Wilmar FonsecaWilmar Fonseca, autor da letra da “Canção de Minha Saudade”

por Vicente Fonseca (*)

Vicente Malheiros da FonsecaHoje seria o aniversário natalício de meu querido tio Wilmar Fonseca.

Tio Wilmar (Dias da Fonseca) nasceu em Santarém (PA), em 06 de março de 1915, e faleceu em Mogi das Cruzes (SP), em 12 de setembro de 1984. Seus restos mortais foram trasladados para a “Pérola do Tapajós”.

Era filho de José Agostinho da Fonseca e Anna Dias da Fonseca; e irmão de Maria Annita (Ninita), Wilson (Isoca), Maria Adahyl (Daíca) e Wilde (Dororó), todos dedicados à música, já falecidos.

No próximo ano (2015), comemora-se o seu centenário de nascimento.

Ele é autor da excelente biografia sobre meu avô: José Agostinho da Fonseca: O Músico-Poeta. Belém/Santarém: Imprensa Oficial do Estado do Pará, 1978, em homenagem a seu pai, o patriarca musical da família Fonseca, de Santarém.

Tio Wilmar compôs a letra e a música da belíssima canção “A LENDA DA MANDIOCA” (1961), cujo texto poético é realmente um primor:

A LENDA DA MANDIOCA
(Do folclore da Amazônia
Letra e música: Wilmar Fonseca (Santarém-PA, 1961)

1.
Lá na mata
raiou sol de prata
cantou passarada
em tom de alvorada.
Ao vagido
por todos ouvido
responde silente
a mata virente.
MANI bonita,
MANI, MANI-OCA
pequena pepita
surgiu na maloca.
MANI bonita,
MANI, MANI-OCA
É branca! É a grita
De toda a maloca.

2.
Na floresta
vivia sempre em festa
cantando, dançando,
sonhando e amando…
Entremente
a tribo, inclemente
reclama fogueira
pra índia faceira.
MANI bonita,
MANI, MANI-OCA
dengosa, catita
alegrava a maloca…
MANI bonita,
MANI, MANI-OCA
uma sombra maldita
envolve a maloca!

3.
Lá na aldeia
Pajé patenteia
Cacique condena
o amor da pequena.
Tristemente,
na selva silente,
calou passarada:
MANI é imolada…
MANI bonita,
MANI, MANI-OCA
chorosa, medita
no amor, na maloca…
MANI bonita,
MANI, MANI-OCA
sua clara desdita
fez triste a maloca!

4.
Na sua taba
a fome desaba
porém MANI-OCA
virou MANDIOCA!
Na sua taba
a fome se acaba
porque MANI-OCA
sustenta a maloca.
MANI bonita,
MANI, MANI-OCA
agora é bendita:
virou MANDIOCA.
MANI bonita,
MANI, MANI-OCA
agora é bendita:
sustenta a maloca!

Wilson Fonseca (Maestro Isoca) escreveu pelo menos dois arranjos para “A LENDA DA MANDIOCA” (Coro a 3 vozes iguais, a cappella; e Coro a 4 vozes mistas e Piano), ambos publicados no 1º Volume de sua Obra Musical (Coral), p. 77 e 82/84.

O texto poético de “A LENDA DA MANDIOCA” está publicado no livro Santarém Cantando. Belém/Santarém: Imprensa Oficial do Estado do Pará, 1974, editado pelo Governo do Estado do Pará (organizado por Wilson Fonseca, com Apresentação de Fernando Guilhon, então Governador do Estado do Pará), p. 45.

E também no livro Antologia dos Poetas Santarenos, organizada por Emir Bemerguy, edição comemorativa dos 337 anos de Fundação de Santarém, 1661-1998, Coordenadoria Municipal de Cultura de Santarém-PA, Gráfica e Editora Tiagão, 1998, p. 170/171.

A música foi gravada, com arranjo estilizado, pela cantora santarena Maria Lídia Mendonça, em 1995, em forma de Pot-Pourri (Lenda da Mandioca, Pratos Regionais, Cuias de Santarém e Feira Santarena), no CD “Festa de Boi no Céu” (NHCD-471), Faixa 15 – Maria Lídia Mendonça / Alcyr Guimarães (“Grupo Urubu do Ver-o-Peso”).

Wilmar Fonseca é autor da letra da famosa “CANÇÃO DE MINHA SAUDADE” (1949), que tem música de Wilson Fonseca, considerada o “hino sentimental” de Santarém (“Nunca vi praias tão belas/Prateadas como aquelas/Do torrão em que nasci…”).

Existem diversas gravações da “Canção de Minha Saudade”.

Destaco, agora, a gravação realizada pelo Coro da Fundação Carlos Gomes e Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, em 2012, sob a regência de José Agostinho da Fonseca Júnior, no concerto em homenagem ao centenário de nascimento de Wilson Fonseca, no Theatro da Paz, em Belém (PA), registrada no CD “Wilson Fonseca Centenário”, editado pelo Governo do Estado do Pará (SECULT/PA), a ser lançado em breve. O arranjo orquestral é do regente da OSTP, neto do compositor santareno (Agostinho Júnior).

Confira:
http://soundcloud.com/vicente-malheiros-da-fonseca/can-o-de-minha-saudade-wilson

A canção foi escrita para que ser cantada por sua sobrinha Salete Fonseca de Campos numa festa de encerramento do ano escolar. Entretanto, “tal não ocorreu por ter Salete adoecido, sendo a música engavetada por 9 anos, permanecendo inédita”, conforme lembra o compositor (Isoca).

É o próprio Isoca que nos conta ainda:
“1958 – No ‘Centro Recreativo’, 9 anos após ter sido composta, a mesma sobrinha Salete interpreta em primeira audição a ‘Canção de minha saudade’, música essa que imediatamente, e desde então, alcança sucesso extraordinário tornando-se popular e muito conhecida, identificando-se com todos os santarenos, haja vista que tem sido cantada em inúmeras ocasiões, como em serestas, recitais. ‘Canção de minha saudade’, além de ter sido a favorita do falecido Expedito Toscano, tenor lírico santareno, solista de invulgar expressão do ‘Coro da Catedral de Santarém’, mais tarde, em 1970, foi adotada como hino oficial do 1º Festival da Música Popular do Baixo-Amazonas, realizado em Santarém e cantada com alma e com vibração, no final de cada noite da ‘Semana de Santarém’, realizada em Belém, no ‘Teatro da Paz’, em outubro de 1972” (cf. “Meu Baú Mocorongo” – volume 6, p. 1435/1437).
Naquele recital, no Centro Recreativo, no ano em que Brasil conquistava o primeiro campeonato mundial de futebol na Suécia (1958), eu participei, tocando piano, e Sebastião Tapajós executou o seu maravilhoso violão, além de outros jovens, cada qual representando um estabelecimento escolar de Santarém.
Sentado, na primeira fila da platéia, estava o bispo Dom Tiago Ryan, que puxou os aplausos, com muito entusiasmo, exclamando assim: “Oh!… esta canção do Isoca é agora a minha música preferida!…”

Realmente, a música é uma das mais preferidas do cancioneiro santareno.

Naquele mesmo ano de 1958, com menos de 10 anos de idade, eu escrevia a minha primeira composição musical, a valsinha Experimentar, dedicada justamente a meu tio Wilmar. Guardo, com muito carinho, a partitura original dessa primeira composição, que meu pai arquivava como relíquia.
Quando a “CANÇÃO DE MINHA SAUDADE” completou 25 anos, em 1974, os autores da obra musical foram contemplados com a medalha “Pax Christi” do Papa Paulo VI. No Ano Santo de 1975, eles receberam de Roma outra medalha, conforme registrado no “Meu Baú Mocorongo” (volume 5, p. 1370).

Tudo isso foi obra do grande bispo Dom Tiago Ryan.

Na década de 60 do século XX, eu fui estudar piano no Conservatório Musical “Padre José Maurício”, dirigido pela Professora Rachel Peluso (santarena), em São Paulo e morei na companhia de meu tio Wilmar, com quem muito aprendi.

No Capítulo “Missão de Vida”, de meu livro “A VIDA E A OBRA DE WILSON FONSECA (MAESTRO ISOCA)”, impresso pela Gráfica do Banco do Brasil (Rio de Janeiro-RJ), em homenagem ao centenário de nascimento de meu saudoso pai (2012), escrevi:
Um sábio e precioso conselho de meu tio Wilmar Fonseca – autor da letra da bela “Canção de Minha Saudade” (1949), que tem música de Isoca – despertou-me para acalentar a ideia deste livro, quando em sua companhia morei em São Paulo (SP), a fim de estudar no Conservatório Musical José Maurício, na capital paulista (1962-1963), aluno das Professoras Rachel Peluso (compositora) e Gioconda Peluso (soprano), ambas santarenas.
Eis o conselho: “Vicente, o teu pai é um gênio! E tu precisas divulgar melhorar sua obra musical”.

Foi ali, à distância, que aprendi a apreciar, ainda mais, a figura de meu pai, como homem e como artista.

Desde então, ainda muito jovem, adotei, como missão de vida, divulgar a sua obra musical, o que tenho feito ardorosamente, porque reconheço nele um dos mais importantes compositores brasileiros.

Transcrevo, ainda, do meu livro “A VIDA E A OBRA DE WILSON FONSECA (MAESTRO ISOCA)” – Capítulo “Breves comentários sobre 23 músicas de Wilson Fonseca”:
Em outra ocasião, eu escrevi o seguinte texto sobre a “Canção de Minha Saudade”:
O texto poético desta canção foi escrito para uma sobrinha de Wilmar Fonseca (Salete Fonseca de Campos) declamar no colégio onde estudava, em Santarém. Por motivo de doença, a jovem não chegou a apresentá-la.
Wilson Fonseca, então, resolveu musicar o belo poema de seu irmão, no mesmo ano em que foi escrito (1949). Porém, a música permaneceu inédita durante nove anos. A sua estréia ocorreu em 1958, num recital no Centro Recreativo, em Santarém. E a primeira audição foi feita pela própria sobrinha Salete, que havia solicitado ao poeta Wilmar Fonseca que escrevesse um texto sobre as belezas naturais da “Pérola do Tapajós”. Imediatamente a obra caiu no agrado geral.
Durante a Semana de Santarém, o Governo do Estado Pará (gestão Fernando Guilhon) lançou dois discos compactos [“Ano do Sesquicentenário da Independência”] contendo, além de Tambatajá (Waldemar Henrique) e do Hino do Estado do Pará (letra de Artur Teódulo Santos Porto, música de Nicolino Milano, com adaptação e arranjo de José Cândido da Gama Malcher), as composições, de Wilson Fonseca – Canção de Minha Saudade (letra de Wilmar Fonseca) e o Hino de Santarém (letra de Paulo Rodrigues dos Santos) –, gravadas no Rio de Janeiro pela Orquestra Sinfônica Nacional e Coro da Rádio Ministério da Educação e Cultura (MEC), sob a regência do maestro Nelson Nilo Hack, e pela Orquestra e Coro Edison Marinho.
[Nota: a Semana de Santarém, no Theatro da Paz (1972), consistiu em amostras de cerâmica tapajoara, artesanato, pintura, poesia, fotografias, música etc.].
A canção foi gravada ainda diversas vezes, inclusive no CD “Wilson Fonseca – Projeto Uirapuru – O Canto da Amazônia” (volume 1), lançado em 1996, pela Secult/PA, que registra a emocionante participação da platéia no concerto realizado no Teatro Margarida Schiwazzappa (Centur), em Belém, em comemoração ao transcurso do 75º aniversário de vida musical do maestro Isoca.
Apoteótica também a execução desta canção na Casa da Cultura de Santarém, em 17 de novembro de 2006 (data de aniversário natalício do compositor) quando foram realizados diversos eventos em Santarém, em homenagem a Wilson, como a inauguração de seu busto no Aeroporto de Santarém – Pará – “Maestro Wilson Fonseca” (Lei Federal nº 11.338, 03.08.2006 – DOU 04.08.2006); o lançamento da coletânea, de sua autoria, intitulada “MEU BAÚ MOCORONGO” (6 volumes); e o concerto da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, sob a regência do Maestro Mateus Araújo, com a apresentação de composições de três gerações da família Fonseca. Ao final do concerto, a OSTP interpretou o arranjo orquestral, escrito por Vicente Fonseca, para a Canção de Minha Saudade, em número extraprograma, repetido por duas vezes, a pedido da platéia, que cantou, com entusiasmo, esta bela canção, considerada o “hino sentimental” de Santarém, numa verdadeira apoteose no encerramento do histórico evento.
É por isso que se costuma dizer que para alguém provar que é mocorongo (santareno) nem precisa exibir a carteira de identidade ou a certidão de nascimento. Basta demonstrar que sabe cantar: “Nunca vi praias tão belas/Prateadas como aqueles/Do torrão em que nasci…”

Wilmar Dias da Fonseca é Patrono da Cadeira nº 39 da Academia de Letras e Artes de Santarém (A.L.A.S.), da qual tenho a honra de ser o titular.

Ave, meu querido tio Wilmar!…

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* Santareno, é magistrado, professor e compositor. Reside em Belém.

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Um comentário em: Wilmar Fonseca, o poeta daquela linda canção

  • MEMORÁVEL, Vicente!!!

    Conheci teu tio Wilmar Fonseca, eu, atravessando a puberdade(ainda em buços) levado pelo papai Aberto, das vezes que chegou à casa de D. Adahyl, para fazer seu cabelo e bigode. Papai, conversador e arauto das notícias para o amigo em férias, gargalhava de felicidade tão fagueira era aquela amizade.
    MEMORÁVEL, sim, pois 1949 é data de meu nascimento e vaidosamente me sinto contextualizado no majestoso poema que remóe a cena do barbeiro retocando garbos do poeta.
    Com referência ao tio e sobrinho, ora enriquecidos com a história das artes mocorongas, nossa ALAS, fica duplamente honrada e o silogeu em festa.

    Abraços,

    Gumercindo

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