Jeso Carneiro

O assassinato de Jéssica e Mauro – final

por Apolinário (*)

Findou o dia 21 de outubro de 2012 e com ele a vida de Jéssica e de Mauro. No rosto de cada um, a última expressão registrada era uma mistura de surpresa, terror, desespero, dor, medo e súplica.

Olhos esbugalhados, bocas abertas, línguas para fora e veias saltadas pela dolorosa e sufocante experiência de não conseguirem respirar, afogando-se com o próprio sangue que abundantemente jorrava pelos narizes, bocas e ferimentos das facadas.

A terra ressecada pelo calor sugava tudo insaciavelmente. Assim, os corpos foram acolhidos pela escuridão da primeira noite dos dois como mortos.

Sílvio Birro, delegado da Polícia Civil do Pará

A solidão e o desolamento do lugar para onde foram arrastados eram muito maior e os corpos ainda ficavam camuflados por galhos dos ressecados arbustos que impossibilitavam que fossem vistos por quem passasse pela trilha.

O sereno frio e oxidante dessa primeira noite se encarregou de ungir os corpos e recepcionar as almas para uma dimensão de consolo, luz e paz, paradeiro esse ainda sem explicação definida e exata, assim como a ironia do acaso, do destino, que veio selecionar, naquele dia, Jéssica e Mauro no meio de centenas de pessoas para serem as vítimas dos prazeres pervertidos dos garotos da vila de Alter do Chão.

Os garotos foram menos vítimas do acaso, pois quando saíram de suas casas, já estavam articulados e armados com facas predispostos a fazerem algo diferente, provocante e sensual ali pelas matas da serra naquele terceiro domingo de outubro.

Pode ter sido um gesto de resposta revoltosa e vingativa ao sistema político, econômico e social do lugar, que proporciona dias melhores para apenas meia dúzia de pessoas que lucram com o vai-e-vem das emoções dos turistas que pagam muito caro por tudo ou simplesmente vontade natural, ansiedade coletiva de apimentar um pouco mais o livre arbítrio.

Os mercadores da palavra de Deus estão sem métodos novos e apropriados para entrarem nas mentes e nos corações de jovens nestas condições. Quando o sistema aprisiona o homem, só loucuras o libertam.

“Vontade de encher a cara até cair!” “Dirigir uma máquina em alta velocidade!” “Transar com duas mulheres adultas de uma só vez ou com uma criança de dois anos de idade!” “Cheirar cocaína, fumar de tudo, aplicar qualquer coisa nas veias ou ficar com parceiros do mesmo sexo!” “Precisar sofrer rejeição e desprezo de uma pessoa para poder desenvolver afeição por ela.”

“Preferir matar alguém antes de comê-la, ou arrancar pedaço por pedaço e vê-la sofrer até a morte!” “Rasgar dinheiro, beber água da lama, transar sem ter tesão, amar sem ter amor, fugir do nada, agredir o que não existe, dançar, cantar, escrever, pintar, sumir, fugir, aparecer, voltar, promover, ser, ter ou renunciar” é tudo força de loucura pela libertação do homem sufocado pela prisão do sistema… e ele não tem a chave.

Então, o sereno da noite foi se tornando mais frio e úmido a cada hora que a madrugada ia se ampliando. Os pássaros noturnos se recolheram motivados pela ameaça dos primeiros raios do nascer do sol do dia vinte e dois, segunda-feira.

O alarde foi grande da parte da família de Mauro, que não conseguia se comunicar por telefone com nenhum dos dois. A polícia foi acionada, então as buscas começaram. O subtenente Washington, do Corpo de Bombeiros, coordenava a missão.

Muito experiente e dedicado, Washington acreditava que os dois poderiam ter se afogado. Enquanto as buscas eram nas águas, os corpos de Jéssica e Mauro queimavam no sol por toda a segunda-feira, dia vinte e dois, jogados, separados aproximadamente vinte metros, até a terça-feira, vinte e três, quando, finalmente, foram achados em avantajado estado de putrefação, envolvidos por bolhas de queimadura do sol, larvas de moscas por todos os ferimentos e um mau cheiro insuportável no ar (só dois animais têm mau cheiro igual ao do ser humano quando está podre: a cobra e um peixe chamado pescada, mas só o ser humano zomba e ignora essa realidade!).

Antes de a polícia e perícia chegarem, a cena do crime já estava toda alterada pelas dezenas de curiosos que tomaram conta do lugar mexendo e pisando em tudo. Somente na quarta-feira, dia vinte e quatro, a equipe do Delegado Sílvio Birro, o mais capacitado para resolver casos difíceis e misteriosos, assumiu as investigações, avaliando tudo por vários ângulos, colhendo informações, comparando todas as possibilidades, desde os primeiros passos das vítimas até a última gota de sangue derramada.

Uma das primeiras coisas a ser descartada foi o latrocínio, pois o casal estava desprovido de objetos de valor, além dos celulares que foram encontrados no lugar. Isso foi anunciado em entrevista coletiva pelos delegados da mídia, aqueles que ficam aguardando nas mesas do gabinete até que tudo chegue de bandeja para eles fazerem o resto. Sempre foi assim dentro da polícia; um sobe pisando na cabeça do outro.

O delegado Sílvio Birro nunca erra um palpite, resolve todos os casos que preside, é organizado, criativo, cuidadoso e certeiro. Filho de Dona Gláucia e do Senhor Paulo, teve uma infância tranquila e cresceu aprendendo com os pais que o homem tem que ter bom caráter e ser honesto até o fim da vida.

Assim o delegado tem se comportado por onde anda e em tudo o que faz. Talvez por esses motivos, uma leve campanha de inveja acompanha o seu excelente desempenho dentro da polícia. Mas como esses “colegas” não são os primeiros e nem serão os últimos a serem assim, Sílvio Birro toca a vida para a frente e faz de conta que não está vendo nada.

Com sua equipe de investigadores afiada, geralmente tudo é descoberto em duas ou três investidas. Em menos de dois dias de investigação, descartaram a possibilidade de o crime ter sido por encomenda. Novos elementos foram surgindo nos horizontes das investigações. E o quebra-cabeça foi montado.

Porém, Sílvio Birro precisou viajar e uma parte de sua equipe teve que resolver umas ocorrências para as bandas de Santarém: estupro, assalto, pistolagem, arrombamento, roubo de carro, drogas e outras coisinhas que não param de acontecer diariamente. Como tudo ficou mastigado, os delegados da mídia assumiram o caso e resolveram tudo na base do choque, paulada, ameaça e prisão.

O advogado Fernando Rodolfo, morador de Alter do Chão, que está defendendo Luan Rafael Medeiros, o Beiçola, confirma que a polícia da mídia usou força máxima da tortura para dar logo um ponto final no caso com tudo que tem direito para não ir ao Tribunal do Júri e não mostrar que a “polícia” errou ao transformar o homicídio em latrocínio.

Então indiciaram como latrocínio plantando cordão de ouro, dinheiro, máquina fotográfica, falsas testemunhas, muita tortura e pressão psicológica. O médico que assinou o laudo da perícia, Dr. José Domingos Lima Pereira, diz que a causa morte de Jéssica foi hemorragia intercraniana devido a traumatismo craniocefálico causado por projétil de arma de fogo.

Na opinião de muitos especialistas do assunto, a polícia da mídia ou o juiz do caso deveria ter pedido a exumação do cadáver de Jéssica para procurar essa bala. Inclusive já havia uma pistola sete meia cinco de stand by para ser plantada, mas não tiveram coragem.

Acharam que só com esse laudo fraco, colocado na base da confiança, sustentado pelos jornais que formam parceria com este tipo de fazer polícia, ficaria mais fácil de o juiz aceitar. Aceitar essa versão e esse laudo sem tiro, sem atirador, sem arma de fogo e cheio de manipulação é subestimar demais a inteligência de um jurista. Os garotos usaram facas e cacetes, não roubaram nada. Os verdadeiros culpados entre eles devem ser julgados no Tribunal do Júri.

Enquanto os meninos acreditavam no brilho da vaidade, estarem sendo alvo de atenção geral dos jornais, da televisão, a passarela dos desvalidos caía até bem para a subjetividade poética e romântica, viver a emoção de agora ser um super-herói.

Muito embora feitos macacos selvagens no picadeiro, em vez de ganharem bolinhas doces pelo número bem feito diante das câmeras, recebiam espetadas de zagaias invisíveis para continuarem a olhar para o chão e dizer “fui eu”, “foi ele”, “eles e eu”, “não sei, só sei que fui eu”, “não sei como eu fui, sei que voltei”.

Quando a luz se apaga e as câmeras são desligadas e os garotos são trancafiados nas celas do Cucurunã, é que a dor de cair na real mostra que a brincadeira acabou e o período agora é de esterco. Macacos quando adestrados, imitam homens perfeitamente. Homens nem sempre fazem macacos bem feitos, mesmo sob tortura.

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* Santareno, é artista plástico e articulista do blog.

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