Jeso Carneiro

O blefe de Santarenzão

por Tiberio Alloggio (*)

Desde que conheço Santarém, sempre tive a sensação de o município sofrer com uma especie de “livre arbítrio”. Uma suposta liberdade que empurra a cidade sobre uma linha imaginária, suspensa entre o abismo e as alturas. Um caminho tortuoso, que a qualquer momento pode precipitá-la para o inferno, ou levá-la ao paraíso.

Mas Santarém do Tapajós é assim mesmo, um lugar geográfico privilegiado, rico em recursos, belezas naturais e culturais. Um lugar invejável, com um extraordinário potencial para ser tudo…. ou o contrário de tudo, claro. Pelo bem ou pelo mal.

Cristovam Sena, um dos seus mais ilustres conterrâneos, alguns tempos atrás já havia ponderado sobre esse “potencial maldito” de Santarém. Principalmente por causa da existência de uma parcela de sua sociedade, formada por políticos e cidadãos, cuja postura essencial consiste em se recusar a olhar o mundo para frente.

Eram esse tipo de elucubrações que passavam pela minha cabeça ao me deparar com a paisagem desolante dos escombros de serrarias que encenavam a ocupação de uma área à margem da rodovia Fernando Guillhon.

Foi justamente naquele lugar, que se consumou mais uma invasão. A reprise de um filme já rodado em 2009 no lado oposto da mesma rodovia. Um filme já visto, cujo pano de fundo era o mesmo: a politica, ou melhor, a politicagem.

Mais uma vez, uma meia duzia de comunitários do rio Maró, invadiram a área, erguendo falsas habitações com resíduos de madeira podre. O escopo declarado desta invasão era a implantação de um “enclave popular” na área urbana da cidade, em grau de colocar em xeque o programa habitacional do governo petista, criando as bases para a eleição do tucano Alexandre Von a prefeito de Santarém em 2012.

Como a primeira ocupação havia funcionado na sustentação da candidatura de Simão Jatene ao Governo do Pará, os idealizadores dessa segunda tentativa achavam que com o apoio do governador e de seu mais novo brinquedo santareno, Helenilson Pontes, o jogo teria sido ganho antes mesmo de começar. Daí, o abuso do 45, com bandeiras e barracas amarelas no perímetro da invasão.

O apoio do governador consistia em retardar deliberadamente a reintegração de posse concedida pela justiça, para que a “ocupação” pudesse “crescer”, até se tornar um problema de ordem social e consequentemente um “pipino” politico para a prefeitura municipal.

A visita de Jatene em Santarém, sua encenação em favor aos invasores flagrada pelas câmeras fotográficas, deram a senha aos ocupantes para que resistissem no tempo que fosse necessário. Quanto mais tempo, melhor.

Uma estratégia politica atrevida, que visava a paralisação do programa Minha Casa e Minha Vida, travando propositalmente o projeto de construção de mais de 3 mil moradias populares na área ocupada.

O que importava não era a permanência, ou não, dos invasores na área, mas o “custo político” da operação, cujo desfecho seria debitado na conta da Prefeitura de Santarém.

Mas, desta vez, as circunstancias já não eram mais as mesmas da primeira invasão, e o tiro saiu pela culatra.

Em 2009, havia se formado um “estranho conjunto” de invasores reunidos entorno de um suposto novo messias da luta pela terra. Um tal de Ivan Leão, uma espécie de clone do pastor Silas Malafaia, mas que no lugar de bíblias vendia lotes de terras.

Era um “supermix” explosivo, que a começar pelos demo-tucanos, passava por militantes da igreja do sétimo litro, alcançando até a esquerda de botequim, incluindo aí uma categoria de otários políticos, entre eles o petista Cláudio Puty.

Uma multimistura, que acabou por confundir o governo municipal que, ao dormir no ponto, demorou em tomar atitudes. E a bomba acabou explodindo nas mãos da prefeita Maria do Carmo.

Mas desta vez, Ivan Leão foi sozinho e pisou na bola. A esquerda de botequim já havia tomado distâncias dele, e a turma do Puty já havia implodido e desaparecido. Sobrando-lhe apenas Alexandre Von (daí o apelido de IVON LEÃO) e o silêncio cúmplice de nossa mídia mercenária.

Rápida no gatilho, bastou a prefeita ter a coragem de vir ao publico e soprar o nome do governador Simão Jatene, denunciando sua omissão e suas responsabilidades em não cumprir a ordem judicial de reintegração de posse que a casa caiu.

De uma hora pra outra, o grande “blefe” de Alexandre Von ruiu, levando junto o sonho da edificação de “Santarenzão”, futura capital do Estado do Tá-pra-nós!

Ivon sumiu e o que sobrou, mais uma vez, foram os escombros e a destruição do lugar.

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* É sociólogo, de origem italiana e residente em Santarém. Escreve regularmente neste blog.

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