por Giullia Malcher (*)
Ela é uma das principais personalidades da história da arte no Pará. A artesã, modista e estilista Raimunda Rodrigues Frazão, a Dona Dica Frazão, completa hoje (29) exatos 90 anos.
Pioneira na criação e confecção de artesanato com material retirado da floresta amazônica, há 61 anos Dica Frazão dispensou panos e tecidos, e passou a trabalhar somente com fibras naturais.
Natural de Capanema, ela vive em Santarém desde os 22 anos.
Para comemorar essas 9 décadas de vida, o blog foi ao ateliê da artista, à rua Floriano Peixoto 281, centro da cidade, e lhe fez algumas perguntas. Eis.
Quais são os seus trabalhos mais importantes? Tem algum favorito?
Fiz trabalhos para a Rainha Fabíola, da Bélgica, ao Papa João Paulo II, a Juscelino Kubitschek. Foram centenas de trabalhos. Todos são importantes, não tenho favoritos, pois todos são preferidos, nenhum é melhor do que o outro.
De onde a senhora tira tanta energia para continuar trabalhando?
Toda minha energia vem da minha fé e confiança em Deus. É ele que me dá forças para continuar fazendo minha arte.
Não pensa em aposentar?
Nunca vou me aposentar. Só paro se Deus quiser me levar.
Já enxerga alguém que possa dar continuidade neste seu trabalho?
O sucessor da minha arte? Ninguém terá as mesmas idéias e criatividade que eu tenho. Deus me deu toda a criatividade e dom que tenho. Sou autodidata, estudei até a 4º série, ninguém no mundo trabalha com fibras naturais, então não terá sucessão o meu trabalho, a minha arte.
Qual é o seu segredo para 90 anos de vida?
Nunca fui vaidosa, nunca fiz dieta, a explicação para isso é Deus, a providência divina. Como de tudo. Antes de dormir, sempre tomo um copo de açaí, adoro açaí. Recebo muitas pessoas no meu museu, já me deram 70, 75 anos, ninguém me dá 90 anos. Não sou hipertensa, não tenho problema no coração, sou iluminada por Deus.
Qual é a fonte inspiração para sua arte?
Os meus olhos ao ver a natureza transformam-na em arte. A natureza é minha inspiração para tudo o que faço, não existe nada tão belo como ela. Existe inspiração melhor? Eu acho que não.
Qual seu outro talento e que poucas pessoas conhecem?
Amo cozinhar. Faço bolos, doces, enfim a culinária em geral é um outro dom que Deus me deu.
Como é a sua rotina?
Bom, minha luta começa às 6h. Crio, produzo, faço arte o dia todo. Recebo visitas, conheço pessoas novas, pois sou considerada como “memória viva”. Sou a única que tem um museu e estou viva. O museu recebe diariamente turistas que acham muito interessante saber que estou viva. A minha morada também é meu museu, reconhecido por todos. Sou católica, mas não tenho mais condições de ir à igreja, mas Demetrinho [Metri Nicolau] todos os domingos vem me dá a comunhão. O meu dia acaba depois da novela das 20h. E antes de dormir não posso deixar de tomar meu copo de açaí.
Que conselho a senhora dá para quem pretende trilhar no mundo do artesanato?
Eu digo: nunca seja um copiador da arte. Tem que procurar desenvolver a arte criativa, cada um tem a arte no seu interior. Tem que ser criativo e original, e é claro amar arte.
Qual foi a maior decepção e alegria de sua vida?
A tristeza, a decepção tem que se deixar de lado. Não vale a pena se torturar com algo que não faz bem. Tem que se superar, então não tenho decepções. É claro, já tive, mas superei. Já alegrias, tive muitas, mas quando recebo cada troféu pela minha arte fico muito feliz. Tenho vários deles, e sempre quando ganho a primeira coisa que digo é: esse troféu pertence aos filhos dessa terra, ao estado do Pará, ao meu Brasil.
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(*) É estagiária do blog
Edição Jeso Carneiro
