Jeso Carneiro

A Saúde não tem caixa preta, afirma médico

Pensata do médico e ex-secretário municipal de Planejamento em Santarém Everaldo Martins Filho, a propósito do post Caixa preta na Saúde:

A saúde é um voo que não tem caixa preta.

A falta de estrutura no setor público e no setor privado, em qualquer país ou cidade do mundo, é determinada pelo custo de construção, instalação, implantação e operação/manutenção de hospitais, equipamentos, serviços e estratégias. Não sobra estrutura nem quando e onde tudo da saúde pública é pago por particulares ou custeado pelo governo.

A falta de leitos não é generalizada. Infelizmente, alcança mais as áreas de cirurgia e terapia intensiva. E proporcionalmente, a inexistência é muito menor do que a oferta atual, principalmente em clínicas mais gerais.

Até no Canadá, Inglaterra, França e Cuba, onde o direito à saúde assegura o sistema mais como patrimônio coletivo, e nos Estados Unidos e Alemanha, onde a saúde é mais da economia de mercado, mesmo lá há falta de leitos para cirurgias eletivas, que não são de urgência, por exemplo. Como hérnia e retirada de placas e parafusos ortopédicos, por exemplo.

A demora no atendimento é uma realidade clara que se deve a muitas pessoas que necessitam de atenção médica e de saúde e aos poucos profissionais para assisti-las. Por que são poucos, os trabalhadores sanitários?

Pela difícil, demorada e cara formação e pela falta de formação, ao mesmo tempo. Pela complexidade, inovação e indispensável comercialização da tecnologia, com o único propósito de sustentar preços e lucros.

Pelo exagero do direito, à direita (quando a lei é escrava da classe dominante) e pela impossível universalidade do direito, à esquerda (quando a utopia é impossível). Porque cultura, compreensão, educação e ensino/aprendizagem são distâncias e fronteiras por desvendar, bem perto, bem dentro aqui.

Por outro lado, por que são muitos os usuários, clientes, consumidores, os necessitados? Porque trabalham, se alimentam, se deslocam e se comportam (seu estilo de vida), para adoecer. Porque não querem saber de refletir e pensar, mas apenas de ganhar e comprar. Porque morrem e se matam . . . para viver.

Aí procuram química e comprimidos para uma cura inalcançável, um falso anoitecer, porque nem chegaram a adoecer. Apenas não observaram que a experiência do sofrimento é uma procura, amiúde, ou um encontro inevitável, de vez em quando, durante a vida e a saúde.

Dormem à base de tranquilizantes e tóxicos e acordam na manhã da véspera. Com as mesmas dificuldades, com os problemas iguais ou piores. Há médicos para entorpecer e viciar. Há segurados e indigentes para depender e mergulhar. Há a obrigatoriedade das receitas e dos atestados.

Há os prefeitos das cidades menores e os barcos. Tem as farmácias para vender gato por lebre e as vacinas para prevenir e dar febre. Tem o mistério e a fé, o curioso para puxar; a beata para benzer, pois é. Tem o pastor para rezar e falhar e o rebanho na plateia do teatro, para enganar o diabo.

E a fila anda, aumenta. E o tempo espera, aguenta.

O voo da saúde não é cego. Não vê, quem não quer. A estratégia da atenção primária, integrada e integrando à rede secundária e terciária é a caixa branca, o tesouro da saúde. As unidades básicas, como centros de saúde geral, com equipes de saúde da família (médicos, enfermeiras, odontólogos, técnicos de enfermagem) e os agentes comunitários de saúde e de endemias é o voo que decolou com o programa “Mais Médicos”.

Ou que segue voando, considerando os vinte e cinco anos do SUS. A viagem é transoceânica, talvez interplanetária. Mas a nave é de brigadeiro e o céu é de Deus. Se sensibilidade e inteligência humanas, epidemiologia (ciência) e política, para ilustrar, perceberem, combinarem.

Sem corporativismo, sem caixa preta.

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