Santarém, Amazônia, Brasil

Era uma brasa, mora, a Jovem Guarda

Por Jeso Carneiro em 11/4/2010 às 15:19

por Paulo Paixão (*)

Escuto, algumas vezes, gerações à frente da minha geração comentarem assim, com uma ponta de sarcasmo e até com ares de superioridade:

- A Jovem Guarda foi um movimento cultural dos anos sessenta de pouca profundidade musical.

Outros, adeptos irrestritos dos ritmos modernos, dizem:

- Estas músicas (Jovem Guarda) são uma porcar…

assim, muitos sabichões da nova geração, pecam por fazer uma crítica leviana, apressada e preconceituosa acerca de um assunto que não dominam, porque não percebem a sua história, que é a história comum dos brasileiros e muito menos entendem o contexto social, político e cultural da segunda metade dos anos sessenta e início de setenta.

Não pretendo adentrar em discussões calorosas de conteúdo técnico. Deixo-as para os críticos que dominam, com propriedade, essa área. Quero contar da experiência vivida por minha geração que, antes de tudo, foi a geração de novos românticos, influenciados pelo rock’n’roll, essencialmente de Elvis Presley e os Beatles.

Faço um adendo, para dizer que, muito embora ditas influências e a minha geração, gosto da música moderna, mormente aquelas de letra e melodia românticas. Tenho ojeriza relutante por ritmo brega, do tipo tecnobrega, excetuando aqueles mais leves que falam de amor e que não ferem muito o ouvido sensível.

Pois bem, naquela época, havia muitas festas boas onde os jovens psicodélicos dançavam o iêiêiê. Às vezes soltos. Eu nunca fui adepto de dançar solto, sempre gostei do contato direto com a dama. As baladas rolavam no salão do Colégio Dom Amando, São Francisco, Fluminense, Veterano, Ginásio São Raimundo, Clube São Raimundo, Kakuri, Norte Clube, etc.

Entretanto, pegava bem uma festa lá em Belterra, no União, pois, lindas jovens belterrenses chegavam no pedaço e faziam a diferença. Nada de som de aparelho. Som de aparelho só nas festinhas em casa de amigos. Nos salões tinha que ser mesmo o som vivo de bandas, as mais afinadas.

Gostávamos de curtir as bandas The Big Boys (Marreta), Os Brasas (Laurimar Leal), Os Hippies (Odilson Matos) etc. Normalmente as músicas eram de letras românticas e descontraídas. Dava pra gente dançar agarrado e levar um bom papo e entrar no clima e ser correspondido.

A mais firme foi a era do Fluminense, com luz negra, onde as ninfas santarenas mostravam toda sua beleza, nos trajes de vanguarda: blusa decotadas, sapatos estilizados, mini-saias, e maquiagem de estrelas de cinema. Os rapazes ostentavam cabeleiras à moda Beatles, pulseira de ouro, botas de couro, calças estilo pantalona e camisas, digamos, transadas.

Cortava-se gírias básicas, frases idiomáticas, tipo, como é bicho, vai ou não acompanhar a galera? Que brotos legais! Bater papo. A festa está bossa!

Existiam os playboys preferidos das jovens e isso era notório: tinham carrão, vestiam-se na moda, e pertenciam ao círculo da alta sociedade. Normalmente, os figurões residiam no centro da cidade e eles eram os caras das meninas. Nós, dos bairros periféricos, não tínhamos carro, andávamos a pé e ralávamos para nos vestir bem.

Existiam sim, naquela época, os que eram e os que não eram da sociedade. Nós que não éramos da sociedade, penso, vivíamos, literalmente, a realidade da vida do nosso tempo: conhecíamos o preço das coisas básicas, pois íamos às feiras e mercados; bebíamos nossa gelada em botecos ou tavernas e neles como rolavam as fofocas da cidade… aqui e ali deparávamos com artistas anônimos e aprendíamos, com precocidade, tudo o que se pode imaginar da vida, seus segredos e sabedorias.

Como naquela época não tinha televisão, criávamos outros tipos de diversões: os banhos de igarapés no Irurá, São Brás; os banhos nas praias da frente da cidade e as peladas das tardinhas em frente à Casa de Saúde, Prefeitura, Vila Arigó, etc.; as missas aos domingos na Catedral, São Sebastião, Santana, Nossa Senhora de Fátima, Aparecida, e no término da missa, os disputados passeios nas praças, onde as ninfas se exibiam e podiam nos namorar.

Bem, sobre os passeios lá na pracinha ou na orla, onde, hoje situa-se o Mascotinho, normalmente, nós não os freqüentávamos, pois, lá era a passarela das patricinhas e dos mauricinhos da cidade, que como os da atualidade, tinham carrões bem incrementados e pedegree.

Aos sábados pela manhã, quando vinha do Mercado Modelo com meu pai ou mesmo quando realizava alguma tarefa para a minha mãe, era comum ver na Garapeira do Cacheado figuras fashions, badaladas e vestidos à última moda, como músicos, jornalistas, jogadores de futebol, playboys, dançarinos, etc. fazendo um resumo dos acontecimentos sociais e políticos da cidade. Nos bancos das praças, lia-se jornais e comentava-se as últimas da semana.

Alguém me perguntou:

- Naquela época tudo era melhor que hoje?

- Muita coisa era melhor, mas não tudo. Era melhor a tranqüilidade, o respeito aos mais velhos, o maior tempo de convívio com a família, a comida natural, as constantes caminhadas, os bate-papos na rua e na frente de casa, as águas dos rios que não eram poluídas, instrumentos acústicos, as festas de música suave, o namoro bem intencionado, as juras de amor, as trocas de cartas com frases criativas e amorosas, a oferta de flores, o bom galanteio, as mulheres recatadas e meigas e respeitosas, os filmes do Cine Olímpia, as trocas de gibis em frente ao Cine Olímpia, a religião acreditada, folclore do povo bem diversificado e apreciado, menos violência nas ruas, nada de droga ou gang’s, etc.

O que não era bom, ou melhor dizendo, o que, hoje, tem de melhor: ritmos musicais diversos, letras mais rebuscadas, instrumentos musicais eletrônicos mais possantes e de melhor qualidade, melhores oportunidade de emprego, acesso fácil a novas tecnologias, comunicação a mil, muitas rádios, distribuição de renda mais eqüitativa, muitíssimas mulheres bonitas, estudo mais acessível.

Caro leitor como era bom assistir ao Luis de Assis trajando blusão e calça jeans, sentado num banco da pracinha (próximo ao que é hoje o Mascotinho) tocando seu violão com aquela sua batida cheia de swing e a voz rouca e educada, fazendo parar os transeuntes com as modinhas “só quero que você me aqueça neste inverno e que tudo mais…” ou “Não creio em mais nada. A minha vida é um…” “Velhas cartas de amor, relíquias que colecionei…são jóias que eu guardarei…”.

Como podemos esquecer aquelas madrugadas na Fuluca, dançando um merengue ou uma rumba ao som do Mimi Paixão ou do Nem e do mano Pedro, apertando uma cabrocha carinhosa, lasciva e decidida? E as festas do interior cheias de surpresas, adaptações e aqueles porres de amanhecer o dia vendo o céu se abrindo para novas aventuras?

A Jovem Guarda pra nossa geração tinha tudo de romântico, de terno e de empolgante, onde a mulher era reverenciada como a uma deusa, por isto, os presentes, as ofertas de flores, as cartas, os oferecimentos, a poesia, as paixões e as músicas leves, soltas e apaixonadas, sem preocupação com a intelectualidade, mas, tão-somente em cantar e decantar todos os amores como quem está feliz, bem feliz com a vida!

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* Santareno, é poeta e escritor. Escreve

Comentários

2 Comentários para “Era uma brasa, mora, a Jovem Guarda”
  1. Marcos Dolzany disse:

    Paixão, temos que fazer maiores incursões nesse estilo nos nossos próximos encontros musicais…
    Um abraço

  2. Sílvio Jr. disse:

    Adoreio texto do Paixão.
    Uma ressalva.
    Creio que o Conjunto Musical Os Brasas era do Laurimar Queiros. Que teve também o Som 40. “O Quarentão Som da Pesada”, que foi meu professor de bateria, quando morava na Barão do Rio Branco, em frente ao SESP.Próximo ao Colégio Estadual Alvaro Adolfo da Silveira.
    O Laurimar Leal é o Artista Plástico.
    Acredito que seja isso.
    Sobre o Paulo Paixão, lembro que o meu Pai João Sílvio, sai em uma Rural de propaganda volante, fazendo propaganda da Galeria Moraes, Em cima do carro, iam o Palhaço Cartolinha cantando e o Mimi Paixão tocando o Saxofone e o Pompeu da 15 de Agosto, no violão.
    Abraços.
    Vou reproduzir no meu blog http://joaosilvio.blogspot.com/
    essa postagem.

    Sílvio Jr.

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