Jeso Carneiro

Estado do Tapajós: um sonho inexorável

por Iza Majahua Tapuia (*)

Criar uma unidade federada não é fácil, dura gerações e ultrapassa séculos. É o que podemos dizer sobre a criação do novo Estado. Essa pauta de autonomia administrativa é antiga. Obviamente por ignorar a história, alguns podem questionar a proposta de criação e o nome escolhido para concretizar este sonho.

Que ninguém se esqueça que, no caso do Tapajós, essa proposta é transgeracional, ou seja, vem desde os tempos coloniais, passou pelo Império e agora volta com força na República. É certo que, no princípio, essa vontade era da elite santarena, na época centro do poder político e econômico regional.

Atualmente, a meu ver, o centro segue sendo o mesmo. Mas a realidade mudou e o desenho geográfico do novo Estado abarca os municípios da calha do rio Tapajós e Amazonas, uma população que se constitui de povos indígenas, população cabocla e brasileira mestiça, vindo de todos os Estados da nação e porque não falar de também de estrangeiros radicados, entre outros.

Portanto, o universo geográfico, populacional, econômico é completamente distinto, e para que possamos ter sucesso no plebiscito, temos que ter a capacidade de estabelecer uma plataforma de defesa que englobe as demandas de inclusão.

Ou seja, a defesa de constituição e instituição do Estado deve compreender fundamentalmente o conjunto de povos e populações que engloba o território do Estado do Tapajós como um todo, evitando assim, o discurso que já vem sendo feito de que o Estado é maior que Santarém, e é mesmo.

Nesse contexto, o argumento central é de inclusão e de auto-representação, pois passamos séculos sendo excluídos, em vantajosa desigualdade, vivendo uma dinâmica social de ausência do poder Estatal, de participação e de integração ao cenário do Estado do Pará além do aspecto geográfico, uma vez que territorialmente sempre estivemos distantes. Distancia e ausência não somente de Belém, mas de Brasília e do Brasil.

O sentimento de exclusão e de dominação é o combustível desse novo arranque em favor da participação na União. Essa condição de excluído afeta a coletividade em forma, conteúdo e tempo.

O que se questiona hoje é a nossa posição de sub-representação. Apesar de contribuirmos significativamente no PIB e na balança comercial internacional, a condição social do oeste do Pará é inexpressiva em termos de retorno social, os nossos direitos não são respeitados e a cidadania é mera retórica. A capital que hoje se sente traumatizada com a criação desta nova unidade federada não reflete que na verdade o oprimido é criado pelo opressor. Contudo, não podemos cometer a mesma falha e a mesma falta esquecendo e não procurando mecanismos de inclusão de todos aqueles que fazem parte do território do Estado do Tapajós.

Finalmente, para aqueles que estão em dúvida ou para aqueles que já estão na luta: o Estado do Tapajós não tem pai e nem mãe nessa geração, a proposta se podemos caracterizá-la, diria que, o novo Estado é neto de tataravós. O que se faz a cada século e a cada oportunidade é reativar o projeto e acender a chama da criação, juntamos argumentos e energia e seguimos lutando, se não for dessa vez, vamos seguir com a chama acessa e um dia esse sonho trangeracional será realidade.

Vamos como diria meu amigo Afonso Coelho, fazer “o bom combate”.

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* Santarena, ex-coordenadora de Proteção dos Direitos do Povos Indígenas e Populações Tradicionais do Estado do Pará na gestão de Ana Júlia Carepa (2007-2010). Atualmente, estuda na Espanha.

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