Blog do Jeso


“Santarém não te recebe pelo teu CPF. Recebe pelo teu RG”

CPF, Antenor

Olá, a minha conversa, desta vez, é com um paulistano Cidadão de Santarém Antenor Pereira Giovannini, ex-gerente da Cargill Agrícola SA.

O papo foi numa manhã de muito sol, quando ele se arrumava para voltar para a sua terra Natal após uma temporada aqui na city, onde veio para passar as festas de final de ano.

Autêntico e exímio tagarela (rs rs)…Ele fala bem mais que eu e muiiiitoooo maiiiiiiiiiiiiiis que o “Bom”. Então, Giovanini falou de trabalho, diversão, casamento, política e do amor que tem por Santarém.

Bom dia, tudo bem?

Oi, Núbia, quanto tempo! Eu já te conhecia da época da TV Tapajós.

Pois é, eu também. Desde aquela época esta será a primeira entrevista que faço com você, já que as pautas sobre a empresa que você trabalhava nunca caiam pra mim...

Tá preparado para estrear a nova temporada de No Salto?

Sim, vamos lá… rs

Vou começar bem discreta… rs rs

Você é um jovem senhor bem divertido, essa é a única informação que me deram antes de vir pra cá. Ah, também sei que torces pelo (Arrrrrg) Palmeiras…rs

Bem, quero saber um pouco da sua trajetória de vida…

A minha vida profissional começou em 1968, em São Paulo, numa corretora de valores, como assistente contábil. Por meio de amigos de adolescência, em 1969, fui chamado para uma empresa nova que estava abrindo no Brasil, chamada Cargill Agrícola, uma multinacional americana. Naquela época eram poucas unidades… Comecei como assistente contábil e depois de 40 anos encerrei meu ciclo,em 2009, como gerente regional.

Antenor

Tem muita história pra contar, né?

Muitaaaaassss. Algumas dariam ótimos livros de aventuras. Para você ter uma ideia, comecei em São Paulo na Matriz e depois passei a atuar pelo interior abrindo fronteiras para a Cargill. Consegui abrir umas 12 fronteiras agrícolas, creio eu. Lugares que quando eu cheguei, não eram nada e, hoje, são municípios desenvolvidos, como Baús, Alto do Taquari, Chapadão do Céu, Chapadão do Sul, Campo Novo dos Parecis. Há 30 anos essas cidades não passavam de “ruas” e, agora, estão muito bem desenvolvidas, a partir da agricultura.

Do Mato Grosso para cá foi um passo então?

Foi surpresa da chefia ter me dado essa incumbência. A região oeste do Mato Grosso, onde eu atuava, passou a ser a principal abastecedora de Santarém e nem passava pela minha cabeça ser transferido para cá. Imaginava continuar no MT. Quando a chefia determinou a mudança e, mesmo com pouco conhecimento de porto acreditaram no trabalho. E com um detalhe interessante. Meu diretor no dia que comunicou essa mudança acrescentou que eu iria casar em Santarém.

KKKKKKKKK… ele é um “bruxo”

Também dei risada, porque já estava separado há anos, andando por vários lugares e sem ter essa preocupação.

Tá vendo só… hahaah… Aqui você conheceu um mulherão, aliás, a mulher da sua vida, né?

Pois é, a previsão dele acabou dando certo. Acredito ter feito um razoável trabalho. Conheci a Daniela… a minha Dani. Fizemos a coisa ao contrário. Primeiro tivemos uma filha, depois namoramos e depois de 13 anos de namoro e vivendo juntos, em julho deste ano, nos casamos.

Antenor GiovanniniAntenor e sua esposa Dani

Casou pra valer? De papel passado? Como manda o figurino?

Sim, de papel passado e de aliança com direito a lua de mel e tudo… kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

E onde foi?

Em Alter do Chão.

Uauuuuu…

(Brilhossss nos olhosss) Santarém lhe encantou e a Dani também, né?

Pois é, tenho até uma filha mocoronga, a Giovana, de 11 anos.

Esse amor por Santarém é muito legal. Você, volta e outra tá por aqui né?

É…mas, agora, temos que “rachar” a família porque minha mãe é viva, graças a Deus, mas ela está com 91 anos e eu sou filho único, então ela já não tem mais condições físicas de morar e viver sozinha.

Entendo…

Até aos 85 anos, ela era independente futebol clube.

rs…

Hoje, ela vive numa casa de saúde, em São Paulo. Mas, as questões externas são todas por minha conta. Eu que a levo ao médico, por exemplo. Por isso, tive que voltar pra São Paulo. Eu e a Giovana moramos em São Paulo, já a Yasmin e a Dani, moram aqui. Então a gente vive nessa ponte aérea.

Antenor GiovanniniAntenor, com a filha Giovana e sua mãe

A Yasmin também é sua filha?

É minha enteada. Mas é filha porque está comigo desde os 5 anos . Hoje, ela está com 17 anos. Recentemente me deu uma netinha, a Maria Alice.

Aqui, sinceramente, o retorno é inevitável. Eu tenho casa aqui. A Dani tem seus negócios, tem a loja que ela mesmo toma conta. O sonho da Giovana é voltar pra cá.

Mas você tem outros filhos?

Sim, tenho do primeiro casamento, o César, de 42 anos, e a Cláudia, de 40 anos. O César mora nos Estados Unidos e a Cláudia mora em São Paulo. E ainda tenho outros 5 netos. Uma do Cesár e 4 da Cláudia. O mais velho casou recentemente e logo posso ser bisavó. Já pensou a Dani bisavó … rs rs

Quantos anos ela tem mesmo?

37…

Novinhaaaaaaaaaaaaaaaaaa….

E você?

Nasci em 1948. Faz a conta rs rs

hahahahaahah… És muito ousado heim? Você é do tipo que se garante. Da conta do recado?

Hahahaahah… Tem dias melhores e piores.

Obviamente, depois do infarto e consciente que 33 por cento do coração necrosado é arriscado por o pé no acelerador.

KKKKKKKKKKKKKKKKKK…. Bora voltar a falar de trabalho…

Existiam muitas dificuldades pelo caminho, ou você tirava tudo de letra?

Sempre há dificuldades com adaptações, mas nada que não seja possível de ser realizado. A estrutura que a empresa sempre concedeu permitia que as dificuldades sejam rapidamente superadas.

Desde 1990 a Cargill vinha buscando novas saídas no Norte e, de repente, apareceu Santarém, mas tinha o problema da estrada. A empresa teve todo um trabalho de conscientização da necessidade de asfaltamento da BR 163, ou o término, já que ela está asfaltada até a fronteira com o Mato Grosso.

Os anos foram se passando, as coisas foram crescendo, a Cargill entrou numa licitação pública, junto a CDP, venceu a licitação, no entanto, ela tinha o porto, mas não tinha a estrada…Então a empresa teve que encontrar uma outra logística sem contar com a estrada que, aliás, até hoje, passados mais de 15 anos, ainda não é totalmente asfaltada . A nova logística montada é meio complexa de ser compreendida, mas foi a única forma e que continua até hoje porque é uma coisa de doido, que, na verdade, acabou dando certo.

Ou seja, a mercadoria sai do Oeste do Mato Grosso, sobe de caminhão até Porto Velho, onde descarrega, depois o produto é descarregado em barcaças, que sobem o rio Negro e o Amazonas e então chega até Santarém.

Antenor

Carambaaa, uma voltaaa enormeeeeee

É um negócio de outro mundo porque a mercadoria sofre muitos tombos. Tem desgaste, tem perdas…

Então, o Oeste do Mato Grosso que abastecia…

Sim, ficou definido que a região iria abastecer Santarém, para fazer essa logística. Foi quando eu vim parar aqui. Participei de todo o processo de implantação da empresa aqui. Morei nessa terra durante seis anos, até chegar a idade de me aposentar.

Em 2009, encerrei minha carreira, após 40 anos na Cargill.

Um tempão, heim? Gostou da Cargill, né? Kkkkkk

HAHAHAHAHA… pois é! Falar que não gostou depois de 40 anos de trabalho é pedir para ser tachado de burro.

E tanto tempo na mesma empresa significa o que pra você?

Avalio como uma coisa que você gosta, num ambiente que te propicia a trabalhar com prazer e não de maneira obrigatória e a Cargill sempre propiciou isso, por ser uma empresa carreirista. Ela te fortalece para você permanecer nela. Concede oportunidades, incentiva a buscar novos caminhos. É um estilo americano de trabalhar que sempre deu certo. Sabe, você se torna participativo…

Doeu” para sair da Cargil? rs rs

Doeu pelo fato de você ver o seu ciclo terminar por causa da idade, mas, obviamente, você guarda com carinho, porque você viu uma empresa crescer.

Quando eu entrei eu era o No. 47, hoje, a empresa já chegou a ter mais de 25 mil funcionários quando absorveu outras empresas.

Muito bom.

De todas as cidades que você passou, Santarém foi a que mais te encantou né? Isso tá escrito… rs

Santarém não te recebe pelo teu CPF. Te recebe pelo teu RG. Normalmente, em outros lugares que passei, as portas eram abertas porque eu era de uma empresa. Santarém foi diferente. A cidade abriu as portas para o Antenor e isso me cativou desde o início. Eu sempre tive facilidade de fazer amizades e, aqui, foi fantástico.

Hoje, eu tenho um pouco de orgulho e um pouco de tristeza.

Por quê?

Eu tenho um título de Cidadão Santareno, mas nunca fiz nada por Santarém que eu gostaria de fazer.

Antenor GiovanniniAntenor e sua neta, Maria Alice

O que, por exemplo?

Ajudar no desenvolvimento agrícola do município. Eu tenho certeza que um dos caminhos do desenvolvimento de Santarém passa pela agricultura, não pela mecanizada, mas ela faria parte, ou uma boa parte disso, mas eu acho que temos grandes possibilidades de fazer projetos de extrema valia para obtenção de renda e emprego, porque aqui tem uma arma poderosa, mal usada, que é o porto. Toda cidade brasileira gostaria de ter um porto e, aqui, nós temos um, mas não sabemos usá-lo. Eu fico imaginando, você com um projeto de frutas tropicais, de flores tropicais, flores da Amazônia, estilo a Holambra, uma comunidade holandesa que o Brasil importou e, hoje, é um município do interior de São Paulo, que quando você conhece tem a impressão que está vivendo em outro mundo.

Em Santarém você paga uma dúzia de rosas por um preço caro porque as rosas vem de lá, de avião. É um treco meio absurdo, mas é verdade. Então, esse tipo de projeto que eu acho que Santarém tem condições de fazer. E não precisa de dinheiro, precisa de vontade.

Só vontade?

Sim! Vontade política e vontade de trabalho, porque da trabalho. Não cai do céu, mas você tem na mão.

Outro projeto é referente as frutas. Santarém tem centenas de comunidades com pessoas ávidas em querer melhorar de vida. Muitas saem do campo sem opção.

Fazer um mapeamento de todas essas comunidades e ver o que de melhor eles poderiam produzir …. manga, taperebá, acai, maracujá, banana, abacaxi, melancia, acerola, cupuaçu … entre outras infindáveis. Dar condições de plantio. E, principalmente, de comercialização. Não no mercadão 2000 que não é lugar. Mas em um local onde o preço é diário. Trazer empresas interessadas em explorar sucos, polpas, essências seja para perfumaria, seja para área de limpeza e um monte de coisas e usar o porto como válvula de escape seja mercado interno como externo. Isso gera renda e emprego e impostos que ficam na cidade.

E por que você acha que isso ainda não foi feito?

Por falta de vontade política… vontade de trabalhar. Não é num estalo. Precisa de equipe de campo. Pesquisa. Projetos. Usar Embrapa, Emater. Trabalhar duro.

Você nunca quis ser político?

Não é que eu nunca quis, eu acho que o grande problema de você ser político hoje, no país, é que você perde a identidade. Você tem que perder um pouco o teu caráter, lamentavelmente.

Por que você diz isso?

Olha, de repente você precisa se associar a um partido político onde você vê pessoas muito mais preocupadas com seus próprios umbigos.

Hoje, por exemplo, você vê que um presidente de Associação de bairro não está preocupado em ser vereador para ele melhorar o bairro dele, ou querer ruas asfaltadas, iluminação, escola…A única preocupação é entrar para o legislativo. E a primeira providência, na maioria das vezes, é cair fora do bairro que ele mora.

rs rs

Não é? E isso tudo porque o foco do país mudou. Hoje se tornou uma profissão que se tem oportunidade para ganhar dinheiro fácil, então essa questão de ter ideologia ou civismo ficou em segundo, terceiro, quarto plano. Por isso, nunca pensei entrar para concorrer a um cargo. Agora, nunca me neguei a ajudar. Todos os projetos que tô te falando eu apresentei e falei para os governantes da cidade (Maria do Carmo, Everaldo Martins, por exemplo), mas foram todos para a lata de lixo.

Só para você ter um exemplo simples: o primeiro embarque de soja que a Cargill fez aqui, o cônsul do Japão visitou a cidade juntamente com uma comitiva. Eles queriam ver a soja. Mas, olha, soja é soja em qualquer lugar do mundo…

rs rs

Nós fizemos toda a recepção, mas depois do café ele queria visitar uma área de flores.

Antenor

Putzzzzzz… Então ele nem veio ver soja…

Pois é. Demorou a minha ficha para entender o que ele queria realmente. Ele queria um lugar onde pudesse comprar flores. Autorizou, inclusive, presentear o pessoal do navio com flores aqui da região. E você não tem. A ideia dele era, quem sabe, manter um intercâmbio com flores da Amazônia para um país onde as flores tem especial significado. Nós não temos ninguém que faça isso… Se você quer dar flores naturais para a namorada, esposa tem que desembolsar R$150,00 (uma dúzia) porque ela vem de São Paulo, de avião … Em São Paulo custa R$25 …. triste

Triste mesmo…

Aquilo, sabe, ficou na minha cabeça. Eu até fui falar com o Everaldo (Martins) e fiz a proposta para ele. Mas…

Pensando aqui com os meus botões.. e o pessoal do navio foi embora de mãos vazias?

Não, eu tinha um kit Antenor… hahahahah

Kkkkkkkkkkkkkkkkk….

Era uma caixinha com cerâmica tapajônica, livreto, algumas coisas de Santarém que eu sempre oferecia aos capitães de navio. Mas, era muito pouco pela grandiosidade que nós temos.

Temos diversas formas de fazer essa cidade se desenvolver…Volto a falar sobre a questão da agricultura mecanizada, se tem áreas abertas, então porque não aproveitar. Não sou a favor de abrir novas áreas, mas sim trabalhar com o que tem, pois o que existe é suficiente para fazer duas coisas absolutamente básicas: soja e milho. Com soja e milho se faz ração e com ração se tem três caminhos normais: avicultura, suinocultura e piscicultura.

Em Sorriso, bem pertinho daqui (pouco mais de 2 mil km) tem tanque de pirarucu e aqui não tem nada.

A gente peca muito nesse quesito, né?

Peca porque o município não quer ter o básico, sequer, mesmo com tanta riqueza natural.

Há uma teia bastante dependente aqui.

O empresariado local, por exemplo, não pode brigar com o prefeito, porque a Prefeitura compra no “meu” supermercado, aqui, ali, então, enquanto não tirar essa “bainha” eu falo e repito, Santarém só vai mudar no dia que vir gente de fora, dar um soco na mesa.

Você é de fora…nunca pensou eu ser prefeito daqui?

Não, eu não tenho esse no knowhow.

Para ser político, nesse país, você precisa perder sua identidade, seu caráter. Eu demorei 67 anos para moldar o meu e ainda estou aprendendo para perder numa candidatura a qualquer cargo. Posso ajudar, independente de partido (que, aliás, hoje, é apenas uma sopa de letrinhas), mas ajudar com quem tem vontade de trabalhar, arregaçar as mangas. Assistir gente querendo usufruir de teu conhecimento para galgar degraus na política, tô fora. Nada cai do céu além de chuva. Tem que trabalhar. Com projetos nas mãos e um plano de ação básico ai se vai atrás de recursos ou do que for necessário. Mas pedir antes de trabalhar, é furada.

Quanto a ser prefeito entendo que seja como uma empresa onde ele é o responsável e as secretarias sejam seus departamentos com seus secretários ou os gerentes. E como numa empresa cada um ter seu balanço mensal e seus objetivos. Mas, quando se trabalha apenas politicamente colocando pessoas que nada entendem do assunto a coisa se já é ruim fica pior ainda. E como quem manda são os partidos, as chamadas coligações, se vê obrigado a trabalhar com gente que não entende de nada. Tô fora.

Para o senhor não precisa ter dinheiro, basta ter criatividade. Ousar…

Desde o princípio eu venho dizendo… Já falei com Alexandre Von, Lira Maia, Maria do Carmo, Osmando Figueiredo, Everaldo Martins, Jaci Barros e até agora ZERO. Eu disse que eles precisam trazer para cá uma espécie de CEAGESP (uma central de abastecimento) porque ali que você comercializa, compra e vende. O mercadão que exerce esse papel não deveria ter esse papel porque certamente existe a exploração, principalmente se ele não tiver espaço. O produtor não irá voltar com um caminhão de bananas .. então ele larga por qualquer preço. Essa central acabaria com isso. Os preços seriam diários, através de uma espécie de bolsa de oferta e procura e pelo telefone o produtor poderia saber qual preço que estão pagando hoje pela cebola, pelo mamão…Então, somente sairia da área de produção se o preço lhe interessasse . Depois de vender ele faria o que ele sabe fazer, ou seja, voltar e plantar de novo. Há centrais de abastecimento e vários e vários municípios muitos menores que Santarém, que abastece as 300 mil que vive aqui mais outros tantos em toda região. Uma vergonha não lutarem por isso. Basta visitarem um desses municípios e ver como funciona e copiar. Se para eles funciona, porque aqui não funcionaria???

Aqui a cidade insiste em andar para trás, então a única ressalva que eu faço é isso porque vou e volto, vou e volto e parece que você está vendo as coisas sempre para trás.

Antenor GiovanniniAntenor, a enteada e a neta

Bora falar mais um pouco do Antenor… Você é palmeirense daqueles fanáticos??

Não, eu já fui mais fanático por futebol. Mas, quando você fica mais velho você percebe a podridão. Assisto, leio, mas não tenho mais o fanatismo. Faz mais de 30 anos que não piso num estádio de futebol, mas ainda não deixei de ser palestrino.

Annnnn????

É que sou da época do Palestra/Palmeiras

Ah, tá..rs

Você faz algum tipo de esporte?

Não. Depois do infarto, em maio desse ano, o médico falou que os meus 66 anos que eu tenho de vida acabaram. Daqui para frente o meu esporte é tomar um monteeee de remédio, comer um comidinha bem básica e fazer ginástica. Eu faço esteira, levantamento de peso. Isso tem me ajudado a melhorar muito.

Nasceu de novo né?

Obrigatoriamente. Eu falo que, às vezes, a gente precisa tomar um susto para se conscientizar de que a gente morre pela boca, pela gula, pela falta de critérios em termos alimentares…

Muita gente é desleixada quando se refere à alimentação. Eu, por exemplo, andava por todo o país, de Norte a Sul, comia qualquer porcaria…

kkkkkkkkkkk… Vais pegar porrada chamando de porcaria a comida do pessoal

Mas comia em boteco de estradas, em qualquer lugar, churrascaria. Nas casas dos produtores eu enchia o bucho de porcada, galinhada…Então chega uma hora que o teu organismo não aguenta e ele apita. Foi o meu caso. Hoje, tô com o coração com 33 por cento necrosado, não posso operar e nem fazer nada.

Quando “nasce de novo” a pessoa volta mais humana?

Não, eu não digo que voltei mais humano, e sim, mais consciente. Tenho uma filha para acabar de criar, tenho uma neta… Eu tomei consciência da necessidade que preciso ser regular.

Verdade. O Giovanini é muito crítico?

Muitooo, e eu sempre vivia muito chateado. Tinha até um blog que o meu médico pediu para que eu desativasse.

Chateado com o que?

Com as notícias. Todo dia você vê corrupção, coisas que você jamais poderia imaginar que acontecesse. Você quer acreditar num país melhor, quer acreditar em esperança, que nossos filhos vão viver num país que você ajuda a desenvolver e, no final, a gente acaba vendo roubo, propina…

Você faz o que hoje? Aposentado vivendo de mordomias? kkkkkkkkk

Hoje sou um vagabundo remunerado, na concepção da palavra.

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…

Ai, eu só fico enchendo o saco dos amigos no Facebook… hahahahahahhahahahah

Poxaaaaa que invejaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Hahahahahahhahahahahahaha

Ficaste ricooooooooooooooooooooo?

Nãoooo

É que foram 40 anos de Cargill. Sabe, a Cargill tem uma Previdência, como muitas empresas, que por muitos anos eu abastecia com 12 por cento do meu salário. Era assim, eu depositava 12 por cento e a empresa 12 por cento e aí quando encerrei a carreira fiquei com a possibilidade de uso desse numerário.

Ok ok já entendi, você é milionário… kkkkkkkkkkkkkkk

HAHAHAHAHA… Não!!! Eu nem pude sacar tudo de uma vez, não. Faz parte do contrato.

Ahhhhh…

Antes podia, mas ai aconteceu de alguns colegas pegarem todo o dinheiro de uma vez, ai não souberam administrar, acabaram na sarjeta, em hospícios, se desesperaram….

Karakaaaa Loucos, loucos???

É, porque eles tinham um padrão de vida bom e, de repente, pegou toda a “dinheirama” e foram aplicar e quebraram, então por causa disso, a empresa impediu de tirar tudo. No meu caso, há um valor fixo mensal.

Eu tenho uma dúvida: Por que os ricos sempre dizem que não são ricos?

É que não é riqueza. É um numerário que da pra gente viver dentro de um padrão sem excessos. E o dinheiro foi uma poupança em conjunto. Meu e da empresa.

Inveja Modo On kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…

Antenor Giovannini

Então você ainda vive da “Cargill” ainda, né? rs rs

E do INSS, porque sou aposentado também.

Paulistano que morre de amores por Santarém, rico e cheio das amizades. Você tem muitos amigos pro lado de cá, né?

Muitossss..

Jornalistas então..rs rs

Todooooos, ou quase todos.

kkkkkk quaseee todossss?

É que com alguns eu briguei…

Kkkkkkk… Você briga por qualquer coisa?

Brigo, porque eu acho o seguinte: a imprensa é o maior veículo de democracia possível. É por meio do jornalismo que a gente fica por dentro das notícias. Os jornalistas derrubaram um presidente dos Estados Unidos.

Tem blogueiros também, que não são jornalistas, mas que estão ganhando força por meio das redes sociais.

É…tem blogueiros e “blogueiros”. Tem o joio e o trigo. rs rs

Eu acredito que os profissionais que fazem o bom jornalismo deveriam lutar pela cidade. Uma das coisas que eu acho que falta em Santarém é União. União dos jornalistas, porque isso não existe aqui. Cada um puxa a sardinha para o seu lado…

Se a Maria está no governo, eu sou amigo da Maria, agora é o Lira e eu sou contra o Lira então eu vou falar mal dele. Esse é o grande problema da imprensa local. Em Sorriso, por exemplo, localizado no Estado mais devastador que existe, por que você acha que não tem ambientalista, não tem ONG, Greenpeace por lá? Porque os caras não deixam entrar. E não é porque eles são a favor do desmatamento não. É porque eles querem o desenvolvimento da região. Eles sabem que através daquilo as pessoas terão melhor qualidade de vida. Lucas do Rio Verde é o nono PIB do Brasil. Agora me diga: Como uma cidade do interior do Mato Grosso consegue ter o nono PIB com um monte de capitais no Brasil? Por união de todos, inclusive da imprensa. Cada um luta por seu espaço, mas quando mexe com a cidade, a galera se une, de uma forma impressionante. É o caso de Manaus. Ninguém mexe com Manaus. Os caras brigam, se digladiam, mas quando é por um benefício de Manaus todos se unem.

Pura verdade. Eu que morei lá durante 11 anos posso confirmar isso. Até quem não é de Manaus, mas mora lá, briga pelo desenvolvimento da cidade. É linda a união de todos.

Pois é, aqui em Santarém não existe isso.

A grande prova foi Alter do Chão, ano passado, quando foi bombardeada com notícias negativas, infelizmente, estamos a mercê disso.

É triste isso. A imprensa tinha que da um impulso maior.

Eu já vi que você é do tipo que fala o que quer, não tá nem ai… hahahahha

Falo. Às vezes, até tento me controlar, mas não deixo de ser verdadeiro.

Antenor

Bate aquiiiiiiii

Hahahahahahahaa…

Quando você olha para traz o que você consegue ver, precisamente, no que se refere as cidades por onde você passou?

Um mundo de desenvolvimento. Uma vez eu tava na Cargill e recebi um material de Chapadão do Céu. Núbia, confesso que chorei vendo o quanto aquela cidade havia crescido. Eu fiquei muito feliz, feliz mesmo. Você sabe o que eu fazia em Chapadão do Céu, as sextas-feiras?

Não, me conta!

A minha missão era ir, acompanhado de vários produtores e um senhor que era o “dono do lugarejo” que depois virou município, para uma sala da escola, onde lá cada um tinha uma função. Eu era o encarregado do soro antiofídico. Hoje, existe o chamado plantio direto, mas naquela época não existia, e com a movimentação da terra aparecia muita cascavel… Eram muitas mesmo. O pessoal recolhia as cobras, colocavam em caixas e levava para a Cargill. Então, já viu né, tinhaaaa um monte de cobra lá, todas encaixotadas.

Você, então, entende bem de cobras, né?kkkkkkkkkkkkkkkkk

Hahahahahaha…

A cada vinte dias eu pegava todas as bichinhas e levava no Ministério da Agricultura, onde eu recebia uma autorização. Um caminhão levava para o Butantã, em São Paulo, que depois o órgão mandava soro. Consequentemente, eu fazia a entrega para o Posto de Saúde.

Eu sou tão grato por saber que cidades por onde passei, que não tinham capitais, mas tinham sede de trabalho, são hoje, grandes centros.

Núbia, você quer me deixar puto da cara é quando começo a escutar sobre o turismo de Santarém.

AFFFFFFFFFFFFFFFFFFF…

Como posso pensar num turismo num lugar que eu tenho que pagar 2 mil reais de passagem aérea somente para uma pessoa???? Como você pode falar em Turismo se você vai em Pindobal e precisa desembolsar 200 reais para comer um peixe. Isso é triste! Então, nem fale em turismo para mim. Sou consciente da beleza deste local, abençoado por Deus. Alter do Chao é o lugar mais lindo do mundo, mas pô, precisa explorar quem vem de fora… quem mora aqui?

Agora, voltando o lance da Cargill. Muitos, na cidade, reclamam o fato da empresa ter se instalado numa área onde antes era uma das melhores praias de Santarém, a Vera Paz, você deve ter ouvido muito em relação a isso…Se sente culpado, de alguma forma, por ter trazido para cá uma empresa que trouxe desenvolvimento, mas que acabou com o lazer da população?

Não me acho culpado porque era funcionário de uma empresa que ganhou uma licitação pública. Vim fazer meu trabalho como qualquer funcionário de uma empresa designado para uma missão. Deveriam ter discutido se a CDP poderia ou não fazer uma licitação pública. Creio, também, que a praia existia por conveniência da CDP, pois, assim, não haveria invasões. Vide o outro lado da rua cheio de campos de futebol … se amanhã resolverem fazer armazéns, ou qualquer obra, eles podem, o terreno é deles … os campos são convenientes. Já em Miritituba, a CDP não teve esse cuidado e sua área, simplesmente, sumiu e virou um bairro com ônibus passando quase dentro do porto. Creio que ficar batendo nessa questão, de que era uma praia e virou porto é bater numa tecla com discussão infinita. Seria mesma coisa eu brigar porque meu tio e meu falecido pai pescavam no córrego do Anhangabau em São Paulo … e há muitos anos virou viaduto de acesso para a zona sul. Ou, então, eu reclamar dos campos de várzea, que eu jogava bola todo domingo, na minha juventude, entre a Ponte da Casa Verde e a Ponte Pequena e todos eles, sem exceção, sumiram, porque foi construída a Marginal Tiete …. Te digo, se não fosse a ex-empresa poderia ser outra, porque afinal foram outras 5 que participaram da licitação.

Há informações que a Cargill, havia oferecido algumas compensações para se instalar no município, isso foi cumprido, ou você tem conhecimento que ainda será cumprido?

Ela ganhou uma licitação pública. Qual a necessidade de fazer compensações? Folclore que, certamente, não partiu dela. Afinal, na época, com 350 filiais espalhadas pelo País, com 140 anos mundo (naquela época), não iria se sujar por causa de um porto fosse qual fosse o dinheiro investido… A melhor prova é hoje. A Cargill ficou parada atuando de maneira freada por 12 anos, por questões judiciais, mas a fila andou… As demais empresas que esperavam uma solução para Cargill e viram no bojo foram encontrar, em Miritituba, sua válvula de escape e lá já começou a funcionar da mesma forma que Vila do Conde, em Belém e, em breve, no Porto, em Santana, em Macapá … Santarém, que era a primeira opção, hoje passou a ser a quarta. Quando entenderem que não se trata da empresa A, B ou C, mas do País, as coisas podem fluir melhor… O crescimento da agricultura é anual. O Ministério da Agricultura informa, todos os anos, os recordes quebrados. A exportação é um trunfo para o País (e olha, se não fosse a agricultura) e mais mercadoria há necessidade de mais saídas … A coisa pode demorar, mas sempre irão encontrar. Pena que, a coisa seja uma visão muito pequena.

Antenor

A história dos 500 empregos, era lenda? Me conte um pouquinho sobre isso? Porque houve essa promessa na época…

Tenho certeza que não partiu da Cargill nenhuma promessa de empregos. Nem fábrica concede 500 empregos com 3 turnos. Em porto são sempre, no máximo 40/60 funcionários diretos e, consciente disso, pelos trabalhos já executados nos demais portos e com esse número de funcionários não seria ela que iria fazer qualquer tipo de alarde desse porte.

Politicamente alguém pode ter dado esse tipo de promessa e, talvez, e digo talvez (não defendo ninguém) tenha sido mal interpretado, porque se você pensar na cadeia em sí que move uma produção, seja do que for na agricultura, o numero de pessoas é muito grande.

Senão vejamos:

Para plantar vc precisa de sementes. A ex-empresa na é vendedora de sementes. Portanto abre-se uma nova cadeia: sementes. Para plantar você precisa de adubo. A ex- empresa não vende adubo. Uma nova cadeia: adubo. Para plantar você precisa de insumos químicos. A ex-empresa não vende produtos químicos.

Portanto abre-se nova frente de trabalho e gente : insumos químicos. Para você plantar você precisa de máquinas, trator, plantadeira, colhedeira. A ex-empresa não vende esses produtos . Nova frente: Máquinas agrícolas. Para você plantar, você precisa do produtor . E ele traz a família e gasta na cidade (supermercado, roupas, escola). Nova frente de pessoas: Produtores … e em seguida vem as consequências: mecânico para consertar máquinas, pneus, combustível e a roda gira … Se você contar vai chegar a um numero grande de pessoas. Isso pode ter sido vendido e entendido que a empresa daria todos esses empregos.

Você, além de bonita é inteligente.

Muito obrigada… rs rs

Como você acha que todas essas cidades do Mato Grosso/Goiás/Mato Grosso do Sul/Sul da Bahia cresceram ? Foi por causa de uma ou duas empresas ou dez empresas compradoras de grãos ? Ledo engano … Toda essa roda que gira em torno de uma produção agrícola que vai trazendo pessoas e pessoas… E as indústrias vão atrás, a medida que a produção permite.

E o que você acha que Santarém precisa fazer para sair da “mesmice”?

Criar meios de gerar renda e empregos. Qualquer um vive de esmolas, sejam estaduais ou federais. Precisa parar de pensar que agronegócio se limita a soja e milho. Não se esqueça que essa roda fez com que Santarém chegasse a produzir 2,2 milhões de sacos de arroz e 5 beneficiadoras de arroz se instalaram aqui. Ou você esqueceu do Arroz Tio Paulo da família do saudoso e querido amigo Paulo Correa . Ou você esqueceu que arroz santareno estava na gôndola do supermercado a menos de R$ 0,5 (o quilo)?

Tava era? Eu acho que eu já morava fora daqui nessa época…

Esse processo acabou. Esvaziaram com a produção praticamente expulsando os produtores e o que poderia ser iniciado um ciclo de exportação, nasceu e morreu em 2 anos .

Amo de paixão essa terra. Devo voltar. Mas, olhando 2002 (quando aqui cheguei) e 2016 … tem diferenças ???? Não poderíamos ter aproveitado mais? Aprendido mais?

Aqui não defendo empresa, ou vice versa … apenas torna-se difícil para alguém que atuou em pelo menos 11 regiões diferentes, que eram pequenos sub-distritos ou nem isso e depois de 20 anos se transformaram em municípios com toda infraestrutura e, aqui, não tenha dado certo por vários motivos, entre eles, as questões ambientais num Estado que mais leis de proteção ambiental existe.

Como disse, no início, há muitas e muitas histórias que dariam um livro. Nem mesmo nessa questão ambiental souberam tirar proveitos … mas isso é uma outra história …porque sem ofender por favor .. o pensamento é muito pequeno …

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh… o tempo já encerrou e você tem que ir embora… Avião não espera, né?

Quero te agradecer pela disponibilidade, pelo seu carisma, por ter me tratado tão bem e por toda essa sua simpatia. Super curti conhecer um pouquinho da tua história e quero dizer seja sempre muito bem-vindo a esta terra que é nossa. Muito obrigada!

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6 respostas a “Santarém não te recebe pelo teu CPF. Recebe pelo teu RG”

  • Daniel Ribeiro Carneiro disse:

    Uma bela entrevista de uma grande pessoa, um grande amigo, concordo com ele em vários quesitos, e o escutaria sem pestanejar afinal tal experiência de vida é, sem dúvida, know-how para qualquer ação e orientação! Abraços Antenor!

  • Jota Ninos disse:

    Giovannini não citou, mas teve teve uma importante participação na criação de um grupo de cidadãos de Santarém que tentou criar um fórum de debates permanente, em 2009, intitulado “Os pai-d’éguas”, que reunia jornalistas e profissionais liberais em sua casa nos finais de semana, para debater os problemas da cidade.

    O grupo tinha pessoas com tradição ideológica de direita, esquerda e de centro, alguns inclusive com vínculos partidários e que por causa dessa heterogeneidade ideológica acabou se esfacelando após produzir uma primeira grande ação concreta: um pedido de ação pública do MP contra a Cosanpa, que ainda hoje deve estar engavetada.

    Foi nesses encontros, há sete anos, sempre regados a comida de primeira qualidade, que conheci o Giovannini e passei a admirá-lo. Trocamos muitas ideias depois disso, de forma virtual.

    Gente muito boa e sincera, como se confirma em sua entrevista!

  • Héllen Cristhina Lobato Jardim Rêgo disse:

    Entrevista excelente!! Li como se fosse um livro, querendo saber cada resposta!!!!
    Consciência. Essa deve ser a busca de todos. Só quando tomamos consciência, saímos de nossa zona de conforto. Após isso, é arregaçar as mangas e executar!!!
    Ideias e Atitudes!!!
    SEMPRE HÁ TEMPO PARA MUDAR E SANTARÉM PRECISA MUDAR.
    Antenor, um abraço amigo.

  • FRANCISCO DAS CHAGA SILVA disse:

    PARABÉNS NÚBIA E ANTENOR,

    BELÍSSIMA ENTREVISTA. SHOW DE BOLA MESMO…
    LI COM SE ESTIVESSE OUVINDO ( AO VIVO ) O MESTRE ANTOR E O SEU AINDA SOTAQUE DE PAULSITANO-MOCORONGO.

    UM ABRAÇO E BOA SORTE MESTRE.

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