por Anselmo Colares (*)
Mas, voltemos ao processo eleitoral. Entrei no site do TSE com a curiosidade de pesquisador e fiz as seguintes anotações quanto a disputa dos votos para a Câmara de Vereadores de Santarém: Havia 286 candidatos. E 209.484 eleitores, o que daria em torno de 732 votos para cada um dos pretendentes.
— ARTIGOS RELACIONADOS
Mas, considerando que 25 mil 675 se abstiveram (deixaram de votar), 4.948 foram até a urna teclar BRANCO e 5 mil 831 anularam o voto, restaram 173.030 votos válidos, mesmo assim ainda daria 605 votos para cada candidato a vereador.
Mas ocorre que alguns ultrapassaram dois mil votos e com isso e outros ficaram abaixo de 100.
Do total de inscritos, 3 tiveram votação nula ou anulada por conta de problema no registro de suas candidaturas ou problemas junto ao partido. Quatro receberam 0 voto. Mas como? Nem ele votou em si mesmo?
Bem, ocorre que alguns se arrependem e abandonam a campanha e há também quem se candidate, sendo servidor público, apenas para ter direito a licença e se dedicar a fazer campanha para alguém ou até para não fazer nada nesse período.
6 candidatos tiveram entre 2 e 10 votos. A baixíssima votação de alguns candidatos sugere uma interrogação: quem escolhe o (s) candidato(s) a ser(em) apresentado(s) ao eleitor? Quais os critérios? Qual a estratégia adotada para uma “caça ao voto” com alguma chance de “atingir o alvo?” Falhas nos procedimentos … podem ajudar a entender os resultados pífios.
Merece registro que 78 candidatos tiveram menos que cem votos. Inclusive EU.
Calma! Não fui candidato, mas alguém se registrou assim, e obteve 59 votos. Está lá em ordem sequencial 207, sob o número 35251, do PMB, que estava coligado com PDT e PSD. Veja só, eu (ou você) ao ler o “listão” dá a sensação de que tivemos voto sem procurar. Enquanto que muitos procuraram até com esmero mas não “acharam”.
Como explicar esse fenômeno do “votar em fulano…”? O que podemos dizer sobre os 21 eleitos, todos conquistando acima de mil e seiscentos votos? E claro sem deixar de mencionar o mais bem sucedido nessa busca, que obteve 4 mil 785.
E o que dizer também quanto aos não eleitos mesmo tendo mais votos que os eleitos? Consequencia da regra que leva em conta o total de votos obtidos por um partido ou coligação.
Um dos suplentes obteve 2.246 votos e o vigésimo primeiro eleito 1.655 apenas. Bom, esse apenas é relativo ao conjunto dos dados uma vez que não é um número desprezível. Aliás, o que é desprezível em termos de votos? Quem arrisca declarar, sem ter vivido “na pele” essa estranha busca?
Meu avô viveu na roça, hoje o Tabocal é quase um bairro de Santarém, mas na época dele era mata. E os homens caçavam. Saiam ao entardecer para ficar em um ponto que denominavam ESPERA. Mas ele não gostava de fazer isso e com humor dizia a quem o convidada: “não vou esperar quem não ficou de vir”. Pura sabedoria. E acho que uma bem humorada forma de dizer não.
Mas o que isso tem a ver com os candidatos? Fiz a analogia porque muitos “esperam” votos que não “ficaram de vir”. Por que? Por duas razões básicas. Ou lhes falta um intenso trabalho de base, que antecede em muito o período oficial da campanha, o que inclui arregimentar apoiadores e realizar trabalhos em prol da coletividade … ou lhes falta dinheiro, e muito!
E não estou dizendo que seja para comprar votos (embora isso continue a existir, não tenho ilusões de que as regras jurídicas tenham sido cumpridas a risca) mas me refiro a dinheiro para permitir que o candidato posso se movimentar, levar ao maior número de pessoas as suas ideias, o seu aperto de mão. Ah, isso também conta, e muito.
Os “donos” são carentes de tantas coisas… inclusive de afeto. E um aperto de mãos, um tapinha nas costas, até um oi que seja possível escutar, um gesto que possa ser visto, entram nesta “cesta de produtos” que compõem as armas da caça ao voto. E como manusear estas armas sem o “bendito” money?
Dizer que alguém se elege sem gastar, é falácia. Assim como o é, acreditar estar votando em alguém que “não é político”.
Como as candidaturas não são avulsas, ninguém procura voto sem antes se filiar a um partido, e conseguir que seu nome seja relacionado para a disputa. Mesmo que a pessoa seja convidada a ser candidato, o convite se dá por uma atuação política que desperta nos dirigentes partidários a expectativa de que essa pessoa consiga votos para ampliar ou pelo menos manter os ocupantes das cadeiras já conquistadas.
E isto gera outra situação típica da política partidária: a concorrência interna que por vezes é mais acirrada que a disputa pelo votos contra candidatos de outros partidos.
Só quem vive essa experiência “por dentro” sabe melhor o que ela significa. Tem a ver com a definição do número, com os momentos de uso do espaço na propaganda eleitoral e principalmente com a utilização de recursos do partido ou da coligação para material e suporta a campanha. Estas coisas todas podem gerar profundos descontentamentos e até a migração de um candidato para o campo adversário, ainda durante a corrida pelo voto.
Talvez isso ajude a entender como, no caso de Santarém, o bloco político formado em torno do prefeito Alexandre Von, conquistou maioria de votos para a Câmara Municipal, 74 mil 903, enquanto que o candidato majoritário foi derrotado no primeiro turno.
Em números absolutos, 17 mil 703 eleitores votaram em um candidato a vereador que supostamente “puxava” votos para Von, mas na hora de digitar os dois números escolheu Nélio Aguiar.
Em outras palavras, o candidato a vereador, certo de que não há a possibilidade de segundo turno para a eleição proporcional, cuidou de salvar sua pele, consumar a caçada ao voto, e talvez pouco se importando com o “parceiro” da eleição majoritária.
Um diálogo entre “caçador” e “caça” mais ou menos assim: Candidato a vereador: – quero seu voto. Eleitor: – voto em você mas não voto no seu candidato a prefeito. Candidato a vereador? – não importa. Vote em quem quiser para prefeito, mas voto em mim para vereador. E assim inicia a caminhada de um político que não tem ligação orgânica com o partido, que não tem identidade com a sigla que lhe acolheu, e talvez nem conheça os estatutos e o programa.
Facilmente muda para outro. Facilmente abandona as causas coletivas pois a carreira solo está na base de suas pretensões. Eis um dos maiores problemas da nossa ainda frágil democracia, e do mais ainda frágil sistema partidário. Bom saber, todavia, que há saída, há caminhos que podem levar a melhorias substanciais.
Tudo começa (e termina!) pela educação, mas uma educação plena, inclusive e principalmente política. Daí porque a proposta de escola sem partido tem que ser combatida. Pois essa proposta só interessa aos que se beneficiam com o sistema que está instalado. Mas esse é outro assunto, para um próximo texto.
– – – – – – – – – – – – – – – –
* É professor, pós-doutor e vice-reitor da Ufopa, Universidade Federal do Oeste do Pará.