Jeso Carneiro

É preciso virar a página

por Paulo Lima (*)

É verdade que nossa democracia é muito jovem e vem demonstrando sua imaturidade nas eleições, em especial nas cidades onde não há segundo turno.

Pouco debate político e tendência à polarização é a marca mais comum. Grupos políticos tradicionais, famílias, acordos históricos são os motores de uma disputa política que mais parece campeonato de algum “eu já fiz mais” contra o “eu vou fazer mais”.

E política não é isso. É muito mais, é o momento em que decidimos na democracia representativa quem vai implementar o projeto político, o projeto de desenvolvimento que nós, como eleitores, queremos.

Em outro momento, depois das eleições, o tema da radicalização da democracia e da participação social com as redes sociais pode ser explorado. Hoje queremos provocar a reflexão sobre nosso processo eleitoral.

O modelo eleitoral brasileiro, oriundo da Constituição de 1988, tem muitos problemas. Parte da Assembleia Constituinte queria um Brasil parlamentarista, com voto distrital e uma representação mais moderna, mais próxima das especificidades regionais.

Numa análise muito sintética podemos dizer que o modelo aprovado assegura a desigualdade de competição, assegura que os grupos econômica e politicamente mais fortes tenham mais chances nas eleições. Por outro lado, a Justiça Eleitoral avançou muito e o Ministério Público se consolidou como um mediador de importantes questionamentos, apesar de alguns excessos pelo país.

Essa configuração muito particular brasileira criou um modelo eleitoral que, a partir da lógica das coligações, cria monstros políticos e desideologizou o processo eleitoral. Pensa o povo como massa de manobra e não como agentes do processo de controle social, de renovação necessária da classe política. Dificulta a madura necessidade de alternância política. Política não deve ser entendida como profissão, mas como contribuição temporária.

Em nossa cidade, não há um debate sobre o programa de governo dos dois grandes grupos políticos que historicamente se revezam no poder. O que se discute é a forma e menos o significado. Um exemplo muito evidente é de Alexandre Von, em sua campanha na TV e rádio, afirmar que a presidenta Dilma “ficará satisfeita” com a eleição dele porque ele “sabe” fazer projetos.

Isso é um insulto à inteligência. A presidenta sim quer capacidade de gestão e competência técnica para a apresentação e realização de projetos, mas é um de um projeto político oposto ao do que o candidato Von participa.

O fato da campanha jogar essa contra-informação (2) confirma que, para o PSDB, não importa que a presidenta seja do PT ou do PSTU, que tenha sido dos grupos da luta armada contra a Ditadura. Não existe crítica. A presidenta está no poder e não importa que ela reproduza o modelo de exclusão por eliminação do PSDB em suas prioridades. A contra-informação (2) para ganhar a eleição é mais importante do que a filiação política-ideológica. Como dizia Nelson Rodrigues é um óbvio ululante que Santarém não terá privilégios no Governo Federal com o governo do PSDB.

Significados esquecidos

O que significa a aliança DEM-PSDB e o que significa a aliança PT-PDT? O que significam as opções dos partidos menores? Essa é a questão que deve nortear a decisão do eleitor.

A coligação DEM-PSDB é uma fratura intelectual. O PSDB foi criado como uma opção ao PT, uma opção de centro-esquerda, social-democrata. A gestão pública brasileira nos últimos 20 anos é social-democrata. Não existe diferença na condução da economia, da política internacional, nos programas sociais nesse período. O que pode se afirmar é que o PT radicalizou nos programas, foi mais inclusivo e tem resultados mais importantes.

E o que defende o DEM? Os teóricos do DEM defendem o capitalismo competitivo, da produção e da geração de lucro, pois o mercado é que vai resolver a vida das pessoas e o Estado deve ter o menor tamanho possível. É a proposta do Estado Mínimo. O debate sobre o Código Florestal tem evidenciado isso.

O Brasil, na opinião desse grupo capitaneado no Congresso Nacional por Katia Abreu e Ronaldo Caiado, é quase um socialismo pois quer regulamentar o acesso e uso da terra. No baixo clero da Câmara dos Deputados está lá o deputado Federal Lira Maia que perdeu oportunidades importantes na Comissão de Agricultura ao misturar agricultura com esse tipo de política partidária ao tentar convocar, na surdina e quebrando o regulamento da Comissão, o ex-ministro Pallocci para uma audiência.

O jogo político tosco e tacanho é que ceifou a ascensão do deputado Maia a comissões de mais prestígio e o relegou a vida eterna no baixo clero. E esse jogo político tosco e tacanho é que aparece nas candidaturas de maior capacidade de investimento em nossa cidade.

Mas e o PT? A coligação do PT em Santarém também demonstrou uma grande inabilidade de análise de conjuntura e um desrespeito pela história do partido.

Sem prévias, os donos do partido cacifaram uma candidatura sem chances práticas até o último momento. Sem consulta popular, o PT acabou por criar uma candidatura que não tem consistência ideológica. Tornou refém de sua própria candidatura um dos melhores quadros políticos do partido, a professora Lucineide.

A lógica adotada pela direção do partido é de um grupo que não tem relações com a história da criação do PT em Santarém, que é mais próximo da elite, que aposta numa aliança com o PDT que tira todo o vigor histórico da militância do PT.

A direção do PDT em Santarém está no século XIX. A prática política é rude, é do “dossiê”, da distribuição de cargos sem exigência de conhecimento técnico, do tempo que é descrito no extraordinário trabalho de Vitor Nunes Leal, Coronelismo, Enxada e Voto (1), indispensável para entender essas práticas.

A candidatura de José Maria Tapajós, que pela tradição fisiológica do PMDB, poderia ter ido para um lado ou outro, se afogou no caminho. Já a de Rubson Santana é comparada ao Levy Fidélix do PRTB em São Paulo. Pitoresca, cheia de soluções aparentemente simples e viáveis para a cidade vai entrar para a história como folclore político. Mas pode assegurar uma vaga na Câmara dos Vereadores em 2016.

Resta a minha declaração pública de voto e a defesa desse gesto. O pensador italiano Antonio Gramsci já dizia: “Meu estado de espírito sintetiza estes dois sentimentos [otimismo e pessimismo] e os supera: sou pessimista com a inteligência, mas otimista com a vontade. Em cada circunstância, penso na hipótese pior, para pôr em movimento todas as reservas de vontade e ser capaz de abater o obstáculo.”.

Otimista, defendo e trabalho pelo voto ideológico, por votar no melhor candidato. Se Santarém tivesse segundo turno a realidade seria outra. Na prática, quero dizer que o importante é marcar a posição de que queremos debater uma nova forma de gestão pública no município de Santarém, queremos um governo com ampla participação social, que compartilhe as preocupações sociais, ambientais, que conforme um projeto de desenvolvimento adequado para nossa cidade. E esse projeto, na minha opinião, é o do candidato Márcio Pinto.

Fazer política não é fazer inimizades. É marcar posições e respeitar quem a maioria eleger. A política deve estar mais próxima da arte do convencimento e não da arte guerra, da eliminação do adversário. Vote consciente em 7 de outubro.

(1) Victor Nunes. (1948), Coronelismo, Enxada e Voto. Rio de Janeiro, Forense.
(2) Ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Contrainforma%C3%A7%C3%A3o

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* É professor universitário e historiador.

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