Santarém, Amazônia, Brasil

Xenofobia no Brasil

Por Jeso Carneiro em 15/11/2010 às 06:45 · 3 Comentários

por Celson Lima (*)

Leio no jornal O Público, o talvez o mais respeitado jornal português, uma notícia de muitas páginas falando sobre a beleza de São Paulo, com sua integração de facto de todas as raças, cores e gostos. Mulçumanos e católicos, arabés e judeus, japoneses e polacos, quase todos são iguais perante o céu da multifacial Sampa. Exulta o repórter ao escrever que São Paulo oferece a solução para o confronto secular do Oriente Médio. Enviem-nos para Sampa e eles serão amigos, marido e mulher, e viverão felizes para sempre.

Quase todos são iguais perante o céu de Sampa, repito consternado, depois de ler, estupefato, a notícia sobre a twitter-tada xenofóbica, preconceituosa aos extremos. Twitter, que segundo Saramago é um grande passo do homem rumo ao grunhido, foi usado pelo belo povo acolhedor e integrador do Estado de São Paulo e outros mais. O Haiti é aqui, o preconceito é contra os pobres, estes sim, clase única independente de cor ou credo. No entanto, aos olhos dos riquíssimos xenófobos, somos todos pretos e burros e bandidos.

Relembro apenas dois fatos históricos:
1. A ‘mãe brasileira, segundo Darcy Ribeiro, não é européia branca de olhos claros, mas sim negra ou índia ou mulata. Apenas 5% enquadra-se na primeira categoria, quando os europeus que imigravam para o Brasil eram, maioritariamente, homens. E procriaram com as escravas, índias, pobres e disponíveis, para formar o povo brasileiro.

2. Uma outra leva de europeus, pobres, fugindo da miséria e da fome reinantes em uma Europa devastada pelas guerras, foi convidada e recebeu ajuda do Estado brasileiro para se instalar no solo verde e amarelo. Repito: classe de pobres, brancos, europeus, olhos azuis e verdes, alemães, italianos, poloneses, holandeses, etc.

E concluo: talvez tenham sido estes, do fato número 2, os ancestrais dos modernos e preconceituosos brasileiros que desfiaram todo o seu novelo de arrogância e de pobreza de espírito contra os nordestinos e nortistas, através do twitter. No entanto, fiz alguns cálculos básicos e concluí que, talvez extrapolando, este grupo represente uns milhares de seres humanos, (quase) brasileiros.

Em um universo de (quase) 200 milhões, uns poucos milhares desperdiçam uma das maiores riquezas oferecida pela nação que os acolheu nesta vida, que é o respeito pelo outro e a aceitação de que sangue, quando jorra, é sempre vermelho, não importando a cor da pele que cobre o corpo de onde ele saiu (parafraseando o grande poeta paraense, José Maria, Zema para os amigos).

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* Santareno, professor-doutor reside em Portugal.

Comentários

3 Comentários para “Xenofobia no Brasil”
  1. Carlos Kleber Araújo. disse:

    discriminação, racismo, xenofobia. tudo isso contido num artigo escrito pelo senhor RONALDO CAMPOS em um semanario santareno quando se reporta a senadora alenquerense MARINOR BRITO. Sera que ele ja leu este artigo? A duas semanas ele endeusa JADER BARBALHO e esculacha MARINOR. E olha que Alenquer ja lhe serviu de berço por muitos anos. Ha gostaria que aproveitar o espaço e perguntar ao senhor RONALDO CAMPOS: sera que senhor usa de XENOFOBIA, DISCRIMINAÇÃO E RACISMO quando esta trancafiado com o prefeito JOÃO PILOTO em seu gabinete. Que de importante o senhor RONALDO vem fazer todo fim de mês em Alenquer, sera aconselhamento politico ou ta levando um cala a boca.

  2. Samuel Lima disse:

    Celsão,

    As manifestações criminosas da estudante (de direito?) paulista, acompanhadas por mais de 1.300 twitteiros (entre fakes e perfis de fato) são o eco mais abjeto da campanha sórdida conduzida por José Serra, apoiada na infâmia, na exploração de valores espirituais e crenças medievais. Não por acaso, o ex-governador paulista articulava, à luz do dia, com a famigeradíssima Tradição, Família e Propriedade (TFP) e o setor ultra-conservador da Igreja Católica (Opus Dei) e líderes obscurantistas das igrejas evangélicas.

    Torço para que a ação da OAB-PE contra todos os que incorreram nos crimes de xenofobia e incitação ao homicídio (afinal “matar um nordestino afogado” não é pilhéria estundantil) seja de afto acolhida pelo judiciário, exemplarmente. Quem sabe assim, gente que se move por esse tipo de sentimento pense 10 mil vezes antes de “agir”…

    Pensando em retrospectiva, desde a desventura nazista, prefiro apostar na esperança, cantando com Beto Guedes, em Sol de Primavera: “A lição sabemos de cor/ só nos resta aprender”.

    Beijos no coração, mano velho, e inté a próxima semana, na Pérola do Tapajós.

    Samuca

  3. Nazareno Lima disse:

    É uma questão histórica que já vem de muito o preconceito de paulistas, sulistas e até de cariocas contra nordestinos e nortistas. Morei dos 18 aos 30 anos no eixo sul-sudeste e percebi e senti as “brincadeiras”, (sem maldade da maioria), mas sempre fomos tratados como gente de segunda. Lá, do Rio de Janeiro pra cima todos somos nordestinos ou nortistas, sem distinção geográfica. Com o tempo as coisas foram se agravando, movimentos separatistas, mesmo por baixo dos panos foram surgindo, grupos de jovem de São Paulo com nítidas características fascista-nazistas, já não tanto de baixo dos panos, surgiram e agiram violentamente contra nordestinos e outras “minorias”.
    Com a campanha eleitoral deste ano, as coisas se agravaram mais ainda, a mídia através de alguns “formadores” de opiniões e setores da oposição, desdenhava a grande preferência dos eleitores nordestinos pela candidata do governo por serem incultos e beneficiários dos programas sociais, taxando esses programas e os beneficiários com adjetivos pejorativos agravando ainda mais o preconceito.
    A reação portando desses aleijados mentais, nada mais é do que o reflexo de toda essa campanha suja e irresponsável praticada durante a campanha eleitoral.

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