por Helvecio Santos
Na praia e no rio nos divertíamos e muitos, deste tiravam seu sustento. Mas tinha mais, muito mais. Quem quisesse uma praia sossegada, poderia ir, de barco, ao Joá, à Salvação, à Maria José ou mesmo se aventurar numa boa caminhada à Vera Paz ou Maracangalha.
O fácil acesso à longa faixa de areia branca em frente à cidade era garantia de lazer para todos e aos domingos virava passarela dos maiôs tidos como últimos lançamentos pela revista “O Cruzeiro”. Além desse visual, a rapaziada aproveitava o futebol que rolava solto de segunda a segunda e até nas noites de lua cheia.
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Sim! Acreditem! Futebol na frente da cidade nas noites de lua cheia.
Das praias saíram grandes craques e a sua falta é uma das razões de, de vez por outra, ouvir dos apaixonados por futebol que “tínhamos jogadores e não tínhamos campo. Hoje temos campo e não temos jogadores”.
O vento frequente fazia a alegria da “mulecada” que empinava papagaio de rabiola, surú, curica ou meia lua, pintando um céu multicolorido que mudava a cada trança ou guinada de bico.
Que pena! A gurizada do vídeo game não sabe o que é isso.
A praia em frente à cidade era nosso melhor cartão postal…hoje dá tristeza de ver!
Roubaram nossa praia e o que restou é um lugar fedorento, insalubre, inservível. Às nove da noite na tão decantada orla (?), o calor é tanto que no cimento dá para fritar um ovo. Some-se a isso o alto volume do som dos carros ali estacionados disputando com o motor dos barcos. Quer mais? O vai e vem de carregadores que atropelam os incautos que se acham no direito de tirar um pedacinho do local de seu trabalho de estiva.
Hoje não há mais praia e o cais em frente à cidade está todo loteado. Para ir à praia o povo precisa se pendurar em ônibus caindo aos pedaços.
Onde era a Vera Paz a Cargill nos “presenteou” com aquele horroroso gafanhoto de aço. O que ganhamos em troca? Ah! Sim! Em troca ganhamos uma mísera área, com míseros aparelhos de ginástica, para um mísero povo…e ainda têm a desfaçatez de colocar placa ostentando o nome da empresa doadora(?).
Um pouco mais à frente temos o Bosque Vera Paz que por suas esqueléticas árvores, muita erva daninha, lixo pra todo lado e uma grande manilha de esgoto como maior atração, chamo apropriadamente Bosta Vera Paz.
Vindo mais, nos fins de tarde, a despeito de haver um local com essa finalidade, em frente ao Mercadão 2000 se instala uma venda de peixe que emporcalha tudo. Continuando, na altura da praça Tiradentes temos um inferno dantesco que é “hours concours”. Que fedentina!
Depois vem uma longa extensão com terminais particulares, alguns até com o nome do dono acrescido do pomposo “terminal fluvial”, e bares flutuantes com banheiros para o distinto público.
Vindo mais, em frente ao Mercado Modelo uma turma de viciados se apropriou de um quiosque e das peças feitas pelo Apolinário e ali lavam roupas, pratos, tomam banho e fazem outras coisas “menos nobres”.
A seguir, entramos no espaço de comilança e “sujança”, de falsos hippies ocupando o calçadão e, para não ser cansativo, na areia em frente ao Museu João Fona, uma turma bebe cachaça e arma um fogaréu para assar peixe, jogando fumaça na cara dos que se aventuram por cima do cais.
Para finalizar o “passeio”, os escombros da praça Gigi Alho, que depois de inaugurada não resistiu à primeira enchente, virou valhacouto de vagabundos onde o “fumo” rola solto.
Este é o lamentável estado do nosso antigo cartão postal, que inspirou Wilmar Fonseca a compor a belíssima “Canção de Minha Saudade”, com música de Wilson Fonseca.
Para que não “baixem a lenha” no meu amigo Alexandre Wanghon, que está prefeito, registro que esses males existiam no governo da Dra. Maria do Carmo.
Santarém ficou sem uma área de lazer de fácil acesso. À míngua, a melhor opção é fazer halterocopismo o que, somado às péssimas condições de higiene da cidade, contribui generosamente para entupir os hospitais.
Da última vez que aí estive, até onde tive fôlego, contei 260 barcos em frente à cidade. Se cada barco abrigar 10 “moradores” – e muitos são moradores mesmo -, são 2.600 pessoas morando ao balanço das ondas. É um bairro flutuante despejando guimbas, sacos plásticos, restos de comida, fezes, enfim, todo tipo de sujeira no rio e, mais ainda, o esgoto despejado pela cidade.
Muitos dirão que os barcos geram recursos e movimentam a economia da cidade. Mas, a que custo para o povo? Quem fica cada vez mais rico com isso? Somente os donos de barcos e atacadistas. Certo? O povo só sofre os efeitos danosos. Então, onde está a preocupação dos governantes com a qualidade de vida da população ou a função de Santarém é ser um entreposto de negócios servindo a uns poucos?
Noutro dia assistindo a uma reportagem televisiva de um barco que afundou próximo a Alter do Chão, numa tomada que me parecia ser perto da antiga Coroa de Areia, vi que a praia estava menos suja. Depois li que o Prefeito mandou limpar a frente da cidade.
Numa boa mesmo, o prefeito poderia mostrar que tem a caneta “roxa” e de uma canetada só tirar os barcos da frente da cidade, colocar postes de luz voltados para a areia e encher toda a extensão da praia de traves e postes para a prática de futebol e de vôlei. No mínimo, no mínimo, haveria uma boa baixa nas filas dos hospitais.