Aymeê e a crítica aos movimentos evangélicos com a música Evangelho de Fariseus. Por Joniel Vieira

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Aymeê e a crítica aos movimentos evangélicos com a música Evangelho de Fariseus. Por Joniel Vieira
A cantora Aymeê ao interpretar a música Evangelho de Fariseus. Foto: Reprodução/Vídeo

A música de Aymeê, “Evangelho de Fariseus”, viralizou nas redes sociais! Lideranças religiosas já se manifestaram por a letra destacar uma suposta omissão dos movimentos evangélicos as demandas sociais da Amazônia, e numa referência direta ao arquipélago do Marajó.

É indiscutível ser a arte uma forma de leitura crítica de questões sociais, pois ela denuncia descasos, dar evidência a situações invisibilizadas de nosso convívio. Aymeê atingiu sua finalidade crítica ao chamar para o debate a responsabilidade dos movimentos religiosos evangélicos com as demandas sociais, enfatizando a Amazônia.

Entretanto, o que dou destaque aqui são as falas de lideranças religiosas com posicionamentos diversos que resumo na questão: É legitima a crítica aos movimentos evangélicos por questões estruturais em que é o Estado que tem a responsabilidade direta?

A questão parte do principio que o ente responsável pela criação e implementação das politicas públicas é o Estado em sua organização: municipal, estadual e federal, no âmbito dos três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário. Quanto às instituições religiosas seriam incluídas numa cobrança de solidariedade as demandas sociais e não de responsabilidade direta.

É fato que o Estado é o ente centralizador da política e da legalidade, ou seja, é o núcleo estratégico do exercício do poder, sua função é garantir o bem viver. É o Estado que tem obrigação direta na implementação de políticas públicas objetivando reduzir as desigualdades sociais existentes, assim como, construí uma sociedade justa, igualitária, solidária e sem quaisquer discriminações (Constituição de 1988, art. 3º).

Merece também ser destacado que o ente estatal é formado por PESSOAS. São pessoas que governam. São pessoas que decidem os direcionamentos que seguirá a máquina estatal. São pessoas que decidem orçamento público e os destinos de seus investimentos. Não se pode perder de vista que as políticas públicas implementadas pelo Estado são criadas e efetivadas por pessoas e não por anjos.

Exemplificando se tem a clássica expressão de James Madison: “Se os homens fossem anjos, não seria necessário governo algum. Se os homens fossem governados por anjos, o governo não precisaria de controles externos nem internos”, (Madison, James. O Federalista, artigo 51).

Chamo atenção para essas questões para jogar luz na questão de incluir na crítica omissões de pautas sociais por Igrejas (caso aqui as evangélicas), seja em suas atividades de rotinas, seja ao assumirem a postura ativa de participação das decisões estatais ao elegerem representantes que defendem uma pauta alinhada aos discursos das lideranças religiosas.

Deve ficar claro que o movimento evangélico no Brasil aderiu à participação ativa na política partidária com a redemocratização, pois antes a política era vista como pauta “mundana”, sem explícita manifestação de interesse das lideranças.

As origens do movimento evangélico no Brasil datam-se a partir de 1910/1911 com a Igreja Evangélica Assembleia de Deus e Congregação Cristã no Brasil, que diferente do catolicismo presente e as Igrejas Reformistas que aqui chegaram no século XIX pela imigração europeia, os pentecostais, como ficaram conhecidos, adotaram uma doutrina enfatizando o “falar em línguas” e o “desapego das coisas materiais/mundanas”, visto que, a maior dádiva desse novo ensinamento ao fiel era sua “santificação pelo desapego as coisas materiais” para estar preparado para o “arrebatamento da igreja”, (Paul Freston: “Nem Anjos Nem Demônios: Interpretações Sociológicas do Pentecostalismo”).

Nas décadas de 1950/1960 passou a ser introduzido um discurso evangélico pautado na “cura” e “operações de milagres”. As instituições que enfatizaram essa doutrina foram: a Igreja do Evangelho Quadrangular, Deus é Amor e Igreja Evangélica Pentecostal o Brasil para Cristo.

Já nas décadas de 1980/1990 a narrativa evangélica em destaque foi a “libertação” em que o confronto direto com as religiões de matrizes africanas levou a um discurso evangélico de “endemonização” aos orixás, caboclos (Paul Freston: “Nem Anjos Nem Demônios: Interpretações Sociológicas do Pentecostalismo”).

Francisco Cartaxo Rolim (livro “Pentecostais no Brasil”) faz um destaque que o movimento evangélico conviveu com a ditadura militar brasileira sem “ameaças” do sistema, visto que, não há relatos de lideranças envolvidas em atos contra a ditadura.

Francisco Cartaxo Rolim diz que essa convivência deu-se ao fato das lideranças evangélicas não terem envolvimento com a politica do país, pois o foco dado nos sermões e ensinamento visavam, unicamente, o desapego das questões materiais e a política era vista como pertencente a esse “mundanismo” que deveria ser rejeitado. Mesmo havendo a eleição de um deputado, membro da Igreja Brasil para Cristo, isso não foi regra seguida pelo movimento, mas ação isolada de um seguimento institucional.

Pelo exposto se ratifica, a participação direta dos movimentos evangélicos na política partidária se deu no período da redemocratização! A eleição de deputados estaduais, federais, senadores com discursos alinhados aos das lideranças religiosas evidenciou a presença evangélica na política! No Entanto, foi com o mandato do Bolsonaro na Presidente da República que ficou explícito o interesse direto das lideranças evangélicas em querer o comando das decisões do Estado.

Não reprovo os movimentos que compõem a diversidade social participar das decisões políticas, no entanto, essa participação deve ter como propósito sua contribuição para o Projeto de Sociedade que passou a ser construído com o pacto posto na Constituição de 1988: Artigo. 3º – Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Pautas unicamente moral ou fundamentalistas não podem ser utilizadas para direcionar as decisões do Estado.

Entendo que o incomodo de algumas lideranças religiosas as críticas levantadas nas redes sociais, com referencia a letra da música da Aymeê foi pelo fato da cobrança feita as Igrejas Evangélicas pela ausência de uma contribuição direta em questões sociais que são pautas do bem comum, como a preservação ambiental, combate a pobreza, exploração sexual e do trabalho infantil, etc.

Com o projeto de sociedade pensado a partir de 1988, a obrigação em sua construção passou a ser de todos. Ao Estado a responsabilidade direta na criação e execução de politicas públicas e no fomento para que esse projeto seja de consciência de todos os cidadãos.

É aqui que deve ser pensada a inclusão dos movimentos evangélicos com responsabilidades nas pautas sociais, pois, com a redemocratização passaram a participar diretamente nas decisões do Estado (com a eleição de representantes) e de forma solidária (defesa dos interesses difusos e coletivos) tem o dever de incluir em sua agenda as demandas sociais.

O “giro” no discurso evangélico, com ingresso ativamente na politica partidária, exigiu-se a transparência e concatenação entre o discurso religioso (fundado na caridade, amor ao próximo…) com o projeto de sociedade em curso no Brasil.

Não se estar focando um movimento que tem como pauta, unicamente, a Espiritualidade (que mesmo assim estaria vinculado a uma cobrança de responsabilidade social pelo elo da solidariedade), mas de um movimento, que de forma inconteste, tem participação ativamente na politica partidária ao eleger representantes. A crítica é ao fato de pautas morais e fundamentalistas, que se alinham somente ao discurso religioso, dominarem o ambiente político do movimento, e em contrapartida demandas sociais são invisibilizadas nos discursos.

O destaque feito é que pela solidariedade todas as intuições, sejam religiosas ou não, tem o dever em promover ações objetivando atender demandas sociais, pois somente discursos de indignação com a pobreza, injustiças e demais mazelas se resume em hipocrisia, ou parafraseando Aymeê, é postura de fariseu!

A exigência de coerência entre o que se fala e se faz fica maior ainda, quando se participa diretamente das decisões de Estado, e quando o exercício do cargo ocupado exige compromisso em atacar as mazelas sociais sempre priorizando um olhar aqueles que mais precisam.

Nesse caso a retórica, pautada na defesa de uma moral ou fundamentalismo, quando levantado como uma bandeira política, se reflete como mera distração da real função do Estado e em nada contribui para um projeto de sociedade em que as questões sociais, que devem ser enfrentadas, são ofuscadas e tornadas “inexistentes”.

Só são evidenciadas pelas críticas, como a arte aqui destacada, que projetou luz ao compromisso de todos na construção de uma sociedade em que os interesses coletivos se sobrepõem ao individualismo reproduzido pelas práticas egoístas pessoais.

Joniel Viera de Abreu

Advogado e teólogo, faz doutorado em Direito pelo PPGD/Unesa-RJ. Mestre pela UFPA. Especialista em Direito pela UFPA. Especialista em Ciências Sociais pela UFPA. Pesquisador e professor universitário. E-mail:

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