Foto: Ronaldo Ferreira

Orla (cais) de Santarém
por Helvecio Santos (*)
Embevecido pelo momento mágico do por do sol amazônico, contrastando com o nascente brilho da cidade, quase ultrapasso um velho amigo azulino que também suava a camisa na esperança de alongar, com saúde, o vencimento do “título de crédito” avalizado pelo Homem.
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Abraço apertado, rosto beijado – hábito ensinado por meus pais como demonstração de admiração e respeito que cultivamos em família e que também estendo a alguns amigos por este brasilzão afora – olhamo-nos firmemente, desfrutando o prazer de uma amizade que beira meio século.
A magia do encontro prevaleceu e o exercício foi pro brejo!
Passos lentos, meu fraterno amigo mocorongo falou que soubera da minha estada na cidade, mas não esperava me encontrar na orla e sim no “Colosso” o que, na sua opinião, me cairia melhor. Respondi que a orla é uma passarela onde encontro o maior número de amigos por metro quadrado e pelo pouco tempo que passo na Pérola, isso me é útil.
Após o tradicional “e aí, tudo bem?”, comentou da alegria de ser beijado e sua decepção quanto a não haver idêntico costume por estas bandas, principalmente entre os membros da fraternidade à qual pertence. Habituê em viagens a São Paulo, observou que na fraternidade co-irmã paulistana, é uma prática normal. Debitamos à conta do machismo santareno a repulsa a tal deferência.
Essa primeira observação foi o fio da meada e cruzando com os “maratonistas”, perdemo-nos em divagações sobre detalhes que, se habitualizados, colocariam mais cor, sabor e perfume a essa coisa maravilhosa que é viver neste mundo que Deus criou e inventou de entregar a nós, feitos à Sua imagem e semelhança, para sermos felizes.
Para ser sincero, mais ouvi… E como valeu a pena!
Cruzamos com um conhecido que recém se separara e outro que já curara a ferida. Meu amigo comentou que o ódio ou tristeza latente nas separações, ainda normal nesta era do divórcio cartorário, deve-se à solene frase incompleta pronunciada no momento das bodas: “Até que a morte os separe”. Ora, disse-me o companheiro caminhante, o certo seria: “Até que a morte do amor os separe”.
E continuou, com uma eloqüência de político e sinceridade de monge. Aí sim, estaria correto, pois o casamento sem amor é o verdadeiro inferno transportado para a terra e nada justifica duas pessoas que não se amam fingirem um lar feliz, vivendo uma relação de aparência. Rindo, acrescentou que o amor não nasceu e nem foi feito no Paraguai, onde até o bispo é falsificado e muito menos na China, para ser vivido “a preço de banana”.
Logo após a Praça da Matriz os “carrão” derramavam som pesado, mais incomodando e menos agradando. Certo de que não poderíamos enfrentá-los e sequer encarnando Usain Bolt conseguiríamos fugir caso despertássemos a fúria dos “fortões, meio enviesado, sussurrou, o que era dispensável, pois o som era tão alto que precisei valer-me da leitura labial para compreender o que dizia: deveriam escutar mais a consciência e menos música em altos brados.
Entretidos, chegamos ao burburinho em frente ao Mascote e com a promessa de que na volta pagaria uma água de côco, olhando as tulipas de chopp que esvaziavam rapidamente em mesas invariavelmente ocupadas somente por varões, sapecou esta pérola tão brilhante que poderia ser a pérola do Maicá – homenagem que presto ao amigo Gil Serique, eis que a do Tapajós já existe: a vida seria mais interessante se para cada almoço de negócios ou chopp para relaxar, um romântico jantar à luz de velas antecedesse o sono dos justos. E, rindo, acrescentou: teríamos mais negócios para relaxar!
Que poderia eu, pobre mortal, acrescentar a tão sutil observação? Inteligentemente, calei esperando a próxima. Cruzamos com um representante da Receita Federal, saudado com um sacramental “oooi!”. A liturgia contida no cumprimento ao homem do leão foi tanta que ali não havia somente oi! Havia também tim, vivo, embratel, anatel e tudo mais. Pensei com meus botões, aliás, com o cordão do meu calção, pois botões não haviam, que cumprimento tão litúrgico eu só daria a um leão, o LEÃO AZUL TAPAJOARA.
Meu amigo falava e invejei sua capacidade aeróbica!
Olhando os peladeiros em frente ao Museu e inspirado pelo ilustre destinatário do derradeiro cumprimento, mandou esta: as pessoas deveriam se preocupar mais com declarações de amor e menos com declarações de renda. Afinal, não somos faraós que levavam para a tumba, melhor, para a pirâmide, os tesouros amealhados em vida. Nós só levaremos a vida que vivermos. Já os “tesouros” serão partilhados pelos herdeiros que na maioria das vezes também se partem na partilha.
Fizemos a volta e olhos fixos nas mangueiras da Praça São Sebastião, perguntou quantas árvores já havia plantado, acrescentando que um homem só é completo quando planta uma árvore, escreve um livro e gera um filho. Gargalhei, pois se árvores já plantei, ainda não escrevi livro e nem pretendo gerar filho. A título de gozação sugeriu então que à vista de ser incompleto, poderia compensar plantando árvores na orla para amenizar o bafo do cimento nu que mesmo àquela hora ainda era inclemente.
A noite chegava rápida e aguardando um escurinho melhor, namorados admiravam o tucunaré e a tartaruga marinha do Apolinário, enquanto solitários acenavam em direção aos barcos que soltavam amarras rumo às cidades vizinhas. Notei que não havia lenço branco nem lágrimas para serem enxugadas e comentei que hoje as facilidades de comunicação trazem as pessoas até nós em qualquer lugar, através de celulares. Também a moda do namoro pela internet dá praticidade ao sentimento e o banco da pracinha foi trocado pelas ondas magnéticas ou cabos óticos.
Raptada pela tecnologia, a saudade perdeu o charme, saiu de moda e virou coisa de antigamente. O Apolinário ou o Laurimar Leal ou o azulino Lili poderiam aproveitar os últimos adeuses que acontecem no cais e perenizar o momento, antes que acabem! No futuro, pela raridade da cena, as telas poderão valer um bom dinheiro.
A caminhada chegou ao fim e a água de côco ficou na saudade!
Abraço apertado, rosto beijado, atravessando a Tapajós deu “tchau!” e falou que é uma pena eu não ter filhos mas que nunca é tarde! De longe gritou que se eu tivesse filhos iria sugerir que eu os educasse e também os netos para serem felizes e não para serem ricos.
Ainda deu tempo de perguntar: e o nosso LEÃO! Já dobrando a 24 ouvi: precisa se alimentar nos “minhocas” (jogadores da terra)! Quem gosta de “baba” (jogador dispensado por outro clube) é boi! Não deu tempo de responder, mas gostaria de dizer que também penso assim.
Tínhamos ido até a altura do Boteco, cumprimentamos tantos conhecidos e outros tantos, conhecidos ou não, ficaram curiosos sobre o animado papo. Muitos ficaram olhando tão “esquisita” despedida. Muito mais ficariam se ouvissem as “esquisitas” observações que meu amigo azulino fez. Por essas e outras é que todo ano volto a Santarém…
P.S.: Dedico estes escritos a Agostinho Coleta do Couto, amigo e irmão, mocorongo de Itapipoca, que para continuar alimentando o coração nos folguedos dos filhos, construiu o “Campo do Papai Agostinho”, onde lhes deita olhos como nos primeiros dias de paternidade.
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* Santareno, é advogado e economista. Ex-jogador e torcedor símbolo do São Francisco. Reside no Rio de Janeiro e escreve regularmente neste blog.