por Célio Simões (*)
Na maioria das cidades do Baixo Amazonas, carentes de energia elétrica, tais recados só eram possíveis durante o breve período em que funcionavam os geradores de energia a diesel, onde eram ouvidos os rádios convencionais.
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O trapiche.
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Depois que tais aparelhos passaram a ser movidos à pilha, foi uma festa, e aumentou em muito a utilidade desse tipo peculiar de comunicação, verdadeira integração entre as áreas rurais, ribeirinhas ou não e as cidades, possibilitando notícias, encontros e reencontros entre familiares, tendo como destinatários invariáveis agricultores, pescadores, idosos, comerciantes, vaqueiros, artesãos, comerciantes e outros mais.
Essa prática arrefeceu com o advento das parabólicas e com a proliferação mais recente da telefonia móvel, porém não seria exagerado afirmar que até hoje ela existe, justo porque não é em todo lugar que o celular é útil e isto pode ser comprovado até mesmo nos centros mais evoluídos, em relação a sua própria área metropolitana.
Lembro que ainda em Óbidos, e depois da compra do nosso primeiro rádio à pilha (SEMP), ouvíamos a Difusora e a Rio Mar, ambas de Manaus (AM), transmitindo para os confins da Amazônia, mensagens de quase todos os tipos: comunicação de falecimentos, recados de extrema saudade entre amores distantes, felicitações de aniversário, anuncio da chegada de alguém à sua comunidade, convite da vizinhança para festas do Santo da devoção local, marcação de ferra de gado, compra do remédio antes encomendado e até cobrança de dívida de credores supostamente ludibriados.
Eram mensagens dirigidas a quem não dispunha nem mesmo dos serviços dos Correios. Entrava aí a importância do rádio. Tais informes por vezes tangenciavam a intimidade, em boa parte tornadas públicas pela necessidade de comunicação, àquela época extremamente precária. Tinham elas, porém, o papel fundamental de unir as pessoas, solidificar os laços de solidariedade de uma região, pois as mensagens eram passadas verbalmente, informalmente, apenas com o intuito da desinteressada colaboração.
Isto porque a incerteza se o recado chegaria ao seu destino forçava o mandante a apelar para ouvidos amigos, fazendo registrar em seguida a famosa frase: “…QUEM OUVIR ESTA MENSAGEM FAVOR TRANSMITI-LA AO DESTINATÁRIO…”. Era uma espécie de radiografia dos hábitos, da cultura, do cotidiano e em especial, das dificuldades enfrentadas diuturnamente pelos habitantes do interior.
Os radinhos de pilha, vendidos a baixo preço na Zona Franca de Manaus, passaram a facilitar a tarefa, pois não mais dependiam de energia elétrica, possibilitando sua total portabilidade. Caboclo da Costa Fronteira de Óbidos, ainda tenho guardado o meu, um velho SHARP TRANSISTOR EIGHT com capa de couro, comprado na capital do Amazonas, que não mais utilizo porque curtido de servidão já sofre de permanente e incurável crise de piema.
Foi substituído por outros, mais modernos, em casa, no escritório, no carro, porque não largo o vício de ouvi-los, desde que em 1977 o governo brasileiro, buscando espancar a invasão de emissoras estrangeiras, criou a Rádio Nacional da Amazônia, que transmite em ondas curtas, cobrindo mais da metade do território nacional.
Hoje as rádios municipais, as rádios comunitárias e mesmo as de empresas particulares, em especial as FM, desfilam para seus ouvintes agradáveis e variada programação, às vezes dispensando até mesmo a utilização de CD ou entrada USB nos veículos; num trânsito amalucado e via de regra engarrafado como em Belém, ouvir uma boa música no carro dissipa o estresse e nos torna tolerantes com os absurdos que presenciamos no dia a dia, praticados por motoristas incautos ou irresponsáveis.
Nos anos que morei em Santarém, lembro que as duas emissoras locais, a Rádio Clube e a Rádio Rural, abrilhantadas pelos talentos de Ércio Bemergui, Ednaldo Mota, Osmar Simões e Sinval Ferreira, nos propiciavam programas de alta qualidade intelectual, transmissão dos memoráveis prélios entre São Francisco e São Raimundo, educação para jovens e a exemplo da rádio Rio Mar de Manaus (as estações de Belém eram difíceis de serem captadas) as indefectíveis “MENSAGENS PARA O INTERIOR” dos quais cito como exemplo umas poucas, para que meus três leitores entendam como eram formuladas:
– Atenção, atenção, capataz Domingos, da Fazenda São Sebastião. O seu Gito Colares e o seu Antonico avisam que no dia 23 de setembro estarão chegando para realizar a ferra do gado. Pedem ainda que o senhor reúna os vaqueiros do Curuai para esse serviço e prepare os bezerros para a capação.
– Atenção, atenção, professora Raimunda, da Escola Santa Joana, no Lago do Salé. Seu genro Tote pede que avise aos seus alunos que as aulas não poderão começar no dia primeiro de março, pois não chegou a Santarém o material escolar, o que somente acontecerá daqui a uns dez dias, vindo de Belém pelo Barão de Cametá.
– Atenção, atenção senhor Francisco, morador da Vila Sales, na margem esquerda do Rio Tajapuruzinho, Vila de Curuá, Município de Óbidos, seu compadre Acácio avisa que o Manoel já foi vacinado na Farmácia do seu Ninito Veloso e vem se recuperando bem da moléstia, com o remédio receitado pelo Dr. Pena. Desta vez ele escapa.
Se muitos não ligavam para tais avisos, até mesmo porque não tinham parentes ou amigos no interior, o mesmo não acontecia quando soava a inconfundível frase do locutor da Rádio Nacional, mesmo para os moradores da cidade: “Aqui fala o seu Repórter Esso, testemunha ocular da história…”.
Ao tempo que tal jargão marcou a fase áurea do radiojornalismo brasileiro, quem ouvia esse prefixo que durou de 1941 a 1971 fora da programação normal da emissora, sabia de antemão que alguma coisa de muito grave ou importante acabava de acontecer. A morte de um renomado político, uma tragédia de proporções catastróficas, ameaças pontuais de guerra, etc. Dava para tremer de medo.
Fora desses casos excepcionais, a música do Repórter Esso era o relógio-tempo dos brasileiros, porquanto sua inglesa pontualidade ditava-lhes o início e o fim de suas atividades, fossem eles trabalhadores, empresários ou mesmo as zelosas donas de casa.
Decididamente vivemos novos tempos, porém quero crer que a Amazônia, com suas conhecidas carências, vocação para a continentalidade e crônico isolamento, ainda comporta a prática das MENSAGENS PARA O INTERIOR pelas rádios espalhadas em seu vasto território, das quais tantos dependem para contornar suas dificuldades pessoais, suas necessidades de interagir ou até mesmo de sobreviver.
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* Nascido em Óbidos, é membro da Academia Paraense de Jornalismo. Escreve regularmente neste blog.