por Cristovam Sena (*)
Lembrei-me dessa nossa conversa que ocorreu há uns seis anos devido às últimas passeatas que tiveram início em São Paulo e se espalharam por todo os quadrantes do Brasil. No início, reivindicavam redução no preço das passagens dos ônibus, depois passaram a protestar principalmente contra a corrupção.
A salutar catarse que a professora Raimundinha expôs aqui no blog, provocada pela conscientização de que o PT fracassou na condução dos nossos anseios, causando decepção, frustração e indignação, também serviu de motivação para o preparo destas linhas.
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Contei aos filhos que naquele tempo o brasileiro esclarecido via no governo militar um inimigo a ser derrotado. E que o descontentamento observado país afora estava relacionado ao concentrado poder nas mãos de ferro dos milicos. Assim, a ordem desejada só poderia ser restabelecida com a derrubada do regime militar, que utilizava a tortura como forma de controlar a insatisfação dos opositores. Nosso inimigo tinha nome, endereço, era reconhecido pela farda. Facilmente identificável.
Os protestos de rua que aconteciam naquela época eram comandados pelos partidos políticos (principalmente PT e PMDB), conseguiam mobilizar os artistas, os intelectuais, jogadores de futebol e o povão. Juntos foram para as ruas combater o inimigo em busca da retomada da democracia. Queríamos voltar a eleger nosso presidente da república pelo voto direto. Tinha 42 anos quando votei pela primeira vez para presidente.
Assim, o mote principal das passeatas era a redemocratização do país. A corrupção não era levada em consideração pelos manifestantes, até porque combater o comunismo e a corrupção foram palavras de ordem usadas para a efetivação do golpe de 1964.
Entretanto, ao tomar o poder, para governar os militares tiveram que conviver com os corruptos e, ao serem desalojados do palácio pelo clamor das ruas em 1985, deixaram abafados alguns grande escândalos. Dentre eles a Operação CAPEMI (Caixa de Pecúlio dos Militares) que ganhou concorrência suspeita para exploração de madeira aqui no Pará, sem falar nos desvios de verbas na construção da ponte Rio/Niterói e das rodovias Transamazônica e Santarém/Cuiabá. O cidadão comum ainda não tinha noção do alcance desses escândalos no cotidiano de suas vidas.
A fim de conquistar a simpatia popular, a publicidade do regime militar procurava influenciar os brasileiros através das vitórias nos campos de futebol. Ao vencer o tricampeonato mundial em junho 1970, no México, o Brasil assistiu a uma das maiores campanhas publicitárias de massa de sua história. “Eu te amo meu Brasil”, da dupla Dom e Ravel e o “Pra Frente Brasil”, de autoria de Miguel Gustavo, usado até bem pouco tempo nos momentos das grandes vitórias nos gramados, marcaram essa época.
Os militares dominavam o futebol dentro e fora de campo. O presidente da CBF era o Almirante Heleno Nunes e na sua administração foi cunhada a frase de que “Onde a ARENA vai mal, um clube no Nacional”. O certo é que o campeonato brasileiro de 1979 contou com a absurda participação de 94 clubes. Até hoje o futebol é utilizado pelo governo na tentativa de melhorar o humor da massa e injetar patriotismo no peito dos brasileiros.Como esquecer a sua euforia ao anunciar que o Brasil sediaria a Copa das Confederações em 2013 e a Copa do Mundo em 2014?
Nosso presidente chorou ao anunciar tais conquistas. Entretanto, tanto no passado como no presente a torcida brasileira conseguiu distinguir as conquistas nos gramados da propaganda ideológica partidária. Ontem vaiou no Maracanã os generais durante um jogo da seleção brasileira; hoje, durante a especial vitória da seleção contra a Espanha (3×0) não vaiou porque os políticos de plantão não compareceram ao Maracanã ou, se compareceram, ficaram escondidos.
Derrubada a ditadura militar, quis o destino que o primeiro civil a governar o Brasil fosse José Sarney. O maranhense fazia parte da entourage da ditadura e mudou de barco na hora da transição. Desde esse tempo seu nome já estava associado à corrupção. A partir dele, os governos que o sucederam foram simplesmente aperfeiçoando a corrupção instalada nos três poderes da república. E Sarney continua no governo até hoje, lá se vão 49 anos.
Os dois maiores partidos que assumiram o poder após a passagem do Sarney pelo Planalto (PT e PSDB) não demonstraram coragem e determinação em combater a corrupção. A professora de história Heloisa Maria Murgel Starling afirma que “a corrupção quebra o princípio da confiança, o elo que permite ao cidadão se associar para interferir na vida de seu país, e ainda degrada o sentido do público.
Por conta disso, nas ditaduras, a corrupção tem funcionalidade: serve para garantir a dissipação da vida pública. Nas democracias – e diante da República – seu efeito é outro: serve para dissolver os princípios políticos que sustentam as condições para o exercício da virtude do cidadão”.
E foi isso que aconteceu. A ditadura conseguiu anular a participação dos cidadãos na vida pública, que teve que ir para a clandestinidade se quisesse colaborar no restabelecimento da ordem no país. Derrubada a ditadura, a nova democracia estabelecida sob pressão popular conseguiu dissolver os princípios morais da política, culminando com a generalização da corrupção que espraiou-se por todos os níveis da vida pública.
Corrupção bancada pelos corruptores da iniciativa privada que, como a serpente do paraíso, some da história depois de ter corrompido Eva. Até hoje vivem na tranquila certeza da impunidade, afinal são eles que financiam as campanhas milionárias dos partidos.
A corrupção não tem rosto, nem endereço fixo, não usa farda para ser identificada e combatida, como foi o regime militar. Envolvidos por ela, hoje os partidos não possuem legitimidade para convocar o povo para combatê-la como fizeram com a ditadura. Os jogadores Sócrates e Casagrande compunham o palanque das “Diretas já”.
Sócrates morreu e Casagrande transformou-se em comentarista da Globo, enquanto Ronaldo e Bebeto participam do comitê organizador da Copa do Mundo de 2014, não estão nem aí com as acusações de corrupção que pairam sobre os gastos com os belíssimos estádios construídos Brasil afora.
Mesmo sendo a corrupção a causa das grandes carências sociais sentidas pela população: habitação, saúde, educação, saneamento básico, etc., o grosso dessa população não possui massa crítica para associar suas carências à corrupção enraizada no sistema político brasileiro.
A análise criteriosa que a professora e amiga Raimundinha fez sobre o PT já tinha sido feita por vários companheiros seus. A diferença é que muitos deles resolveram abandonar a sigla em vez de lutarem pelo seu enquadramento aos princípios que nortearam sua fundação, como ela faz agora. Plínio de Arruda Sampaio, Hélio Bicudo, Fernando Gabeira, Cristovam Buarque, foram alguns deles.
Recomendo a leitura do livro “Calendário do poder”, diário de Frei Betto ao longo dos dois anos em que trabalhou no Palácio do Planalto como assessor especial do seu grande amigo, o presidente Lula.
O sistema político partidário brasileiro está falido. Faliu porque adotou como elemento catalisador do sistema a corrupção. O universo é composto por sistemas que trocam permanentemente energia e/ou matéria com o meio ambiente. Na natureza a tendência das coisas é se desordenarem, se desorganizarem espontaneamente, sendo necessária uma ação para que se restabeleça a ordem. E o restabelecimento da ordem não acontece espontaneamente, exige muito trabalho, dispêndio de energia. Se não houver qualquer ação eficaz e permanente nesse sentido, a tendência é que prevaleça a desorganização do sistema.
Meus filhos, a corrupção, nas suas variadas modalidades, é doença comparável ao diabetes: silenciosa e traiçoeira. As duas são incuráveis, é verdade, e precisam ser tratadas com paciência e determinação para que os órgãos afetados não sejam levados à falência e, consequentemente, à morte. Pode-se conviver com elas por muito tempo sem se perceber que está doente. Mas somente reconhecendo que contraiu a doença e seguindo o tratamento recomendado pelos especialistas, é possível a convivência pacífica com elas.
O remédio mais eficaz para combater e controlar a doença da corrupção é a democracia. Sua bula diz que não tem contra-indicações.
Deus abençoe vocês!
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* Santareno, é engenheiro florestal e diretor geral do ICBS (Instituto Cultural Boanerges Sena). Escreve regularmente neste blog.