner aplicou sobre o dólar [é a moeda que há quatro décadas que é o principal refúgio financeiro dos argentinos], contra o crescimento da criminalidade e, de quebra, protestam contra os luxos da presidente que há poucos dias ordenou o gasto equivalente a um milhão de reais para reformar um banheiro da Casa Rosada [palácio presidencial]. Os diversos partidos da oposição, tanto da esquerda quanto da direita, preferiram não participar ativamente do “panelaço”. (…) O momento não é exatamente positivo para a presidente Cristina. Uma pesquisa indica que a aprovação popular é de apenas 31,6%; outros 59,3% desaprovam a forma como ela está governando a Argentina.
(https://migre.me/bOq96). [Grifos meus]

No relato de Palácios não há menção alguma a questão da terceira reeleição (bandeira não assumida pelo governo Kirchner), tampouco às possíveis ameaças às liberdades democráticas. O megaprotesto é um sinônimo inequívoco, por supuesto, de vitalidade democrática do povo argentino. Por último, há divergências inclusive na precisão dos números de pesquisas usadas como fontes. Palácios cita dois institutos diferentes de pesquisa sobre a popularidade. Ortiz não faz nenhuma referência à origem do dado com o qual finaliza seu texto.

Novo ator político

O jornal La Nación ouviu alguns intelectuais argentinos logo após o “panelaço” (“El mensaje de las cacerolas, según los intelectuales”). Das inúmeras posições (Acesse todas aqui: https://migre.me/bOCy8), destaco a do cientista político Vicente Palermo:

No hubo sorpresas. Tanto la composición social, una presencia masiva de la clase media sin sectores populares, como las consignas, en general sin agravios ni llamados destituyentes, estuvieron dentro de lo previsto. El Gobierno va a tener serios problemas para contraargumentar. Hay un nuevo sujeto político, diferente, con un comportamiento todavía difícil de prever y con capacidad para incidir en el tablero político.

Palermo reforça o perfil dos participantes (classe média, sem setores populares), mas evidencia com igual peso o fato de que a megamanifestação faz surgir um novo sujeito político, com capacidade de ação sobre o tabuleiro político daquele país.

Volto ao ponto de partida, bebo outra vez na fonte de Cláudio Abramo, quando ele discute (in “A regra do jogo”) a diferença entre interpretação e opinião, travestida de notícia, no discurso jornalístico:

A interpretação não é opinião. Pode se interpretar o desencadeamento, a concatenação dos fatos e o significado de certas coisas. Pode-se dizer: tal fato ocorreu porque antes havia ocorrido isto e amanhã pode ocorrer aquilo. É uma interpretação. A opinião fica um passo além. É quando se diz: isso aconteceu e está errado.

Nos relatos editorializados (na Folha, numa simbiose de texto e imagem), no caso da repórter Delis Ortiz é mais grotesco posto que ela fez sua “passagem” de texto no meio da passeata, fica evidente a tentativa de a mídia ocupar o espaço dos partidos políticos, na tentativa de ditar o debate público.

Ao secundarizar a notícia, a mídia (Folha e TV Globo, neste caso específico) pratica um tipo de jornalismo às avessas, que tenta adequar a realidade ao seu discurso (relato), à revelia dos fatos e do distinto público.

Mas, afinal, pra que serve o Jornalismo? Valho-me de Jack Fuller (apud Kovach e Rosenstiel, in “Os elementos do jornalismo”): “A meta principal do jornalismo é contar a verdade de forma que as pessoas disponham de informação para sua própria independência”.

Ao enveredar por um caminho oposto, Folha e Globo desservem à sociedade e à democracia, porque tentam impor, a qualquer custo, um ponto de vista particular, de forma ilegítima, sem conexão com os fatos, protagonistas e contextos.

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* Santareno, é professor adjunto da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB). Pesquisador do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), é professor-visitante do curso de jornalismo da UFSC. Escreve regularmente neste blog.

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15 Comentários em: Panelaço na Argentina

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  • Marcelo disse:

    NOSSOS HERMANOS ESTÃO MAIS EVOLUIDOS DO QUE NÓS. LA PELO MENOS OS MILITARES TORTURADORES ESTÃO PRESOS. AQUI NO BRASIL OS MILITARES TORTURADORES ESTÃO ZOANDO COM OS TORTURADOS E SUAS FAMILIAS, E AINDA ESTÃO RECEBENDO SEU SALÁRIOS NORMALAMENTE.

  • mario disse:

    excelente texto!

  • Os últimos cacerolazos ocorridos aqui em Buenos Aires são feitos, na sua maioria, pela classe média. Protestam pela ‘pesificação’ (restrição ao dólar) da economia, pela insegurança, pela política de ‘multiclassista’ de Cristina, pela inflação em alta etc. A grande massa está em casa, à noite, porque no outro dia tem que trabalhar. Assalariados protestando pelo dólar? Para quê?

    Outro ponto muito importante, é o fato de estar chegando outro evento, o 7D. Em 7 de dezembro, começa a vigorar uma lei que delimita o número de veículos de comunicação (rádio, TV, jornal,) por grupo econômico. O único grupo que está contra essa lei é o do Grupo Clarín, que detém muito mais do que essa lei permite. Assim, ele dá muito mais voz à esses grupos anti-K.

    Tudo é um jogo de cena, de luzes. E é uma pena que não seja só um show de tango.

    1. Anônimo disse:

      A grande massa está em casa e calada porque a Cristina Kirchner, tal como o Hugo Chavez, amordaça o povo e violenta a liberdade de imprensa e de expressão. E é uma lástima quando alguém ainda “lima” falsos argumentos em favor desses ditadores.

      1. Jeso Carneiro disse:

        O anônimo quer ser mais realista que os próprios moradores da Argentina e Venezuela. Que piada!

  • Arnaudo Cohen disse:

    Mais uma vez eu estava de férias na Argentina, terra dos meus pais e pude acompanhar de perto todos os protestos. De uma coisa vocês podem ter certeza, tinha bem mas gente no protesto do que os aproximadamente 80, 100 mil que o governo declarou ter. Quem é acostumado com eventos de massa de grandes proporções sabe que ali tinham pelo menos umas 9, 10 vezes mas gente. “Ingenuidade” não professor. Se o protesto tivesse sido realizado aqui em terras tupiniquins e a pergunta tivesse sido feita pela revista Carta Capital e fosse dirigida a intectuais como Emir Sader ou Marilena Chaui a resposta não seria diferente. Certamente os dois diriam que a manisfestação teria sido orquestrada e liderada pelas elites sem a presença das camadas populares. Como se um protesto dependesse de ter a camada social A ou Z pra ter credibilidade, ridiculo! Acho que o professor contribuiria muito mais se não se deixasse levar pelo lado ideológico nas suas análises. No post passado deu eco a uma infâmia levantada por “jornalistas” e pessoas ligados ao petismo ao comparar o ministro do STF Joaquim Barbosa ao ex presidente Fernando Collor, tudo isso numa clara e covarde tentativa de desqualicar e descredibilizar o ministro. Não entendo o espanto ao ver as duas diferentes análises do mesmo evento trazidos pela mesma empresa, o Sr. queria que todo o grupo das gigantes tivessem a mesma versão? Acho mais fácil encontrar essa postura em jornais como o GRAMA e o antigo PRAVDA. O que sei é que tinha muita gente no protesto e sei porque eu tava lá, não tenho como dizer com a precisão do tal intelectual citado pelo professor ao afirmar que a manifestação ali era dominada pela classe média e não continha setores populares, não tive acesso aos contracheques e nem mesmo aos seus dados bancários dos hermanos como parece ter tido o tal intelectutal.

    1. JONAS SERIQUE disse:

      Excelente!
      Essa tática imposta pelas esquerdas de desqualificar qualquer movimento de protesto alegando ao mesmo não ter credibilidade por não contar com camadas da populção mais humilde e que em muitas vezes estão de alguma forma vinculadas aos ditos movimento sociais que tanto aqui no Brasil quanto lá na Argentina são unha e carne dos governos é TOTALMENTE CAFAGESTE e IMORAL! Anisio Quinco escreveu algo que ignora ou realmente não tem conhecimento. Afirmou que o protesto foi feito em sua maioria por integrantes da classe média pois a grande massa estaria em casa porque no outro dia tinha de trabalhar. Qualquer um com uma noção básica de economia sabe que quem sustenta economicamente um país é a classe média trabalhadora. Pouco a pouco a presidente Cristina vai implantando os mesmos mecanismos que fizeram da Venezuela ser oque é hoje, pobre do hermanos!

  • Anônimo disse:

    Está defendendo o que? O país está ferrado.

  • João Alho disse:

    Excelente reflexão. Usar o momento do país vizinho deu ainda mais felicidade ao texto, pois usar um fato social brasileiro iria soar também como político, e aí o conceito dado de jornalismo poderia parecer contraditório. O autor está de parabéns!

  • Anônimo disse:

    E o pior é que a Folha de São Paulo também defendeu só pena de multa para o Zé Dirceu…

  • Muito bom disse:

    Querem aplicar na Argentina o mesmo golpe que fizeram contra Collor e, como diz Lula, privou o Brasil de ter um dos maiores presidentes do mundo, o que faciliotu em muito que o mesmo fosse.

  • Antonio disse:

    E o pior disso tudo é que existe um monte de “entendidos” que acredita cegamente na Globo, Folha, Veja…

    1. Guy Fawkes disse:

      Assim como existe um monte de “entendidos” que acredita piamente na “Carta Capital”, no Paulo Henrique Amorim, no Luis Nassif… Difícil no Brasil é imprensa com uma certa dose de isenção! Nossos jornalistas parecem aquele cãozinho da RCA-Victor: “a voz do dono” (sejam estes donos os barões da imprensa ou o PT, dependendo do espectro político).

      1. Antônio disse:

        Comparar o alcance da Globo com a Carta Capital e similares não é forçar um pouco demais?

        1. Guy Fawkes disse:

          Claro que os veículos têm alcances muito diferentes. Eu quis é fazer um contraste entre os veículos histericamente anti-petistas e os chapa-branca.