Jeso Carneiro

O vazio da cultura

por Joaquim Onésimo F. Barbosa (*)

Alfredo Bosi, um dos maiores críticos da literatura brasileira, disse, certa vez, que há um grande vazio na produção cultural brasileira. Segundo ele, depois dos movimentos Bossa Nossa e Tropicalismo, quase ou nada se produziu no Brasil. O País parece ter se perdido pelo caminho e deixou de se encontrar.

O mesmo podemos dizer sobre a produção cultural em Santarém. Dos festivais de música que aconteciam nada mais. Nada. A geração do século XXI talvez nem saiba que existiram festivais de música em Santarém.

Leia também dele:
Você sabe com quem está falando?.

A cultura (?) em Santarém parece relegada ao híbrido Sairé/Çairé e à apagada Feira da Cultura Popular, que acontece na Praça Barão de Santarém. Nada mais que isso. Não que faltem artistas.

Há. E há tantos por aí: na música, na literatura, na pintura, na arquitetura, na escultura, no artesanato em geral. Estão por aí escondidos, aguardando uma boa oportunidade para mostrar o que de bom podem apresentar à Pérola do Tapajós e ao Brasil.

Talvez faltem projetos de incentivo à cultura. Projetos que façam renascer os Festivais, como os dos anos 70, 80, do século passado.

Assisti a uma entrevista do advogado Luís Alberto, o Pixica, aqui no Blog, na qual ele fala sobre a esperança de ver, no trabalho do secretário de cultura, Nato Aguiar, projetos para a cultura santarena.

De acordo com o advogado, que já foi coordenador de cultura, na era Lira Maia, Nato tem um diferencial que ele, Pixica, não teve: agora há uma Secretaria de Cultura, na época de Luís Alberto, havia uma Coordenadoria, o que limitava incentivos financeiros para a cultura. Hoje é diferente. E que seja diferente também no fazer.

Que as Universidades – Santarém é um centro universitário –, saiam do marasmo e também apresentem projetos para a cultura. Certamente, pesquisadores, pessoas interessadas no assunto, não faltam. Posso citar uma delas, a simpaticíssima profa. Dra. Terezinha Amorim. Ela tem trabalhos na área da cultura, inclusive revistas editadas sobre o artesanato santareno.

Santarém tem uma importância ainda desconhecida por muitos, a começar por sua localização geográfica – fica entre as duas principais capitais do Norte: Belém e Manaus –, tem uma vocação turística grandiosa, uma história cultural ainda a ser revelada, além de belezas naturais: praias, rios, igarapés, florestas, cultiva manifestações folclóricas mata adentro.

Se o poder público – e mesmo o privado – se dispusessem investir no potencial da cidade, certamente ela não deixaria em nada a desejar em relação aos grandes centros urbanos, quem sabe sobressaísse até mesmo a Belém e Manaus.

Mas sofremos da síndrome da inferioridade e do atraso do interior. Somos uma cidade do interior e temos que viver à custa das migalhas que Belém se disponha a mandar. E, assim, perdemos no que muito poderíamos ganhar.

O que produzimos por aqui, ou melhor, o que havia por aqui, acabou se hibridizando, tornando outras cores, outros matizes. Do festival Borari ao Sairé/Çairé. Copiamos o que os outros fazem. É só olhar como o Festival de Botos tem sido levado pelos que o coordenam.

O Sairé/Çairé nada mais é do que uma cópia malfeita dos bois de Parintins. Nem Juruti, pela sua proximidade, ousou copiar. Falta originalidade, falta criatividade, para nos desprendermos das cópias e mostrar ao mundo do que somos capazes.

Mas parece preferirmos a cópia. Dá menos trabalho copiar. Talvez o argumento mais crédulo seja o de que a população santarena não prestigia os eventos culturais. Certamente, se não prestigia é por falta de divulgação, ou porque inexistem.

Raros são os eventos que chamem a atenção da população. Temos uma Casa de Cultura, um Teatro Vitória, o Espaço Pérola do Tapajós, no Parque da Cidade. Locais para realização de eventos não faltam. Se é por custos, então que se busquem parceiros. Há empresas que visam atrelar o seu nome a eventos culturais e sociais. Elas ganham com isso.

O que não podemos é achar que só eventos de grande porte, que dão dinheiro, é que podem ser considerados merecedores de incentivos. É o caso do Sairé/Çairé, que teve que se hibridizar, agregando outros elementos, sair das apresentações de origem, para ter visibilidade.

Que resta do Sairé/Çairé de origem hoje? Quase nada. A não ser aquela cerimônia de abertura, que, sabe lá por que, é relegada à população e o encerramento também. De resto, é merchandising puro. Tanto é que se importam atrações para poder arrebanhar patrocinadores. O local fica em outro plano.

Não que esse processo de mesclagem por que passou o Sairé/Çairé seja negativo, num mundo globalizado, onde as culturas se interconectam é impossível as expressões culturais não serem afetadas por outras.

Néstor Canclini, em seu livro Culturas híbridas, vê o processo de hibridização, principalmente na América Latina, como o resultado do contato com o outro e decorrente dos deslocamentos de bens simbólicos. A cultura não é mais vista como algo genuíno, mas sim, e muitas vezes, como algo representado, constituindo-se no que o autor chama de simulado cultural.

De acordo com Canclini, é necessário preocupar-se menos com o que se extingue do que com o que se transforma. (…) A modernização diminui o papel do culto e do popular tradicionais no conjunto do mercado simbólico, mas não os reprime. Redimensiona a arte e o folclore, o saber acadêmico e a cultura industrializada, sob condições relativamente semelhantes. O trabalho do artista e o do artesão se aproximam quando cada um vivencia que a ordem simbólica específica em que se nutria é redefinida pela lógica do mercado.

Hutcheon (1991) chama atenção para o fato de que as culturas pós-modernas, essencialmente híbridas, possibilitariam a contestação do discurso dominante na construção de novos discursos, descentralizados, fundamentados no contexto multicultural.

Mas também aponta que essa reorganização cultural é fundamentada e possibilitada pela uniformização do consumo, ocasionando ganhos e fortalecendo a política capitalista e os grandes conglomerados empresariais, o que resulta, segundo ela, numa contradição.

Se o processo de mercadorização do Sairé/Çairé foi inevitável, então por que não buscar fortalecer, mesmo que com menos intensidade, as manifestações culturais que existem e acontecem no município? Certamente, há uma infinidade de manifestações que poderiam ser trazidos para o conhecimento da população. Quantos nas comunidades do interior estão, com sua beleza e originalidade, encantando os moradores locais?

Se não há interesse do poder público estadual, que haja do poder municipal. No Ministério da Cultura, há dinheiro para o incentivo a bons projetos sobre a cultura. Mas há que se fazer projeto, não apenas arcabouço de intenções.

A Secretaria de Cultura não está aí apenas para o incentivo ao carnaval ou ao Sairé/Çairé, ou a outros movimentos que rendem votos. Seu papel vai além disso, o de fomentar e incrementar investimentos em todos os aspectos que visem ao desenvolvimento cultural e social. Se não lhe cabe isso, não há sentido de haver uma secretaria com tal nome.

Que tal ressuscitar os Festivais de Música? Que tal investir nas manifestações culturais do município? Que tal investir no Turismo Cultural? A população ganhará com isso. Santarém ganhará com isso. Todos sairão ganhando. É hora de fechar esse espaço vazio que se deixou no plano cultural em Santarém.

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –

* Santareno, é professor e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Escreve regularmente neste blog.

Sair da versão mobile