Sonetos que não são

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

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De Hilda Hilst, poeta brasileira nascida em São Paulo (Jaú).

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Um comentário em: Poesia

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  • Isadora Tapajós disse:

    “Objeto de amor, atenta e bela.
    Aflição de não ser a grande ilha
    Que te retém e não te desespera.
    (A noite como fera se avizinha.)”

    Meu Deus ! Catapult!
    Belos Versos em teia… desencadeia desejos em cadeia…dilacerando corpo e alma. ..incendeia…. lindíssima!