Por aqui não se morre de tédio, mas raiva mal digerida pode causar infarto. É preciso expelir o mal que nos chega diariamente em forma de informações catastróficas, não dá para aceitar passivamente. Há poucos dias nos deparamos com a Praça Rodrigues dos Santos sendo desfigurada para virar camelódromo, na sequência vem a catástrofe sobre o rio Tapajós.
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Pior que presenciar as turvas águas do rio, é assistir a omissão e a dissimulação de políticos tentando minimizar o desastre, buscando justificativas como chuvas que se intensificaram. Passando a bola para técnicos dos órgãos do Estado e instituições de pesquisa.
E essas instituições, com excessiva cautela, mesmo depois de relatório contundente da ONG MapBiomas. Os magnatas da mineração ilegal logo tentaram desacreditar com desinformação e fake news, disseminando ódio contra ONGs, mas os meios de comunicação no Brasil e exterior deram crédito, porque sabem que são sérios.
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Estamos diante de um crime de proporções de Mariana, em Minas, que matou o rio Doce. Centenas de dragas e retroescavadeiras escavando os leitos e margens dos afluentes do Tapajós, despejando toneladas de mercúrio e milhares de toneladas de rejeitos por minuto em direção ao seu leito.
O Tapajós perto do rio Doce é um oceano. O volume de água do Tapajós é infinitamente maior. Seu poder de dispersão dos rejeitos é enorme, mesmo assim, eles chegaram em Alter do Chão.
A cor turva de suas águas tem a ver com a mineração; as chuvas só colaboraram para aumentar o volume de rejeitos e acelerou o processo. Fosse o Tapajós um rio Doce, os. rejeitos já estariam na baía do Guajará.
Estudos do Instituto Sócio Ambiental e do MapBiomas apontam um crescimento da atividade garimpeira na região do Tapajós de 223% a partir de 2019. No mesmo período, cresceu 360% no território Munduruku.
A ignorância e esperteza, ávida por lucros, a bordo de possante carro traçado, dirá que são comunistas, vendidos ao estrangeiro, que ONGs estão vendendo o Brasil, que são esquerdopatas querendo a volta da corrupção. Mas esses argumentos eivados de mentiras não enganam mas a população.
2009 e 2012 ocorreram grandes cheias, foram chuvas intensas, e não se viu águas barrentas e turvas como agora. Essa cena, vimos com menor intensidade em 88/89, período de grande atividade garimpeira na região, mas sem a tecnologia empregada hoje, bem mais predatória.
Políticos titubeantes, omissos ou cúmplices do crime ambiental do qual é vítima o rio Tapajós, precisam ter seus mandatos retirados pela população. Não merecem o voto do povo do Tapajós. O titubeante confunde, o omisso colabora e os cumplices são coautores do crime. Resumindo: todos deram e dão sua contribuição à essa gigantesca catástrofe que se abate sobre o rio e o Tapajós.
Muitos hão de argumentar que esse é um crime de alçada federal, que as concessões de lavra são dadas pelo governo federal, que áreas indígenas e parques de conservação também são federais. Escamoteiam o problema. Todos sabem o que pensa o governo Bolsonaro, foi o governo Bolsonaro que abriu a porteira. Para eles, quanto mais destruição melhor.
Assim como no caso das vacinas, estados e municípios poderiam fazer sua parte, e nesse caso, conter o crime parando o abastecimento de combustíveis, os voos, os provimentos. Parar os garimpos, quase todos ilegais, e judicializar o problema.
Enquanto os políticos de nossa região não se manifestarem de forma inequívoca em defesa do rio Tapajós e das populações que habitam ao longo e no entorno dele, esse silêncio estará colaborando com o crime.
Apenas dois parlamentares se expressaram com firmeza e clareza sobre os crimes que o garimpo ilegal vem submetendo o rio Tapajós. O silêncio e evasivas com as quais veem se esquivando, os senhores Valmir Climaco, Nélio Aguiar, Junior Ferrari, Hilton Aguiar, José Maria Tapajós, Ângelo Ferrari, Junior Hage, Eraldo Pimenta, Henderson Pinto, é constrangedor.
Precisam se posicionar com firmeza em defesa do rio, sem declarações lacônicas, sem falas titubeantes, sem tergiversar. Será que as imagens terríveis, a contaminação e morte dos rios Creporí e Jamanxim não os convenceu? A população do Tapajós merece esse esclarecimento, vocês possuem mandatos e representação política.
Toda uma cadeia produtiva esta ameaçada por causa da extração mineral predatória e ilegal, a subsistência de populações ribeirinhas está ameaçada, a indústria do turismo, com potencial ainda incalculável esta ameaçada, pescado e piscicultura estão no momento descartados.
Se o receio é ter cerca de 20 mil garimpeiros desempregados, essa é uma população que circula, não costuma se fixar, a grande maioria retorna aos seus estados de origem. Problema maior será populações de pequenas cidades e comunidades se deslocando de forma permanente para cidades como Santarém, Itaituba e Altamira por não terem meios de subsistência nos seus lugares de origem.
O garimpo ilegal é mais uma atividade que promove alta concentração de renda nas mãos de poucos, deixam um enorme passivo social e ambiental, e pressão sobre os serviços públicos de saúde. São sempre as mesmas saúvas e cupins que acumulam mais dinheiro, ou seja, os donos das balsas, dragas, escavadeiras e corrutelas.
A quase totalidade do ouro extraído em garimpos ilegais não é tributado, logo, ao estado e municípios sobra a conta a pagar. Há os que defendem a atividade garimpeira nas instâncias institucionais, esses logram vantagens. O comércio também conhece fluxos de grandes vendas, mas os refluxos nas vendas costumam quebrar muitos comerciantes.
Para a quase totalidade dos peões garimpeiros existe dois bilhetes premiados, um com malária, outro com covid-19. E também um certificado de miséria com o brasão da Republica Federativa Desigual do Brasil
As associações comerciais precisam se manifestar sobre o problema. O comércio varejista pode até estar vivendo um bom momento, mas o imediatismo, nesse caso, é a negação do futuro.
A não ser que o plano seja, após a terra arrasada e a morte da galinha, ir viver gastando os ovos de ouro bebendo whisky 12 anos com água de coco em Aldeota, Barra da Tijuca, ou nos Jardins Paulistanos. Grande parte desses cupins e saúvas não tem vínculos afetivos com nossa terra e nosso povo, para eles, a destruição, é apenas celebração de lucros.