Toró, o maior hair stylist que conheci, por Helvecio Santos, barbearia

por Helvecio Santos (*)

Na minha Santarém dos anos 70 do século passado, o que não faltava era barbearia, local de um profissional só e prestação de serviço somente a homens, precursor do atual salão de cabeleireiro, com vários profissionais à disposição e serviços oferecidos a ambos os sexos.

Nesta modernidade que vivemos, vejam só, barbeiro e barbearia soa ofensivo.

Na Assis de Vasconcelos com Benjamim Constant, ora Silvério Sirotheau, esquina contrária da, à época, Escola São Raimundo Nonato, ficava o Diquito. “Pelava” de segunda a sábado até o meio dia e do meio dia pra tarde, regada a muita cachaça e limão, a pescaria com os amigos no igarapé do Padre era sagrada.

Diquito era um bamba e mesmo o defeito na perna, o que o obrigava a usar muleta, não o atrapalhava, pelo contrário. O apoio do assento da cadeira era coadjuvante e a cada giro na cadeira um “coitado” perdia o pelo.

Na Visconde do Rio Branco com a 24, logo depois do “seu” Cori, nascido Corijava Santiago, ficava a barbearia de Antonio Teodoro Corrêa, carinhosamente “seu” Toti, pai do meu amigo Ronildo, que com aguçada técnica desenvolvia o seu mister, utilizando-se de uma bem cuidada coleção de pentes, navalhas e tesouras. Muito sério mas extremamente gentil e atencioso, tinha sempre clientes em sua ampla barbearia.

Lá no Caizinho, no primeiro imóvel do lado direito da Quinze Novembro, em frente ao mercadinho do “seu” Osvaldo, batia ponto a clientela do meu amigo Pedrinho, do Noronha e outros profissionais.

Eram aproximadamente dez barbeiros e o Ventania vivia cheio. Deveriam cobrar além do corte, uma taxa adicional, justificada pelo desfrute do frescor da brisa tapajoara, do visual da verde Ponta Negra e do encontro das águas do verde Tapajós com o barrento Amazonas.

Nesta altura do campeonato, lá por 1967, aderindo aos ventos da modernidade, as barbearias de um só profissional passaram a abrigar vários profissionais e embora continuassem a atender somente homem, passaram a usar a denominação pomposa de salão e os barbeiros passaram a ser cabeleireiros. Chique, não?

Hoje, com parte da turma renovada, ali na Floriano entre Quinze de Agosto e travessa dos Mártires, sob o nome de Glacial, o Ventania resiste. Penso que o nome é para lembrar do frescor da brisa que no Caizinho soprava, pois com o constante abre e fecha da porta, um valente ar condicionado não torna glacial a escaldante temperatura santarena.

Na busca de uma cabeleira à “la Humphrey Bogart”, estes foram alguns profissionais por onde peregrinei. Outros mais existiam cuidando do visual da rapaziada e o topete elegante era completado e segurado com brilhantina Glostora ou Trim.

Mas sempre que vejo as modernas “obras de arte”, um profissional me vêm à mente, embora não tenha utilizado seus serviços.

Pela sua ousadia, admirava mesmo era o Toró, “hair stylist” de primeira hora, um verdadeiro visionário e, se reconhecido fosse, se não houvesse tanta ingratidão na humanidade, seria louvado como o precursor dos estilistas que no corte fazem obras de arte com desenhos inimagináveis.

A “maison” do Toró ficava de frente para a praia entre Augusto Montenegro e Visconde do Rio Branco, fundos da casa do “seu” Neném Colares, estrategicamente colocada ao lado da casa de “alegria” da Helena.

Como nesta casa de bons costumes a rapaziada e respeitados senhores precisavam chegar abastados e elegantes, além da competência, isso também garantia a prosperidade do negócio do Toró.

Era uma beleza! Essa simbiose era lucrativa tanto para o Toró quanto para a dona Helena e não falo no sentido figurativo.

Estrategicamente colocadas, disputadas cadeiras abrigavam impacientes clientes que esperavam o momento mágico do Toró exercer sua arte, enquanto espreitavam tudo o que acontecia na alegre vizinhança, sonhando com o melhor do paraíso que em breve lhe chegaria ao alcance das mãos ou dos bolsos.

Mas o sucesso do Toró não era devido somente pela escolha do local com a tentadora vizinhança. Além da inegável qualidade do seu trabalho, o sucesso também se devia à capacidade que tinha em desenvolver um pesado “marketing”, numa época em que nem sequer se pensava nisso.

Fechando com chave de ouro, aos sábados convidava um cliente qualquer que se dispusesse e que estrategicamente ficava para o final. Com certeiros golpes de tesoura e navalha, exibia então toda sua maestria.

Eram 30 minutos mágicos, para coroar o fechamento de uma árdua semana de trabalho e para alimentar seu “ego” e sua alma.

A cadeira se transformava em palco e a clientela em plateia. Algo comparado à prorrogação de uma Copa do Mundo e cada tesourada era um gesto elegante, verdadeiro toque de magia.

As “meninas” da Helena perdiam a preferência e aqueles olhos até então cheios de luxúria se voltavam para as mãos do Toró. Nada era mais importante. Os remanescentes como eu, dizemos que na disputa de um melhor visual, essa era a razão de, eventualmente, o rio Amazonas empurrar o rio Tapajós leito a dentro.

Como morava ali perto, vi o nascimento de várias dessas obras de arte mas uma me marcou mais e esta destaco pois continua viva em meu quase repleto baú de lembranças.

Como na época estava na crista da onda por se oferecer como redenção ao isolamento a que estávamos relegados, “Belém Brasília” foi a obra de arte que mais chamou minha atenção e a que verdadeiramente ficou cinzelada em minha memória.

Lembro bem!

Cidadão de meia idade, moreno, cabelos bem pretos e abundantes, um pouco batido na cabeça, este foi o cliente escolhido e era tudo o que o Toró precisava.

Com rápidas tesouradas deu uma rebaixada geral, por inteiro, em toda a cabeça. Inicialmente fez uma linha no alto da cabeça, começando na testa e terminando na nuca, para servir como guia. Passo seguinte, cuidadosamente foi raspando linhas paralelas com a navalha, começando pelo alto da cabeça, iniciando na testa, aproveitando toda sua extensão e finalizando na nuca, num leve afunilamento, baixando em direção à orelha, pacientemente.

Assim fez, finalizando a série já na costeleta, entremeada de “estradas” no sentido horizontal.

Um luxo!

Terminada a obra, em êxtase, o Toró não sabia se ria ou se chorava. Passo seguinte colocou a mão no ombro do seu pupilo, resumido agora à condição de pedestal da sua obra de arte e desfilou nos quarteirões próximos, sem sequer se importar com o causticante sol do meio dia.

Por vários dias na cidade só se falava nisso e o Toró, orgulhoso, sabia que o respeitoso murmúrio que ouvia ao passar, nada mais era do que surdos aplausos à sua obra.

Hoje quando vejo o Neymar e outros exibindo rotas esculturas em suas cabeças, penso que nada mais fazem que tentarem plagiar as obras do maior de todos: Toró! O precursor, o visionário, o futurista, o maior hair stylist que conheci.

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* Advogado e economista, é santareno e reside no Rio de Janeiro. É articulista do portal Jeso Carneiro.

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2 Comentários em: Toró, o maior hair stylist que conheci, por Helvecio Santos

  • Que hilário o Toró! Que crônica memorialística supimpa! Que me proporcionou uma volta ao passado… caiszinho, Salão Ventania, Seu Noronha, o barbeiro-mor da molecada do Seu Osvaldo do Abaeté. Obrigado, Helvecio, pelo viagem ao passado. Diverti-me à beça!

  • Grande Helvécio,
    Sensacional…. excelente cronica “Seu Leão barça Azul Helvécio”.
    Nesta, tiveste profundidade meu caro, quando falaste do Diquito…. ei Diquito!
    Recordei….e muito, até por que sou daquela meiuca. E a minha patota toda era fregues do Diquito.
    Não voltamos ao passado, mais o passado volta até você.

    Parabéns…. Hélcio.

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