Edital do Çairé: a banana está comendo o macaco. Por Paulo Cidmil
Festa do Çairé, tradição centenária em Alter do Chão

Acabo de ler nota de repúdio, divulgada pelos comunitários de Alter do Chão, contra iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura, que lançou edital com objetivo de transferir a gestão da Festa do Çairé para empresa de produção de eventos.

Paulo Cidmil

A nota denúncia informa que: “o edital 022/2019-semgof/semc que sob o pretexto de “promover a integração, a inclusão social, a geração de emprego e renda e a valorização do nosso Município pelo seu povo através da promoção de seus atrativos turísticos, sua cultura e peculiaridades” excluí o povo Borari de sua própria manifestação cultural”.

Subestimar a capacidade de realização de uma comunidade que ao longo dos anos vem sendo a própria existência do Çairé me parece uma decisão equivocada. E essa é uma questão recorrente em quase todas as edições do Çairé.

 

Talvez seja o momento dos comunitários enfrentarem a realidade, darem um passo atrás, para depois caminhar com as rédeas do evento nas mãos.

Cancelar o Festival dos Botos e fazer uma festividade de menores proporções com os artistas da vila e de Santarém, nos moldes de um festival folclórico, pode ser a melhor solução.

Lançar edital para produção do Çairé a um mês do evento me parece tão antiprofissional quanto qualquer argumento para justificar a possível incapacidade do povo de Alter do Chão para gerir sozinho, ou em coparticipação, a sua festa.

Eventos dessa magnitude deveriam ter edital lançado com pelos menos seis meses de antecedência.

 

Rede hoteleira, comerciantes e barraqueiros não precisam ter maiores preocupações. Esse período do ano a vila de Alter do Chão jamais fica vazia. Os turistas a essa altura já estão com seus pacotes nas mãos e a ausência do festival dos botos em parte pode ser suprida por apresentações folclóricas menos dispendiosas.

Seja qual for a circunstância em que o evento venha a se realizar, o Município e o Estado são obrigados a disponibilizar policiamento, bombeiros, ambulâncias e fiscalização de trânsito.

Se a questão é: se fazer respeitar como signatários e protagonistas do evento, não resta outra alternativa. O Çairé pode acontecer a partir da mobilização comunitária e de um mutirão cultural. Será uma experiência nova que só irá fortalecer o evento e avivar sua tradição.

Todo o dinheiro da prefeitura não será capaz de inventar um Çairé. Podem realizar um festival de Axé, um festival de samba, um festival de música paraense com artistas de Belém, mas isso nunca será Çairé.

 

Há tempos observo essa postura autossuficiente e de certa forma arrogante dos gestores da cultura no município. Quase sempre subestimando a capacidade de  gestão dos comunitários de Alter do Chão.

São muitas as alegações de incapacidade. A principal seria a de gestão financeira. Mas essa não é uma questão exclusiva dos coordenadores do Çairé nativos de Alter do Chão.

Ao longo dos anos vem existindo problemas com gestão de recursos públicos em diversas áreas da administração pública municipal, inclusive na Cultura. Desconheço edital para transferir a gestão desses setores para empresas especializadas.

Ou seria o caso de abrir licitação para a gestão da sinfônica e até mesmo do setor de licitações do município, que qualificou e contemplou empresa de transporte para atender toda a região metropolitana, sendo que a empresa sequer possui coletivos ou lotação.  

Por que não pensar  em aprimorar os mecanismos de gestão e controle, promover capacitação ao invés de excluir os comunitários da gestão do evento.

 

Estão promovendo uma festa de aniversário, assoprando a velinha do bolo, distribuindo as fatias, fazendo discursos de agradecimento, com ordem expressa de barrar o aniversariante na entrada da festa.

Não sei se é a banana que esta comendo o macaco ou se é o poste mijando no cachorro.


— * Paulo Cidmil, santareno, é diretor de produção artística e ativista cultural.

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3 Comentários em: Edital do Çairé: a banana está comendo o macaco. Por Paulo Cidmil

  • Excelente Paulo Cidmil,

    Não é uma crítica a esse governo em especial e ao secretário de cultura ou ao prefeito. É a essa prática, essa visão colonizadora e liberal que não é capaz de inovar, de apostar em outros modelos. Que faz sempre mais do mesmo.

    Em quanto isso vai se testando, sem sucesso, privatizar UPAs e Hospital Municipal e agora a cultura.

    Saudações,

    Paulo Lima

  • Parabéns

  • Ótimo texto, como nos coloca Franz Fanon “a cultura não é estática, não é de pertencimento desse ou daquele sujeito, é dinâmica, se movimenta e evolue, com o exercício do criar, no processo da liberdade e alegria do povo”, cabe ao estado garantir isso e nunca se apropriar.

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