Blog do Jeso

Ademar Amaral

Natural de Óbidos, é escritor e engenheiro civil. É autor, entre outras obras, do romance "Sementes do Sol" (2012). Escreve regularmente neste blog.

O acidente

Fotos – Ademar Amaral
O ACIDENTE, Queda de avião em Altamira

por Ademar Ayres do Amaral (*)

Ademar AmaralApós um pesadelo nada agradável, acordei um tanto ansioso, às quatro da manhã, naquele dia 21 de fevereiro de 2009.

Meus sonhos até que são muito tranquilos e quase sempre envolvem acontecimentos triviais que se passaram ainda na minha infância, no Paraná da Dona Rosa. Raramente tenho pesadelos, mas aquele me fez acordar com suor frio e taquicardia.

O cenário era a Av. Nazaré e eu saía do prédio onde até 28 de abril passado morou minha saudosa mãe, quando alguns bandidos me abordaram e, um deles, portanto uma metralhadora, disse: “este aqui já vai”. E deu uma rajada certeira quase encostando o cano da arma na minha barriga.

Sem sentir dor, mas consciente de que estava gravemente ferido, saí em desabalada carreira no rumo da Praça da República em busca de encontrar um táxi para me levar a algum hospital. Abordei vários deles e todos se recusavam a me dar socorro.

Então, desesperado, decidi ir até ao Hotel Hilton, varando por detrás do Teatro da Paz, mas no hotel também não havia táxi e quando consegui chegar à recepção para convencer alguém a me chamar um, acordei espantado e não dormi mais.

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Viver para contar

por Ademar Amaral

A melhor maneira de se vencer uma tentação, é ceder a ela.
Oscar Wilde

Ademar AmaralSe você pretende passar um desses fins de semana aprazíveis numa casa de veraneio ou num sítio de algum amigo ou parente, e se for levando na bagagem o livro “Viver Para Contar”, autobiografia do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, é melhor desistir desse programa enquanto há tempo.

Trate logo de optar por permanecer em casa e ficar lendo em paz.

Leia também do autor – A noiva de maio.

Ou então, se você for um desses leitores compulsivos, faça a coisa certa de uma vez: vá, mas não leve esse livro com você. Não corra o risco de abrir e começar a ler o livro no sítio, para as pessoas não pensarem que você ficou lelé da cuca.

Acreditem: é começar a leitura para ter certeza que a partir daí você não vai conseguir mais fazer outra coisa na vida. Não irá mais prestar atenção em nada que não seja viajar junto com o grande Gabo, ligado nas peripécias que ele viveu para driblar as dificuldades e realizar uma prodigiosa vocação de escritor.

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A noiva de maio

por Ademar Amaral

A noiva de maio, de Ademar AmaralJosefina era uma azarada. Seu primeiro noivo, um desses marreteiros que vagueiam de festa em festa pelas cidades do interior, deixou-a a ver navios, ou melhor, a ver regatão na porta da igreja. Foi também seu primeiro homem.

Com promessas de casamento e outros babados que os malandros conhecem bem, arrancou-lhe, como se dizia, o cabaço, em plena festa da padroeira, ao sabor de um baião que o alto-falante mandava pro ar.

Virgindade ida pro espaço, Josefina fez logo o teste com o safado:
– Cumé qui é: casa ou num casa?
– Mas claro, né? Promessa é dívida e…
– Vê lá, hein !? Se papai descobre…

Cabe aqui um sutil, porém importante esclarecimento: o pai verdadeiro era pai de criação. Josefina era órfã e foi trazida nos braços do compadre Basílio lá das bandas do Juruti Velho.
– Me deram, cumpadi, o sinhô num qué criá? Eu e a Pachica já temo o Isolino. Cês num tem filho e bem que era uma distração pá cunhada Joca.

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História de uma Quarta-Feira de Cinzas

por Ademar Amaral

Ademar AmaralBom, pra início de conversa, vou logo dizendo que carnaval e alegria programada não mexem mais comigo.

Anda muito longe a fase das festas infantis na ARP, em Óbidos, que eu frequentava na companhia do meu dileto amigo Célio Simões e da nossa namorada de então, certamente muito mais dele que minha.

Leia também do autor – A Saraiva é uma festa.

E só lembranças das festas de uma outra fase mais adulta, quando eu me esbaldava com uma outra belezura de Santarém, mas sem padecer das ameaças do Célio (nessa altura pros lados de Marabá), nos nobres salões do badalado Centro Recreativo.

Tudo muito diferente destes tempos em que prefiro aproveitar os dias do senhor Momo para ficar quieto no meu canto.

Faz uns dois anos, durante o período carnavalesco, eu e minha esposa aceitamos o convite de um casal amigo para ficar descansando no belo sítio deles, a uns bons quilômetros de Belém.

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A Saraiva é uma festa

por Ademar Amaral

Ademar AmaralNão sei se foi o pacu assado de um sábado ou se a sobremesa de uma bela tigela de açaí regada a farinha tapioca, o que me motivou a sair sozinho para dar uma passada na Livraria Saraiva, do Shopping Boulevard.

Leia também do autor – O caso do Mascarado Fobó.

Não, agora lembro, não foi o pacu nem o admirável açaí, foi meu subconsciente que me mandou lá em busca de Ensaios, o livro póstumo de Truman Capote com as melhores crônicas que o autor de A Sangue Frio publicou nas mais importantes revistas americanas.

Trata-se de um tijolão de umas 600 páginas que, segundo a crítica especializada, mesmo um leitor de capacidade apenas mediana é capaz de encarar quase como o prazer de uma relação carnal. E eu, leitor de razoável pra bom (ainda não criei coragem de abrir Ulisses, de Joyce), sou fã incondicional desse incrível gênio de Nova Orleans.

Há um grande filme (Capote), que mostra os detalhes de como ele escreveu A Sangue Frio, obra clássica da minha e de todas as gerações até o final dos tempos. Recomendo tanto o livro quanto o filme.

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O caso do Mascarado Fobó

(Aconteceu em Óbidos, acredite se quiser)

por Ademar Amaral

O caso do Mascarado Fobó, de Ademar AmaralÓbidos, Fevereiro de 1943. Pairava uma brisa com prenúncio de chuva forte naquela festiva noite de terça-feira gorda.

Na provinciana Óbidos daqueles dias da segunda guerra, o carnaval ainda não se chamava canapauxis, mas já explodia de animação nos blocos dos mascarados fobós com suas barulhentas bexigas de boi, embalados pelo sucesso de Mamãe eu Quero, marchinha que a muito ouvida Rádio Nacional divulgava na voz e no batuque incomparáveis da exuberante Carmen Miranda.

Com prenúncio de chuva, a perigosa garganta do Amazonas apresentava aqui e ali pontos brancos de rebentação contra a luz do luar. Um farfalhar característico, produzido pela constante maresia, acariciava os barcos na beirada e entrava pela janela do segundo andar da pensão, onde o bancário recém chegado tentava chamar o sono. Muito esquisito que numa terça-feira de carnaval ele tentasse dormir, enquanto a cidade inteira pegava fogo feito um fardo de juta.

Àquela hora, a maior parte da população se divertia nos três clubes mais concorridos da cidade. Os obidenses mais abastados iam para o Quartel do 4º Grupo, lugar das festas chiques, que no período de Momo era cedido pelos militares para servir como salão de baile. Os demais se dividiam entre o Amazônia Clube e o Antonico Pé de Arpão, este último, o preferido da rapaziada mais afoita, sempre na intenção de arrastar alguma molecota no fim da noitada.

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A travessia

por Ademar Amaral

Ademar AmaralO tempo é o mais poderoso componente da natureza e uma das coisas mais penosas na passagem do ser humano por este mundo. Pensei muito sobre essa inevitável ferramenta divina que rege todos nós, num dia do verão passado, enquanto curtia um fim de semana com a família no balneário de Alter do Chão.

A dura prova que me fez refletir a esse respeito, aconteceu no segundo dia, quando resolvi, por pura falta de bom senso, atravessar a nado o pequeno braço do Tapajós que divide a vila formosa da ponta de areia onde se concentram as barracas de venda de comida.

Quem algum dia já teve a ventura de conhecer Alter do Chão, sabe do que estou falando. Quem nunca passou por lá, é bom fazer logo esse “sacrifício” antes que os esgotos a transformem na mesma doença incurável que já tomou conta da orla de Santarém.

A bem da verdade, tudo ali era nada que eu não conhecesse como a palma de todos os meus instintos, desde tempos idos da década de 1950, em que visitei o lugar pela primeira vez, num barco do meu tio Zeca BBC.

Ribeirinho criado nas barrancas do Paraná da Dona Rosa, eu já nadava como um peixe quando cheguei a Santarém, em 1958, onde passei seis privilegiados anos, estudando e me preparando para as batalhas da vida, no espetacular Colégio Dom Amando.

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