por José Baldino da Silva Vasconcelos (*)
A vida é existir dentro de seus momentos significantes: um de inspiração, outro de expiração. Toda existência é uma aventura fugaz que transcorre entre a primeira inalação e o sopro final. Nascemos na inspiração; existimos na pausa; transvivenciamos na expiração.
Morrer é uma arte. E como toda arte precisamos aprender a morrer. Toda a nossa existência faz parte de um belíssimo cenário. É belo passar pela ponte da existência sabendo que cada passo é único, que cada experiência jamais se repetirá, que cada repouso é sem igual. Saber que “não se toma banho duas vezes no mesmo rio”, não se ama duas vezes a mesma mulher, não se sente duas vezes as batidas do próprio coração. Saber que tudo é passagem, tudo é mutante, tudo é fluxo…
Admitemos: o tema da morte é soberano. O que nos impede é não reconhecer, não querer aceitar esta realidade inexorável – a morte – como transcendental. A cultura nossa que permeia esta realidade é estreita e alienada tornando-a tabu, colorindo-a de morbidez e negação. O fenômeno natural de morrer torna-se um pesadelo horroroso de nós subtraindo a consciência de transitoriedade e de finitude.
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Em outras tradições culturais, a morte e o processo de morrer são honrados com especial atenção e muitos cuidados por parte da comunidade.
A reflexão sobre a morte me incomoda, me questiona, me angustia. Minhas crenças, meus valores são evidenciados. Chegará o tempo certo do final da minha passagem pela ponte da existência. E se perguntarem se tenho medo de morrer responderei que tenho medo de não morrer (me utilizando das palavras do velho sábio Jorge Luis Borges). Terei coragem de assim proceder? Não sei…
Ao longo da minha efêmera existência estive presente nos momentos derradeiros de pessoas queridas e me entristeci, é verdade, e desejei resistir e desistir. Quanta insensatez da minha parte! O que mais me entristeceu foi a percepção, evidente e clara, do despreparo dos profissionais da saúde, naquelas clínicas e hospitais, para o acompanhamento de seres humanos nas fases terminais da existência. Existem as honrosas e solidárias exceções!
Se quando da nossa chegada a este mundo somos muito mal recebidos a nossa partida da jornada existencial é ainda mais torturante e despida de delicadeza, do caráter sagrado e de uma humanidade envolvente. Isso tudo em função de um modelo tecnicista, massificante que maltrata o processo de nascer e de morrer.
E como nos preparar para o mergulho final? Só há um meio: amando. Existir e morrer será sempre a arte de amar.
Este texto é dedicado a um homem justo chamado Solano. No dia 8 de maio deste ano de 2011, desataram-se os laços que o prendiam à terra. Nos seus momentos finais, experienciando os estertores da morte, fazia uma linda madrugada com céu estrelado como tantas outras dessas paragens amazônicas.
Na manhã deste dia Solano seguiu para a morada eterna e a manhã era bela. Os índios americanos costumavam dizer que “today is good day to die”. Acredito que Solano escolheu seu dia.
PS.1: Este texto, por extensão, é dedicado aos meus pais, familiares e pessoas queridas que sacramentalmente permanecem comigo.
PS. 2: O texto foi inspirado nos escritos de Marie H. e Jean L
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* Santareno, é educador holístico e aposentado.