Jeso Carneiro

Odisseia de um Ninos: 90 anos de vida

por Jota Ninos (*)

05 de maio de 1921. Cidade de Xanthi, Estado da Macedônia, norte da Grécia. Nasce um pequeno guerreiro helênico que parece querer se eternizar no tempo.
05 de maio de 2011. Cidade de Santarém, Estado do Pará, norte do Brasil. O velho guerreiro completa 90 anos de uma odisseia que ainda parece estar no começo.

Hoje quero comemorar estes 90 anos de meu pai, o velho grego Georgios Joannis Ninos, um homem simples que sobreviveu à 2ª guerra mundial, crises econômicas no Brasil e tantos outros infortúnio pessoais, mas que ainda agora parece estar pronto para outras batalhas no coração da Amazônia.

Nas linhas abaixo, faço um resumo de tantas histórias que me contou e que ainda serão, um dia, mais esmiuçadas em algum dos livros que sempre prometo escrever.

A saúde e o signo são de Touro. O brilho no olhar é sempre vivaz. Está sempre com um livro ou uma revista numa das mãos, enquanto a outra puxa uma cordinha que ele engenhosamente amarra em algum lugar para embalar sua rede.

Seja no quarto, seja no belo pomar da chácara Pouso Alto, onde mora nos últimos anos e que é de propriedade do amigo que se foi há algumas semanas, Eymar Franco.

Sob os olhares vigilantes de minha quase-irmã, Cecília, viúva de Eymar, de minha madrasta Oscarina e de minha meia-irmã Anna, de vez em quando o velho apronta. Decidido, é capaz de sair do Cipoal, pegar um ônibus da linha Tabocal e dar uma volta na cidade pra fazer umas comprinhas, para o desespero das três guardiãs. Isso sem contar que chega de mototáxi pra me visitar no Fórum!!

Mas já foi pior: acordava todo dia às cinco da manhã para caminhar às margens da BR-163, impassível aos movimentos de carros que passam a mil por hora e de vez em quando acertam algum transeunte na beira da estrada. Hoje, depois de muitos esporros das três decidiu só caminhar dentro dos limites da chácara. Sem contar a época que resolveu consertar a parabólica e quase despencou lá de cima!

O velho grego é imprevisível e nunca aceita ser tutelado, mesmo com a artrose que já tomou conta de seu corpo e da surdez irreversível. Apesar disso, esbanja mais saúde que os três filhos (eu, Anna e Stefanos, este último morando em Belém), frutos de três relacionamentos distintos na década de 1960 quando escolheu morar em Belém do Pará e se envolver com três caboclas tipicamente paraenses (a Oscarina, de Alenquer; a Osvaldina, de Marapanim; e a Francisca, de Belém) quase na mesma época, enquanto os demais gregos da colônia belenense só se casavam com outras gregas!

Chegado ao Brasil no dia 02/09/1955, então com 34 anos (foto ao lado), havia decidido vencer na vida quando desceu de um transatlântico no porto de Santos. Deixou para trás as lembranças da guerra e três irmãs que prometeu um dia buscar.

Tendo participado de diversos cursos técnicos, nunca recusou nenhum tipo de trabalho braçal. Através de um conhecido, começou a trabalhar numa marcenaria, mas ao ser humilhado pelo patrão que disse que ele nunca venceria na vida, viu que era hora de fazer aquilo que sempre soube fazer: ser dono do próprio nariz.

Pediu uns pedaços de madeira como indenização e construiu um carrinho para vender frutas no mercado de São Paulo. Alguns meses depois, voltou vestido com o melhor paletó comprado com a renda das frutas, para visitar o dono na marcenaria. Foi atendido com todos os salamaleques que se faz a um cliente. Mas foi lá só para rir da cara do ex-patrão, que ficou abismado e não acreditou que Georgios era aquele jovem quase raquítico que trabalhara com ele. O orgulho grego estava restabelecido.

O vendedor de roupas
O empreendedorismo sempre foi o forte de Georgios Ninos. Das frutas, resolveu ser mascate, caixeiro-viajante pelo Brasil afora levando na bagagem, roupas confeccionadas em pequenas fabriquetas de gregos que conheceu no Bom Retiro, em São Paulo. Entre elas, Kiki Tzitzileri (já falecida), que viria a ser minha madrinha no futuro e com a qual nutriu uma grande amizade.

Kiki confiou a ele um grande número de confecções que vendia pelas cidades do interior da pauliceia. Mas São Paulo foi ficando pequena para o esperto comerciante grego. Estava chegando a hora de viver outros ares. Desde a morte de seus pais no final dos anos 30, quando ainda era um jovem de 18 anos, assumiu o pequeno comércio da família em Xanthi e praticamente ajudou a criar as três irmãs: Maria, Eva e Anna.

Já havia reunido o suficiente para trazer as três irmãs ao Brasil. Somente tia Maria não quis vir (viveu e morreu na Grécia, onde me acolheu entre 1988/1991). As duas mais novas chegaram no final dos anos 50 e logo se casaram com gregos da comunidade helênica de São Paulo.

Tia Anna casou com o irmão de minha futura madrinha. Tia Eva, recentemente falecida, chegou a liderar grupos da comunidade católica ortodoxa de São Paulo.

A superproteção à família sempre foi um item da agenda de Georgios Ninos. Por isso, sofreu com a perda de duas das três irmãs. Tia Anna, a caçula, chega neste sábado para reverenciar aquele que sempre foi sua inspiração, inclusive seu herói na guerra.

Quando os búlgaros invadiram e ocuparam o norte da Grécia, em nome de Hitler, tia Anna foi sequestrada para um acampamento de soldados. Georgios também havia sido preso, mas por ser o único grego que falava búlgaro servia de intérprete para os oficiais e, por causa disso, conseguiu salvar a irmã adolescente de uma tragédia. Ela, logicamente, ficou traumatizada não querendo nem ouvir falar nos conterrâneos da presidente Dilma Roussef (ironia do destino, sua filha Stella, minha querida prima-irmã, casou recentemente com um búlgaro gente-boa, o Boris, que conheceu à época que moramos na Grécia! Acabou a pinimba com os búlgaros…)!

Depois de instalar e casar as irmãs, Georgios partiu para a recém fundada Brasília. Na terra dos candangos vendeu muita roupa aos novos moradores do planalto central. Mas o espírito desbravador o fez seguir a estrada recém rasgada entre o centro-oeste e o norte: a BR-316 o levaria de Brasília a Belém, onde resolveu se estabelecer em 1961.

As confecções paulistas faziam sucesso e enchiam os bolsos do velho grego, que logo pode sair das calçadas do Ver-o-Peso, para um confortável casarão da Rua Padre Eutíquio, no comércio de Belém. Tia Anna veio com o marido, tio Dimitrius (já falecido) e juntos inauguraram a primeira loja dos sonhos de papai: o Nino-Tex.

Anos mais tarde, abriria uma filial num casarão mais amplo, na avenida 15 de Novembro, a rua dos bancos em Belém, e inauguraria um novo empreendimento: o restaurante e lanchonete Nino-Lanche, onde mostrou seus dotes culinários com guloseimas, e acepipes helênicos.

As coisas seguiram assim até 1978, quando abalado pela crise econômica fechou as lojas e resolveu se mudar para Santarém, onde morava a primeira de suas três amadas, Oscarina. Aqui reiniciou em março daquele ano com o ramo de lanchonete, mantendo o nome Nino-Lanche, que funcionou em quatro locais diferentes, até se aposentar em 2002 e repassar o empreendimento a um funcionário de sua confiança.

Dos 90 anos de vida, Georgios Ninos (foto ao lado) dedicou 56 anos ao Brasil, dos quais 50 foram para a Amazônia, sendo que só em Santarém vive há 33 anos (quase um terço de sua vida), já tendo sido homenageado com um título de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal.

O amor à bandeira grega, um dia o levou a torcer pelo time paraense que tinha as mesmas cores de seu país, o Paysandu (herança que ele me repassou, até recentemente trocá-la pela paixão alvinegra, do Botafogo e do São Raimundo). Mas sua cor favorita sempre foi o verde da bandeira brasileira. Verde da floresta amazônica, onde se embrenhou e até hoje é lembrado pelos gostosos salgados do “seu Nino”, como sempre foi conhecido.

Dos três filhos ganhou nove netos e quatro bisnetos (o quinto deve nascer até o final do mês). Das lições que me passou todos estes anos é inesquecível aquela em que conta as atrocidades da 2ª guerra, quando viu amigos serem mortos covardemente, e sempre pensava que seria o próximo.

Um dia ergueu as mãos aos céus e suplicou a Deus que o conservasse pelo menos até os 30 anos, para poder cuidar das irmãs. “Hoje estou no lucro, pois ganhei o triplo do que pedi de vida”, diz o sábio grego com um belo sorriso no rosto.

Ave, Georgios Joannis Ninos!

P.S. Aos amigos que quiserem reverenciar o “seu Nino” pelos seus 90 anos, será celebrada hoje à tarde, às 17h30, uma missa na catedral da Matriz.

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* É jornalista e filho do Seu Georgios Joannis Ninos.

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