por Helvecio Santos (*)

Noutra oportunidade já disse neste blog que escrever é também dividir a vida privada com os leitores o que, mais uma vez, faço.

Confesso que estou triste e para quem me conhece, sabe que é algo raríssimo. Diria que a tristeza é causada por uma esquisitice mas, perdoem-me, embora filhos de um mesmo Pai, somos todos diferentes ou, noutras palavras, temos nossas esquisitices que nos particularizam, e tenho lá minhas razões.

Explico!

Sou um maluco que acredita que uma das melhores coisas da vida é brigar com os irmãos, preferencialmente, ou com os familiares em geral, na ausência dos alvos preferidos. Brigar com irmão, aquele “amigo de fé irmão camarada” é bom, pois não há o perigo de levarmos tapa na cara, pelo menos na minha família, e o pedido de desculpas, normalmente dois dias depois, é uma festa.

O que não pode é haver ódio. Aí, não! O ódio estraga a demonstração de amor das desculpas que é o ponto culminante da briga, eis que amor e ódio são sentimentos excludentes.

Levo tão a sério essa coisa que determinada vez, brigando com meu irmão que reside em Porto Alegre, minha cunhada, coitada, sem saber do quanto prezo essas brigas, defendeu o marido e eu, extremamente aborrecido, disse-lhe que “se não tivesse para onde olhar que olhasse para o teto, pois eu estava brigando com o MEU IRMÃO”.

Na manhã seguinte, papai e uma irmã que estavam em Porto Alegre, acompanhando meu irmão me levaram ao aeroporto, pois eu estava de volta para o Rio de Janeiro. Papai ao ver o forte abraço, o beijo estalado e escutar as palavras que se dizem nesse momento a um ente querido, sacudiu a cabeça e disse: “Não compreendo”.

Dei razão ao papai, é incompreensível mesmo. Para mim é uma coisa sacramental e sacramentos são aceitos e não compreendidos.

Hoje, quando vou a Porto Alegre, para evitar essas intrusas atrapalhações, já na chegada marco com meu irmão o dia que brigaremos e, acertado o dia, minha cunhada fazendo beicinho, repete que somos malucos, o que de certa forma concordo. Só malucos de amor brigam sem deixar rastros de ódio.

Em Santarém, à exceção dos menores, já briguei com todos. Nas próximas idas, preciso adequar a agenda. O tempo passa. O meu sobrinho Yan já fez 17 anos, outros já passaram da cintura e uma nova “fornada” de minha produtiva família está chegando.

Assim, novas brigas se avizinham e além de não haver tapa na cara, na minha lógica, o mais importante é que esse “brigar”, repito, sem ódio, me remete à adolescência, época em que uma boa briga terminava numas “cintadas” da mamãe.

Pelo milagre de nos remeter à adolescência, elevo o “brigar com irmão” à categoria do sagrado. E aqui reside a minha tristeza!

Nesta semana farei 64 anos de idade e, posso dizer, faria tudo de novo, acrescentando somente o tempero de um risco maior, com bem menos cautela e, mais do que nunca, obedecendo prioritariamente o coração. Apesar desta ressalva, posso dizer bem vividos 64 anos, nos quais pelo menos uma vez por ano, quando visito minha família, por força das “brigas”, volto a ser adolescente.

Acontece que pelas vicissitudes da vida, meu irmão santareno está impedido de se expor a emoções, sejam elas positivas ou negativas. Para cima ou para baixo, elas o tiram do seu prumo e prejudicam sua qualidade de vida.

Minhas irmãs nunca renderam uma “boa” briga. Normalmente elas, por mais provocadas que fossem, não se dispunham. Uma boa briga santarena só mesmo o meu irmão e agora, convenço-me que não poderei provocá-lo, pelo menos, por enquanto.

E aí eu pergunto: Como poderei retornar à adolescência?

Para mim é uma perda irreparável, mesmo que temporária, mas tenho fé em Deus, na ciência, na capacidade de luta do meu irmão e no amor de nossa família, que um dia voltaremos a travar nossas memoráveis brigas, para dois dias depois nos abraçarmos e nos beijarmos, numa constatação de que o amor sempre vence.

Força, meu querido irmão, ainda quero brigar muito com você!

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* Santareno, é advogado e economista. Reside no Rio de Janeiro. Esse texto foi remetido ao blog hoje (25), de manhã bem cedo. Foi escrito antes da morte de Eriberto Santos, irmão do articulista.

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Um comentário em: Estou triste, muito triste

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  • Thea Pinheiro disse:

    Sinto muito, Helvécio, que Deus conforte seu coração!

    Um abraço,

    Théa Pinheiro (irmã da Tarcísia)