Jeso Carneiro

Carta aberta aos amigos

Emir: "Presença esquisita dos ausentes"

por Lila Bemerguy (*)

Nesta segunda-feira, 19, fará uma semana da morte de nosso pai, Emir. Nosso, porque falo em nome de meus irmãos e minha mãe. A filha Márcia já fez esses agradecimentos na igreja, mas fazemos questão de registrá-los aqui.

Durante esses dias, foram incontáveis os sentimentos de solidariedade que recebemos, principalmente nossa mãe, Berenice, do alto de seus 80 anos, sofre a perda do seu poeta, marido, amor, companheiro de 53 anos de vida. Agradecemos imensamente a todos.

Nos dias que antecederam a morte do poeta, algumas pessoas foram, como disse minha mãe, “anjos”, que ajudaram de toda forma. O médico e amigo Erik Jennings, que há muitos anos atendia meu pai com todo carinho, paciência, como faria um filho.

Por conta de sua vida ocupada, pediu que tivéssemos outra referência médica. Levamos papai ao Dr. Luis Rodolfo Carneiro Filho, meu amigo de infância, que o atendeu. Nos últimos dias, nunca, em nenhum momento, nos deixou de dar esperanças, sempre presente, preocupado e amigo. Ao vê-lo, papai dizia: “O filho do meu amigão”, referindo-se ao pai do Luisinho, Luis Rodolfo Carneiro.

No hospital da Unimed, tivemos a felicidade de encontrar nas horas mais difíceis, o Dr. Fábio Botelho, que nos aconselhou e abraçou como um amigo. Os enfermeiros Hiago e Bruno, que passaram noites insones cuidando de papai, com amor de filhos. Toda equipe de enfermagem do hospital da Unimed, na pessoa da enfermeira Erlinda, que dedicaram carinho e atenção até o fim.

Carlos Eduardo, o “Dadinho”, e o gerente do hospital Unimed, Paulo, que sabem o quanto nos ajudaram. Junior Santos e Inês Miléo, amigos que nos ajudaram com providências após a morte, tão difíceis de serem tomadas no calor da emoção pela partida. A prefeita Maria do Carmo e o prefeito eleito Alexandre Von, que nesse momento esqueceram partidos e política, e se uniram na dor da perda de alguém muito querido para ambos. O padre Sidney Canto, que deu os últimos sacramentos ao meu pai, confortando-o em sua fé.

A todos os amigos, parentes, colegas da imprensa, que nos abraçaram e confortaram. A dor é imensa, pois como disse meu irmão Lúcio, a cidade perde o poeta, o escritor. Nós perdemos o pai, que nas horas limites de nossas vidas, nos apertava a mão, muitas vezes sem nada dizer, passando-nos segurança e fortaleza. O mais difícil da morte, acredito, como disse meu pai numa poesia, é “a presença esquisita dos ausentes”.

Continuamos a ver suas coisas, suas roupas, objetos, escritos, fotografias, sem a presença dele. Somente a lembrança, saudade e a certeza de que a vida vale a pena. Numa de suas pastas com coleções de textos e fragmentos de leitura que ele mais gostava, disse: “Passei 40 anos coletando esses fragmentos. A eternidade vai dizer se perdi meu tempo ou se valeu a pena”. E como valeu, pai!

Nesta semana, olhando algumas coisas deixadas por nosso pai, como escritos, pastas, CDs, fitas-cassete, nos demos conta daquilo que já sabíamos, mas nunca tivemos a chance de conhecer mais profundamente, pois a maior parte disso ele guardava, como dizia, “para a posteridade”: é riquíssima e vasta sua obra! Cada linha, cada verso, é a maior e mais linda herança que esse pai deixa aos seus filhos e à cidade que tanto amou.

Segue em paz, poeta. Aqui ficaremos nós, cuidando dos teus versos e da tua Berenice.

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* Santarena, é jornalista e um das filhas do escritor Emir Bemerguy.

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