Seu Guilherme, a inigualável paixão alvinegra. Por Helvecio Santos

Sede do São Raimundo, na travessa Silva Jardim, em Santarém

por Helvecio Santos (*)

Com a certeza do dever cumprido, nem o abrasador sol do meio dia abalava aquele leve sorriso.

Levando o filho por uma mão e com a outra carregando um pesado saco de roupas, sorvendo o sabor de cada 30 centímetros vencido, o “seu” Guilherme subia a Silva Jardim rumo à sua casa que ficava quase na esquina da Mendonça Furtado.

Naquela manhã de um domingo da distante segunda metade da década de 70 do século passado, em uma Santarém bordada de limpíssimas praias, nem estas e muito menos o E-29 – Show, dos estelares Ércio Bemerguy e Ednaldo Mota, lhe interessavam.

Na régua da sua escala afetiva, em ordem decrescente, compareciam sua família, seu trabalho e o São Raimundo. Depois vinha o resto, longe, bem longe desse trio. A devoção ao “santo” era tanta que raras vezes a profanava chamando-o de “Pantera Negra”. Só por descuido mesmo!

Na sua santa devoção o São Raimundo era inigualável e invencível e se pudesse, como mais adequado na sua opinião, mudaria o nome para São ReiMundo, transformando sua paixão em “Rei” com alcance no “Mundo” todo e saindo daquela apertadinha sede da Senador Lemos com Galdino Veloso.

Com passos lentos e firmes, “seu” Guilherme findava a sua santa romaria dominical e naquele causticante final de manhã, voltava de mais um dos embates da sua equipe mirim, trazendo no pesado saco algo que lhe era sagrado: as camisas e os calções do seu São Raimundinho.

De há muito abraçara para si a incumbência de cuidar do juvenil da sua paixão esportiva. Maior e muito mais cuidado dedicava, mormente porque o Dr. Martins, na época todo poderoso do Pantera, lhe dera carta branca e também todo apoio necessário: chuteiras, calções e aqui e ali, cadernos, livros e uniformes escolares. Enfim, ajuda nos estudos de algum craque mirim.

Também o dinheiro para o refresco no intervalo dos jogos e dos treinos estava garantido e quando o contato com o “mecenas” não era possível, colocava do próprio bolso.

Dinheiro não lhe faltava!

Numa época em que celular não existia nem em filme de ficção, uma Rolleiflex garantia o sustento da prole, mesmo as proles padrão tapajoaras, pois naquela época o pai que tivesse menos de cinco filhos era olhado meio de banda pelos outros varões, com sérias desconfianças quanto a sua masculinidade.

Fotógrafo por profissão e Pantera por paixão, dali daquele seu amontoado de garotos tratados com respeito e disciplina, saíram inúmeros craques para o time principal.

Nos domingos do pujante futebol santareno havia jogos do campeonato juvenil, do aspirante e do time principal. Os jogos do juvenil eram pela manhã e os do aspirante eram uma preliminar dos jogos do time principal no Elinaldo Barbosa.

À exceção da final que era pela manhã no Elinaldo, as outras partidas do campeonato juvenil eram jogadas no campo do Ginásio Batista (hoje sucateado e reduzido), no campo do Veterano (hoje Mercadão 2000), no campo do Fluminense (hoje uma escola, se não me engano, Escola Élvio Fonseca), no campo da Aeronáutica (hoje parte do Parque da Cidade), no campo do Morango (hoje Escola Pedro Álvares Cabral).

O “sucateamento” de nossas praças esportivas mais a destruição do parque poliesportivo que eram as praias em frente à cidade e a megalomania política que trocou o Elinaldo pelo Colosso do Tapajós, explicam o insosso, inodoro e incolor futebol que hoje se pratica na Terrinha, mas isto já é outra coisa.

Assim, não era raro aos domingos encontrar o “seu” Guilherme nos mais distantes bairros levando a reboque o seu plantel em animadas caminhadas pelas arborizadas ruas de Santarém.

No São Raimundinho o “seu” Guilherme era o faz tudo e óbvio, era também o treinador, único papel que desempenhava com mão de ferro.

Como paixão que é paixão é insaciável, o “seu” Guilherme não perdia um treino do time principal e isto lhe era útil, pois buscava aplicar no juvenil as táticas e técnicas utilizadas por seus ídolos e aí a molecada sofria. Era treino, treino, treino, até a exaustão.

Não era difícil localizá-lo!

Era só olhar na direção de onde o amontoado de torcedores estava para avistar o “seu” Guilherme, elegantemente vestido como se fosse a um baile “esporte fino”: sapatos pretos cuidadosamente engraxados, cinto combinando com os sapatos, calça de linho e camisa de mangas curtas enfiadas calça a dentro.

A bem da verdade, diga-se, assistir o treino do São Raimundo daquela época era como assistir a um baile. A plateia se amontoava na busca de um bom lugar para esperar a hora de prender o fôlego assistindo a leveza das “pontes” do Surdão e Genésio e a precisão dos passes e dribles do Pedro Nazaré, Ricardo, Inacinho (para mim, ainda hoje, Dom Inácio), Brito, Dão, Paraguaio, Bidala, Caramuru, Corisco, Mazinho, Manuel Maria, Pedro Olaia, Espadim e tantos outros.

Alguns subiam no galho das árvores e o entusiasmo levava ao descuido. Vez por outra um “entusiasmado” caia na cabeça de alguém que buscava se abrigar dos últimos raios de sol.

Terça feira era o primeiro dia de trabalho do time principal.

No intervalo de um desses coletivos Dom Inácio se aproximou e sabendo que no domingo anterior o São Raimundinho decepcionara o “seu” Guilherme, com toda a maldade que o mundo pode carregar, reabrindo uma ferida que recém começava a sarar, perguntou: “E aí “seu” Guilherme, como está o time?”

Prontamente veio a resposta: “Uma navalha, afiadíssimo!” Não satisfeito, destilando veneno por todos os poros, continuou: “Quem ganhou?” Ao que o comandante, abatido, quase num sussurro, respondeu: “Eles”.

O repórter Benedito José Mota Santana, filho do brilhante Faeco, lá não estava e perdeu o “furo”. Pudera! Meu amigo Bena Santana na época beirava os 7 anos e isto é motivo para perdoá-lo.

O vibrante locutor esportivo Herbert Tadeu Pereira de Matos, da Rural, construía os pilares da sua ímpar e vitoriosa carreira na magistratura e também lá não estava. Abençoado por Temis, desta já tinha salvo conduto. Já o Dário Tavares, da Rádio Club, só se interessava pelo seu América.

Mas, alto lá! Não perdemos nada.

Testemunhas do “dedo na ferida” colocado pelo celebrado zagueiro na chaga do ínclito comandante, vejam só, para nossa sorte lá estavam o Manuel Maria (ponta direita do São Raimundo, filho do “seu” Davi Nataniel, cracaço que jogou no Santos de Pelé) e o Lacrau ou Lacrauzinho, cujo epíteto não condiz com o bondoso coração do massagista Luciano Santos, nome que recebeu na pia batismal.

Por obra destes e Dom Inácio, o diálogo tomou dimensão e entrou para o folclore do futebol tapajoara.

Nem a ZYE-29-Rádio Emissora de Educação Rural de Santarém Ltda., juntamente com a ZYR-9-Rádio Club de Santarém, já existentes naquela época na Pérola do Tapajós, fariam melhor.

Dom Inácio, Manuel Maria e Lacrauzinho davam um alcance maior a qualquer notícia e, se alguma dúvida houver, coloco minha sexagenária reputação em jogo: “Meninos, eu vi!”.

Se não fui capaz, perdoem-me!

Esta crônica tem o intuito de louvar o “seu” Guilherme que com trabalho apaixonado, beirando a sacerdócio, na divisão juvenil do São Raimundo fez muito por este e pelo futebol santareno.

Acima de tudo, com relação a seu juvenil, o “seu” Guilherme era um otimista incurável e apesar de um ou outro tropeço, elogiava seu time que julgava estar sempre “na ponta dos cascos”.

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* É advogado e economista santareno, ex-jogador de futebol e articulista assíduo do portal Jeso Carneiro.

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3 Comentários em: “Seu” Guilherme, a inigualável paixão alvinegra. Por Helvecio Santos

  • Brilhante, novamente, sua crônica, caro escritor Helvécio. Parabéns. Como sou um pouco mais novo que você, o texto me suscitou uma dúvida, que, se possível, possa me esclarecer: o campo do morango era onde está a escola Pedro Álvares Cabral ou a Ufopa da Marechal Rondon com Luiz Barbosa? Grande abraço.

  • Excelente comentário.

  • SEU GUILHERME TINHA UM LINDA HISTORIA NO FUTEBOL SANTARENO

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