Blog do Jeso


Célio Simões

Advogado e escritor, nasceu em Óbidos. É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

Nepotismo e corrupção

Nepotismo e corrupção, Nepotismo

por Célio Simões(*)

Eu era ainda um esforçado estudante do curso de Direito quando assisti a uma palestra do ex-governador do Pará (que seria ministro do Trabalho, da Educação, da Previdência Social, da Justiça e presidente do Senado Federal), coronel Jarbas Passarinho, quando ele fez uma interessante abordagem da origem, no Brasil, dessa verdadeira praga entranhada na administração pública que é o nepotismo, seja direto ou cruzado.

Disse o famoso político que a mais remota lembrança que se tem dessa perniciosa prática remonta ao descobrimento, quando Pero Vaz de Caminha, em missiva ao rei de Portugal, não se constrangeu em pedir um cargo para o genro, que seria remunerado, naturalmente, pela contribuição compulsória dos nativos da nova colônia, vítimas futuras de escorchantes taxas e impostos ditados pela Coroa, que nos idos de 1789 desaguou na Inconfidência Mineira, um dos mais relevantes movimentos sociais da história do Brasil.

Se conseguiu ou não a nomeação, o palestrante não informou, o que a meu ver se mostra irrelevante.

Relevante é a circunstância de Pero Vaz ter feito o pedido em favor do contraparente, independente de ser por ele mensurada sua parca ou nenhuma qualificação para assumir o lugar pretendido.

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Um gentlman no IHGP

 Um gentlman no IHGP,Antônio José de Mattos Neto e o presidente da oabAntônio Mattos Neto (à esq.) e Marcos Vinícius Coelho

por Célio Simões (*)

Discurso de saudação proferido na sessão solene realizada dia 01/11/2016 na sede da Academia Paraense de Letras, em Belém, por ocasião da posse de Antônio José de Mattos Neto, na cadeira n.º 57

A ascendência ilustre não credencia ninguém a ingressar nos quadros do IHGP [Instituto Histórico e Geográfico do Pará]. Entretanto, esta circunstância da ancestralidade honrosa ganha especial relevância quando, além dela, o pretendente tem méritos próprios, afinidade com a cultura, possui trabalhos ligados à história, à geografia e à antropologia, sem prejuízo de envergadura moral, caráter impoluto, honra intangível e assume o compromisso de oferecer à sociedade o melhor de sua produção intelectual.

Este é o caso de Antônio José de Mattos Neto, cujo respeitável currículo o habilita com sobras a integrar o nosso Sodalício, seja pelas suas titulações acadêmicas ou pelo conjunto da sua extensa obra, uma das quais, convém frisar, versa sobre a história da nossa cidade nos faustos da borracha, o que vem ao encontro dos objetivos que inspiram e até denominam o IHGP.

Conquanto o empossado, pela sua notoriedade, dispense apresentações, o farei para seguir a praxe, e para enfatizar o quanto ele poderá acrescer à Casa que o acolhe, em especial nesta auspiciosa fase de expansão de seus quadros e afirmação institucional que atravessa.

O novo sócio nasceu em 23/03/1958 em Belém do Pará, terra que aprendeu a amar sem reservas e desde cedo revelou pendores como cronista, poeta, monografista e romancista.

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Trágico revival

Trágico revival, Barco explode em Santarém. “Hanna Janessa”

por Célio Simões (*)

Célio Simões - Blog do JesoDebruçado na amurada do “Almeida Júnior”, o portentoso barco que fazia a linha Oriximiná/Santarém no início da década de 1970, passei parte da madrugada sentindo o cheiro gostoso do remanso trazido pela brisa do Amazonas, dividindo com Agenor, seu proprietário, generosas porções de café com que espantávamos o sono, servidas pelo solícito cozinheiro.

Tímido e caladão, ele era um excelente papo. Desta feita, me contava com orgulho que se sentia realizado, pois o transporte de cargas e passageiros entre as duas cidades, com breve parada em Óbidos, lhe dera estabilidade econômica e tudo indicava que o horizonte lhe sorria sem percalços, de vez que o único concorrente, o “Rio Hidequel”, do qual era proprietário seu amigo obidense Orivaldo Nunes, não era páreo para seu, mais potente e com maior capacidade operacional.

Surpreendeu-me, portanto, a certa altura da narrativa, a confidência de que no final no ano pretendia parar. E ante a minha muda indagação esclareceu o porquê daquela decisão: a necessidade de estar mais tempo com a família, a fadiga de quem passava as noites em claro supervisionando os serviços de bordo, o risco que era enfrentar as pavorosas tempestades tropicais naquele vasto trecho desabrigado do farol do Patacho, os traiçoeiros bancos de areia que se multiplicam na vazante, o sempre possível choque do casco com enormes troncos submersos, alegações todas plausíveis.

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Bem-vinda à academia!

por Célio Simões

Discurso proferido na solenidade de posse da advogada e jornalista Franssinete Florenzano na cadeira n.º 13 da Academia Paraense de Jornalismo, no último dia 19, em Belém

Bem-vinda à academia!, foto de Célio Simões - Blog do JesoNada mais gratificante para um orador, do que saudar uma pessoa que ele admira. E dessa tarefa estou incumbido, por especial beneplácito do nosso presidente, Dr. Walbert Monteiro.

De início e para que todos tomem conhecimento de como se materializou a criação da nossa Academia, permito-me citar breve trecho da lavra do confrade Aldemyr Feio, no seu autodenominado “Jornal do Feio”, no ano de 2009:

“A Academia Paraense de Jornalismo foi fundada em 26 de outubro de 1994, tendo como objetivo básico a valorização cultural da atividade jornalística, estimulando-a a dimensão intelectual. Compõem a Academia (…) profissionais que desempenham ou hajam desempenhado atividades jornalísticas, e autores de trabalhos publicados regularmente na imprensa. É constituída por 40 cadeiras perpétuas (…). A APJ começou com vários encontros no terraço da residência de Donato (Cardoso), na Travessa Mauriti, entre as avenidas Pedro Miranda e Marquês de Herval, sob a luz da lua e das estrelas.

A turma se reunia uma ou duas sextas-feiras por mês para discutir os rumos da APJ, regada a um bom uísque (legítimo, selado) e doses gratificantes e benfazejas de tira-gostos variados. O encontro começava, invariavelmente, as oito e meia e, por vezes, se prolongava até quase meia noite. Ou mais.

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Práticas abusivas

por Célio Simões (*)

práticas abusivas, simões - Blog do JesoNestes tempos de malabarismo financeiro, onde pessoas físicas, famílias, sociedades unipessoais, organizações empresariais e entes despersonalizados como os condomínios edilícios lutam para compatibilizar receitas e despesas, alguns síndicos mais argutos atentaram para uma impropriedade nas cobranças de energia elétrica feita mês a mês pela Celpa, com impacto negativo na vida dos condôminos, que poderiam desembolsar menos a título de taxa condominial ordinária.

Tratando-se de prédio utilizado exclusivamente para fins residenciais, óbvio está que as faturas apresentadas pela concessionária deverão ostentar, no item “classificação”, a tarifa “Residencial/Trifásico”, a não ser que a destinação do edifício seja mista, albergando residências familiares e algum tipo de atividade comercial ou prestação de serviço, hipótese em que a taxação será mais onerosa, correspondente à classificação “Comercial/Serviço/Trifásico”.

Mais grave ainda é que, às vezes, a mesma unidade consumidora sem alterar sua destinação, sofre modificação unilateral em sua classificação, passando sem prévio aviso de residencial para comercial, com isso comprometendo a liquidez das contas condominiais, muitas delas beirando o vermelho pela elevada inadimplência dos moradores, alguns dos quais lutando contra o flagelo do desemprego.

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A Cosanpa e o CDC

por Célio Simões (*)

A Cosanpa e o CDC, Célio Simões - Blog do JesoMês passado, o povo santareno foi surpreendido com a notícia de que a Cosanpa estaria cogitando negativar o nome dos devedores de consumo de água nos órgãos de proteção de crédito, notadamente o SPC ou a Serasa, em face da elevada inadimplência, atualmente beirando a metade dos haveres a serem recebidos.

Segundo os prepostos da empresa, os estudos para a viabilidade dessa medida extrema estaria a cargo do seu serviço jurídico, incumbido de opinar sobre a viabilidade do procedimento, que sabemos todos provocará virulenta reação das pessoas atingidas, que passariam a sofrer severas restrições em sua capacidade de crédito, afora a mancha imposta ao próprio nome.

Pelo que li a respeito, as lideranças de (muitos) bairros e outros segmentos representativos da população protestaram de forma incisiva contra aquela pretensão, dentre todos e com maior destaque, alguns dignos vereadores da Câmara Municipal, via de regra atentos e empenhados na solução dos reclamos da população, chegando mesmo os edis a propor o desate contratual entre a PMS e a COSANPA, justificado pelo ostensivo descumprimento dos serviços a que esta se obrigou: o fornecer água de boa qualidade aos moradores de Santarém.

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A Guarda Municipal de Santarém

por Célio Simões (*)

A Guarda Municipal de Santarém, por Célio Simões - Blog do JesoPelo que venho acompanhando de algum tempo, em boa hora a Câmara de Vereadores de Santarém aprovou o projeto de lei instituindo a Guarda Municipal, projeto que foi apresentado pelo prefeito Alexandre Von no início de fevereiro deste ano.

Pelos regramentos do processo legislativo, resta agora a sanção do Chefe do Poder Executivo, no prazo de quinze dias, sob pena de fazê-lo a própria Câmara.

Leia do autor também – Os dentistas da minha terra.

Penso que a criação da guarda na “Pérola” já era uma necessidade, considerando sua expressiva população em torno de 300.000 habitantes, com nítida tendência a aumentar pela sua condição de cidade polo do Baixo Amazonas, para onde convergem, de forma definitiva ou temporária, os moradores das cidades vizinhas.

Segundo o IBGE, estimativa feita em 2012, entre os 5.565 municípios do país, 993 deles já possuíam suas guardas, sendo que 27 estavam em cidades com menos de cinco mil habitantes.

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Os dentistas da minha terra

por Célio Simões

Célio Simões - Blog do JesoNeste final de 2015 resolvemos curtir o sufoco de Salinas, cujas praias de rara beleza ficam a cada temporada mais entupidas de gente. Mas foi uma decisão pensada, nada de improviso e a intenção precípua era virar o ano na companhia de pessoas queridas, embora tivessem as circunstâncias conspirado parcialmente contra, pois dois dos nossos filhos estavam viajando e o terceiro, às voltas com a esposa enfrentando uma gravidez exigindo todos os cuidados, não compareceram.

Leia também do autor – Os barbeiros da minha terra.

Contei, entretanto, com a agradável presença da minha irmã e seu marido, assim do irmão da minha mulher, meu velho parceiro de pescarias, pessoas que pelo alto astral são capazes de animar qualquer evento, como por exemplo, as concorridas comemorações do réveillon.

A residência não é muito grande, porém acomodou todos com conforto. Conversamos à noite sobre a programação do dia seguinte que seria passado na praia do Farol Velho, e atendendo recomendações médicas armamo-nos de protetores solares, separamos a tralha e fomos dormir bem tarde, após desfrutar de um show musical na ”Picanha do Romário”, um agradável point estrategicamente localizado não muito longe de onde moro.

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Os barbeiros da minha terra

por Célio Simões (*)

Célio Simões - Blog do JesoNo meu tempo de menino, quando a cidade não ia além da chamada Escola Rural, na saída para a estrada do igarapé do Curuçambá e a Tv. Dr. Machado se findava logo após a barraca da dona Ana Barata, vendedora do melhor mingau do mercado, tínhamos limitadas opções para cortar o cabelo.

Não existiam os sofisticados salões de hoje, onde o cidadão se estatela numa cadeira reclinável, coloca a cabeça numa espécie de terrina e ao redor fica um sujeito ensaboando-lhe a cara, tricotando-lhe as madeixas, besuntando-o com produtos os mais diversos, ao fim do que vem a conta, não raro salgada, como se a pessoa fosse uma Cleópatra tal o refino do tratamento que lhe é dispensado.

Por essas e outras, há mais de trinta anos não abro mão da minha contumaz visita à combalida barbearia do Edy, nas imediações do Jardim Independência onde morei por mais de quinze anos aqui em Belém, ambiente no qual se demoram apenas duas cadeiras de precária conservação e o som estridente de um rádio teoricamente visa agradar quem lá corajosamente se aventura.

BarbeariaBarbearia das antigas. Foto: Antônio Fonseca/Flickr

Toda vez que encaro o sacrifício, não deixo de lembrar as parcas escolhas que a garotada tinha em Óbidos na hora de podar a moita. Não iam além de cinco ou seis, salvo engano, os profissionais da tesoura, que lembro nitidamente serem seu Jacó (de quem eu era freguês), seu Mateus, o Geraldo, o João Barbeiro, o Cobra e o Laurentino, este último estabelecido em meia porta ali na ladeira do mercado, ao pegado da loja Formosa Obidense do italiano Silvestre Savino, mão na roda para quem estava no comércio, porém com a desvantagem do cliente sair de lá parecido com um índio mura, quase escalpelado.

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A triste sorte de um pinto sem dono

por Célio Simões (*)

Célio Simões - Blog do JesoMoleque do meu tempo, em Óbidos, não dispensava em casa ou na rua uma brincadeira de bola, jogo de pião, empinar papagaio ou simplesmente apedrejar as frondosas mangueiras que existiam na cidade, que o tempo e o desleixo das administrações foram deixando acabar.

Todo o time da minha faixa etária era por completo integrado nesse fuzuê, cujos “mestres” eram formados nos bancos das escolas municipais e ali concebiam variadas artimanhas, algumas de duvidoso bom gosto, como aquela de jogar bomba de São João, comprada nas barracas dos marreteiros da Praça de Sant’Ana, em cima dos cães vira-latas só para vê-los correr sem rumo, latindo em desespero pelo açoite dos estampidos. Um despautério!

Vez por outra a adrenalina aumentava.

Era quando eu resolvia subir a Serra da Escama para passarinhar lá no alto, inicialmente armado de baladeira e com o passar dos anos, com rifle calibre 22 de repetição, seis balas no pente e ferrolho na culatra. Perdi a conta das piaçocas abatidas no Lago Pauxis, das cobras venenosas ou não que atravessavam o meu caminho e das saborosas “Santa Cruz”, uma espécie pouco maior que a codorna, que no Nordeste é conhecida como “avoante”, a exemplo daquelas, degustadas em espetos de improvisados braseiros.

Quando não apareciam as minhas imbiaras prediletas, ficava eu sentado em um dos canhões Armstrong da Bateria Gurjão, lá no alto da serra, desfrutando a bela visão da curva estreita do Amazonas, com os telhados da cidade servindo de pano de fundo ao intenso verde da paisagem, compondo um quadro contraposto, naquilo que os poetas chamam de harmonia dos contrastes, até hoje registrada em minha memória.

Nesse dia não foi diferente. Atravessei a ponte de madeira sobre o Laguinho, inspecionei suas margens atrás das piaçocas e, à míngua de outros pássaros que não as pipiras e bem-te-vis, subi a encosta pela tortuosa trilha que eu conhecia como a palma da mão.

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