Salve, salve Alma Mater: Colégio Dom Amando, 76 anos. Por Helvecio Santos, Colégio Dom Amando
Colégio Dom Amando, 76 anos de existência

por Helvecio Santos (*)

Ainda lembro bem!

Tínhamos orgulho do nosso uniforme. Sapato, meia e cinto pretos, calça verde claro e camisa de malha branca, colarinho verde, mangas curtas com detalhes verdes, cor que também destacava a bainha. Do lado esquerdo, bem em cima do coração, um vistoso CDA.

Fundado em 14 de março de 1943 por Dom Anselmo Pietrulla O.F.M., então como Ginásio Dom Amando, em 1951 passou aos cuidados dos Irmãos de Santa Cruz, com a chegada dos irmãos Genardo Greene, Paulo Schafer, Jaime Walter e Ricardo Grejczyk.

Helvecio Santos

Em 1961 passou a ministrar também o curso colegial e em 1967 abriu suas portas para receber contingente feminino.

Aqui pra nós, o Dom Amando foi fundamental, imperativo, na minha e na vida de inúmeros colegas. Às vezes me pergunto: o que seria de mim se não fosse o Dom Amando? Certamente que dezenas, centenas de jovens tanto do Oeste do Pará como de outras regiões se fazem tal indagação.

O título deste texto é parte do Hino do nosso Colégio, autoria do Irmão Genardo, que entoamos, sempre que dois ou três dom amandenses se reúnem em qualquer lugar deste planeta, orgulhosos e saudosos da nossa “fonte do saber”.

O Colégio era composto por quatro pavilhões. O “A”, o pavilhão principal; o “B”, construído formando um T com o principal; o “C”, um pouco afastado onde antes funcionava a Escola Primária e o “D”, o mais novo, beirando a Mendonça Furtado.

As aulas iam das 07:15h até quando a barriga começava a colar nas costas, às 12:45h.  

Após vencer o areião da Avenida São Sebastião, chegávamos ao portão principal. Aí, uma pequena ladeira nos levava a um espaçoso pátio onde às segundas feiras todas as turmas reunidas, em formação militar, após o irmão Genaro dar o tom na sua gaita cuidadosamente guardada no bolso da sua impecável batina branca, entoávamos o Hino Nacional, ou o Hino à Bandeira, ou o Hino do Pará, ou o Hino do Colégio Dom Amando.

Logo depois vinham os avisos e as diretrizes da semana passadas pelo diretor, findo o que, em silêncio, turma por turma, em fila indiana, nos dirigíamos, às salas de aula. Nenhuma aula começava sem que antes se rezasse um Pai Nosso ou uma Ave Maria.  

Cada turma tinha como monitor um professor indicado pela Direção e no início do ano letivo cada turma elegia, democraticamente, por votação, uma diretoria composta de presidente, vice presidente, tesoureiro, secretário e orador. Esta diretoria fazia a locução com a Direção e promovia ou coordenava eventos que envolvessem a turma.

Tínhamos biblioteca, sala de estudos, laboratório de química, marcenaria e sala de zoologia com exposição de pássaros e animais empalhados e amostra de insetos e folhas da rica flora e fauna amazônica.

Aprendemos sobre os ossos do corpo humano em um esqueleto de adulto guardado dentro de uma estante envidraçada e ligado por molas dando a mobilidade que o corpo tem.  

Além das matérias básicas como português, inglês, química, física, matemática, geografia, história, desenho, também tínhamos aulas de moral e cívica, organização social e política brasileira, trabalho manual, canto, religião, entre outras.

Duas vezes por semana, na parte da tarde, tínhamos aula de educação física e muitos jogadores dos times santarenos e depois da capital, saíram do campo do Dom Amando.

Tínhamos um campo de futebol oficial e um society, duas quadras polivalentes e inúmeras mesas de ping pong. Assim, as Olimpíadas Internas do Colégio Dom Amando eram um desfile de modalidades esportivas, algumas totalmente desconhecidas na região. Assistíamos a acirradas disputas de lançamento de disco, cujo craque era o Podalyro Amaral; de ping pong, com Paulo Ida dando show; salto em altura, absoluto do “Estica” com seus dois metros de altura; corrida de bicicleta, medalha cativa do Luis Alberto Oliveira; lançamento de dardo, corrida de velocidade, natação, maratona, além dos esportes conhecidos como futebol de campo, de salão, basquete e vôlei.

Tínhamos anualmente Exposição de Ciências, mostrando à população, na prática, o que aprendíamos nas salas de aula e nos laboratórios. O folclore comparecia nas festas juninas e nas quadrilhas em parceria com a alunas do Colégio Santa Clara e o amor ao próximo era cultivado e exercitado nas obras sociais, tanto no Asilo São Vicente de Paulo, quanto aos moradores carentes da periferia da cidade. 

Na última sexta feira do mês os que se declaravam católicos tinham que fazer o sacramento da confissão. Dois padres de plantão no corredor do pavilhão “A” ouviam as “infernalidades”da rapaziada e o “ato de piedade” era completado na comunhão na missa celebrada na Gruta que ficava do lado esquerdo da entrada principal.

Tínhamos prova de quinze em quinze dias e notas bimestrais. Na turma, de aproximadamente 40 alunos, aqueles que se mantivessem entre os primeiros 25 normalmente passavam nos vestibulares tanto de Belém quanto de outras capitais. Os que ficavam na rabeira era comum precisarem frequentar cursinho.

A meritocracia era a tônica e no lado direito do corredor do prédio “A” ficava um painel em madeira envernizada, ocupando quase toda a parede. Ali era gravado o nome do “Homem do Ano”, precedido do respectivo ano, deferência ao aluno que se destacasse nos estudos e no comportamento como um todo, inclusive nos esportes.  

Um respeitado sistema de disciplina, com um “Prefeito de Disciplina”, mantinha toda a estrutura funcionando. O uniforme tinha que estar completo e arrumado se não, recebia demérito. Para falar na sala de aula era preciso levantar a mão e esperar ser chamado. Falar ou levantar sem permissão era aviso e, na segunda vez, demérito. Os deméritos levavam à suspensão e à proibição temporária de frequentar o Colégio.

Dois deméritos na mesma aula dava suspensão, três no mesmo dia dava suspensão, seis na semana dava suspensão.

No desfile de Sete de Setembro, a Banda do Colégio Dom Amando, formada pelos melhores alunos das aulas de música, era um show à parte.

Quando comparo com as escolas de hoje, onde as aulas são uma balbúrdia e o aluno não pode ser advertido que o professor recebe “demérito” dos pais ou da direção da escola, sinto saudades do Dom Amando e sua disciplina.

Ali fiz um ano do curso primário, quatro anos do ginásio e dois anos do curso científico, saindo dali em 1967.

Olhando pelo meu retrovisor concluo que todos os ensinamentos e todas as lições de vida me fizeram um vencedor, e não sou raridade. Dos bancos escolares do nosso querido Dom Amando saíram inúmeros advogados, médicos, engenheiros, professores, juízes, desembargadores, prefeitos, empresários, cidadãos que ajudaram e ajudam a construir o que hoje somos.

Neste 14 de março de 2019, quando meu querido Colégio Dom Amando completa 76 anos construindo gente, construindo o Oeste do Pará, construindo o Brasil e ajudando a tornar o mundo melhor, quero agradecer por tudo que lá recebi. Seja nas aulas, seja aprendendo a ser solidário e respeitador com o próximo, seja no esporte. Quero agradecer especialmente a rígida disciplina e mais especial ainda ao meu querido irmão José Ricardo Kinsman, que Deus o tenha em bom lugar, por todas as vezes que me fez escutar seus conselhos e nas vezes que, Prefeito de Disciplina, me chamou à sua sala.  

Como última reflexão, penso que no momento complicado que vivemos, as escolas, assim como todo o Brasil, precisam de disciplina. Sem ela o Dom Amando não faria 76 anos com a excelência que o caracteriza. Sem ela o Brasil não irá a lugar nenhum.

Na certeza que cada um que por lá passou tem suas histórias, contei um pouco de minhas lembranças com a minha eterna “fonte do saber”.

Parabéns corpo docente! Parabéns corpo discente! Parabéns a todos os dom amandenses!

Vida longa ao nosso CDA!

–* É advogado e economista. Escreve regularmente no blog.

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Um comentário em: Salve, salve Alma Mater: Colégio Dom Amando, 76 anos. Por Helvecio Santos

  • Que legal ler este texto. Uma motivação ao nosso trabalho. 👏🏿👏🏿👏🏿👏🏿👏🏿👏🏿👏🏿👏🏿👏🏿👏🏿

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