por Helvecio Santos (*)
Novamente também os dirigentes dos clubes nos enfiam goela abaixo jogadores chegados com a aura de craques e, ao final do certame, a realidade nos escancara o que teimamos em não ver no início.
A maioria, descartados dos centros futebolísticos mais badalados por não apresentarem um mínimo de qualidade técnica, só deixam ao clube um considerável passivo, indo cantar noutra freguesia. Só ficam as camisas, verdadeiros abadás com o escudo quase escondido.
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Mas, e onde estão os craques da Terrinha que eu chamo carinhosamente de “minhocas” e que antes abasteciam nossos clubes e eram exportados para todo o Brasil?
Bom, penso que a penúria que o nosso futebol vive deve-se fundamentalmente à extinção dos campos de “pelada”, dos campos dos colégios ou dos clubes, perdidos para a especulação imobiliária e também à depredação da orla praiana por diversos agentes, notadamente os barcos a motor.
Pelo que me lembro, tínhamos campos ao lado do Barão do Tapajós, ao lado do Frei Ambrósio, no Colégio Batista, dois no Colégio Dom Amando, na FAO, o da Aeronáutica, do Fluminense, do Veterano, do Morango, do Náutico e tantos outros.
Nas praias em frente à cidade dava gosto de ver. Nos finais de tarde, nos domingos pela manhã e até nas noites de lua cheia, as “peladas” comiam soltas. Os times eram divididos e, à chegada de novos “peladeiros”, iam entrando dois a dois, um para cada lado. Às vezes a “pelada” terminava com trinta de cada lado. Era uma festa!
Nelas havia uma combinação tácita para a inclusão dos craques nos clubes de futebol.
Com raríssimas exceções, da frente do Campo do Veterano, hoje Mercadão 2000, até em frente à Palha de Arroz, hoje Praça Tiradentes, os jogadores que despontavam tinham como destino o São Raimundo. Como exceção cito o Acari e o Chico Imbiriba, estrelas de primeira grandeza na constelação do LEÃO e no futebol santareno.
Da casa dos padres da Igreja do São Raimundo até em frente à Matriz, os jogadores se destinavam ao São Francisco, o que foi meu caso. Jogava “pelada” no pedaço entre a Travessa Padre João e Augusto Montenegro.
Os “peladeiros” em frente à pracinha da Adriano Pimentel iam para o América e os em frente à Prefeitura, hoje Museu João Fona, tomavam o rumo do Flamengo, enquanto os em frente à Vila Arigó iam para o Norte Clube.
Dos “peladeiros” dos campos interiores, os do Batista e do Dom Amando normalmente rumavam ao América e os do campo da Aeronáutica, ao Náutico “de gloriosas tradições”.
Nesses campos e em outros mais eram formados nossos craques pois craque não se forma em escolhinha. Escolhinha no máximo aprimora o talento.
Engana-se quem acha que levando o garoto, às vezes a contragosto, a um campo de futebol de grama sintética, roupa engomada e cheirando a amaciante, um dia terá um craque.
Quem duvidar é só perguntar ao Bosco, Jeremias, Cabecinha, Odilson, Odil, Darinta, Petróleo, Botica, Cristóvam Sena, Navarrinho, Pedrinho Araújo, Pedrinho Moreira, Inacinho, meu compadre Luis Gonçalves, Pedro Olaia, Ataualpa e tantos outros.
As escolhinhas nada mais são que um negócio como outro qualquer que visa, acima de tudo, o lucro. Nessas escolas o instrutor é chamado de professor e creio que daí vem a errada denominação, hoje já um tanto corrente, dos jogadores profissionais chamarem o treinador de “professor”.
Nas entrevistas é professor pra lá, professor pra cá, normalmente numa pura demonstração de puxasaquismo.
O brilhante Telê Santana, por saber que a nominação era bajulação, acertadamente não permitia e bania esse tratamento da relação treinador/jogador.
Tenho pedido ao nosso Prefeito que recupere as praias fronteiriças, tirando o atracadouro dos barcos, colocando postes de luz voltados para a praia e enchendo de traves e postes para fixação de redes de vôlei.
A cidade ficará mais bonita, mais saudável, se praticará menos halterocopismo e nossos clubes voltarão a ter o brilho que só os “minhocas” sabem dar.
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* Santareno, é advogado e economista. Escreve regularmente neste blog.