por Helvecio Santos (*)
A pergunta me aborrecia pois dava a impressão que o que havia de mais importante era a violência e que esta, em níveis alarmantes, só existia no Rio de Janeiro. Ficava aborrecido também porque, me perguntava, como uma pessoa “antenada” preferia ver um cisco no olho alheio a notar uma trave em seu olho?
Bom, com este artigo encerro uma série de textos, frutos da observação do dia a dia santareno na minha estada em dezembro/janeiro últimos, onde constato a violência à qual nosso povo está exposto, violência que mata mais que tiro de arma de fogo ou ferimento de arma branca.
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Além da dificuldade de deslocamento de nossos irmãos cadeirantes, muletantes, cegos, idosos, gestantes e outros, vítimas de calçadas irregulares ou ocupadas por comerciantes inescrupulosos, falei também do esgoto despejado no Tapajós; da contaminação do lençol subterrâneo por fossas sanitárias; do esgoto a céu aberto em toda a cidade; do lixo e da sujeira por todo lado, inclusive nas praias mais distantes; dos ratos e moscas que infestam o ambiente e dos íntimos urubus que passeiam arrogantemente como donos do pedaço; da poluição sonora; da poluição visual; da ocupação irregular dos espaços públicos por ambulantes; dos alimentos expostos e vendidos em locais inapropriados, inadequados e insalubres; do risco dos botijões manuseados nas barracas de fritura no meio do povo em pleno cais de arrimo etc etc etc.
A respeito desta última situação, num surto de humor cáustico e no intuito de chamar atenção para o perigo, disse que um dia “subir na vida” seria mais do que conseguir um padrão econômico e social considerável, eis que vez por outra explosões acontecem.
Num infindável rosário e com lágrimas nos olhos, escancarei, para desgosto de alguns, a falta de cuidado com a cidade, tanto do poder público quanto dos munícipes, sendo a tônica do dia a dia o “Farinha pouca meu pirão primeiro”, cada um “Puxando a brasa para baixo de sua sardinha”, num egoísta e predatório “Salve-se quem puder”.
Também, ao apontar esse tipo de violência, não estou dizendo que em Santarém não há assaltos e crimes de morte, os quais dão visibilidade e vendem jornais. Estes também acontecem mas matam menos e levam menos gente aos hospitais que os crimes que cito anteriormente.
A considerar só os crimes tratados nos artigos anteriores (“Sujeira, é praga ou parasita?“; “Lixo e sujeira – O caos está instalado”; “Trânsito- O caos está instalado”; “Poluição – Salve-se quem puder!” “Acessibilidade – quem pode dizer nunca precisarei?”) e ligeiramente citados neste artigo, ao contrário do que a maioria pensa, Santarém é uma cidade violenta.
Os últimos versos da denúncia musical “FAVELA”, de Arlindo Cruz, Acyr Marques e Ronaldino, com participação de Leandro Sapucahy, dizem assim: “Nem sempre a maldade humana / Está em quem porta um fuzil / Tem gente de terno e gravata / Matando o Brasil acima de tudo”…alguém duvida?
Os crimes que aponto nos artigos citados são mais mortais que os crimes de arma de fogo ou arma branca. A diferença é que os crimes de arma de fogo ou arma branca geralmente são cometidos por indivíduos das classes sociais mais baixas, matam diretamente as pessoas, melhor dizendo, matam individualmente. Já, aqueles, matam o ambiente, no nosso caso, o Brasil e matam por atacado, a curto e longo prazo e, como diz a música, são cometidos por gente de terno e gravata. Às vezes até podem estar sem mas, no geral, usam terno e gravata ou tailler importados.
Observar e tirar a trave que existe em nossos olhos é dever não só do poder público, mas de cada munícipe. Já seria um bom começo pensar Santarém não como uma cidade “de passagem”, uma cidade para se ganhar dinheiro, para usar os recursos naturais em proveito próprio, às vezes destruindo-os por puro deleite ou para engordar seus ganhos e, esgotadas as possibilidades, batendo asas rumo a outras plagas.
Por amor ou por inteligência é preciso cuidar de nossa Santa Santarém que há muito já dá sinais de exaustão e, nesse ritmo, breve entrará em colapso.
As futuras gerações agradecem!
P.S. dedico estes escritos a todos os caboclos que, como eu, viram outras luzes mas não esqueceram seu chão.
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* Santareno, é advogado e economista. Reside no Rio de Janeiro e escreve regularmente neste blog.