Jeso Carneiro

Propaganda e poder

por Cristovam Sena (*)

Meus amigos, o Manuel Dutra, no seu blog, escreveu semana passada sobre a teoria criada pelo historiador Michel Foucault, intitulada “Microfísica do Poder”, onde demonstra que “o poder se exerce de múltiplas formas e não somente a partir de grandes estruturas, como a máquina do Estado e outras estruturas sociais historicamente poderosas, como a Igreja, a escola, as forças armadas, o estamento policial”.

Nessa mesma semana, Tibério, contumaz freqüentador do Blog do Jeso, escreveu um artigo intitulado “Sociedade da mentira”, no qual analisa a força da comunicação e o poder da publicidade. Onde expõe os “malefícios que a publicidade produz na sociedade por induzi-la a como consumir a vida, impondo modismos e comportamentos em benefício de uma máfia mundial que controla os produtos oferecidos por ela, fazendo com que a sociedade passe a acreditar na religião publicitária”.

Os dois artigos colocam o Poder e a Propaganda na berlinda, abrindo oportunidade para novas reflexões sobre o tema. E o Poder sempre esteve umbilicalmente ligado à propaganda, pois ela “compreende a idéia de implantar, de incutir uma idéia, um produto, uma crença na mente alheia”.

— ARTIGOS RELACIONADOS

Essa é a filosofia da propaganda, sem isso ela deixa de ser propaganda para se transformar em “conto da carochinha”. Até a propaganda identificada como educativa é baseada nesses princípios. Sempre foi assim e será.

O estabelecimento do nazismo foi fruto de uma propaganda elaborada e conduzida por Joseph Goebbels, ministro de Hitler, que ficou marcada pelo seu ódio aos judeus, alimentado pelo seu fanatismo pelo poder. Pode até parecer impossível para muitos, mas mesmo conhecendo o final dessa história escrita na Europa, corremos o risco de repeti-la através de uma nova roupagem propagandística nas mãos de novos loucos.

Recuando mais um pouco, constata-se que as religiões, qualquer uma delas, há séculos oferecem o paraíso como um lugar onde há rios de água impoluível; rios de leite de sabor inalterável; rios de vinho deleitante para os que o bebem e rios de mel purificado. Ali terão todos os tipos de frutos, com a indulgência do Senhor. Ninguém trabalha, não há sofrimento.

Na busca do poder temporal querem propaganda mais explícita do que essa, onde verdadeiro condomínio fechado classe A é oferecido aos fiéis seguidores dessas religiões? A única coisa que eu modificaria na descrição do Jardim do Éden era substituir o vinho pela cerveja. Vale ressaltar que não estou aqui negando a existência do paraíso, mas analisando simplesmente a sua propaganda.

Em termos de Brasil e mundo, os modernos suportes da propaganda são capazes de alcançar praticamente toda a sua população, provocando uma alienação em massa que faz com que os desvios de comportamento a que o Dutra denominou de “microfísica da corrupção” sejam considerados normais, perdendo visibilidade ante os grandes assaltos aos cofres públicos que envolvem principalmente a classe política associada aos lobistas, dois segmentos que representam parte do poder local, hoje cada vez mais concentrado nas mãos da máfia identificada pelo Tibério.

Assim, dentro desse contexto de alienação geral da sociedade provocada pela propaganda dominada pelo poder, é compreensível a comoção nacional que provocou no país a eliminação da nossa seleção pela Holanda na Copa do Mundo da África do Sul. O assunto mexeu com todas as classes sociais e o técnico Dunga foi defenestrado na hora.

Todos os jornais, revistas e blogs, de todas as cidades, abriram manchetes para analisar a catástrofe que derrubou a Canarinho. Até o presidente Lula, decepcionado, criticou o goleiro Júlio César e o Felipe Melo. Com a pífia participação no Mundial, o Brasil caiu do 1º lugar para o 3º no ranking da FIFA.

Entretanto, quando foi anunciado o resultado do Relatório Educação para Todos, divulgado em janeiro pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), que expôs a baixa qualidade do ensino nas escolas brasileiras, colocando o País na 88ª posição no Índice de Desenvolvimento Educacional (IDE) dentre 128 países pesquisados, essa pífia performance na educação não provocou a mínima comoção na sociedade.

Poucos ainda se lembram desse relatório, sendo que a esmagadora maioria da população nem sabe que ele existe. No governo ninguém foi defenestrado por causa da nossa colocação no IDE. Se na eliminação na África do Sul, no futebol, a enxurrada de criticas sobre o fato demitiu o Dunga, com relação ao Relatório Educação ela quase não existiu. E não lembro ter lido crítica explicita do Lula ao Ministro da Educação, como fez com o Júlio César e o Felipe Melo, escolhidos pelo presidente como bodes expiatórios do nosso fracasso.

A notícia circulou pela mídia como um foguete espacial, sumindo imediatamente do noticiário da grande imprensa brasileira, sem deixar rastro. Na educação, o fracasso não conseguiu mexer com a sociedade, ninguém foi punido nem convocado para explicar as razões da insólita colocação conseguida no campeonato mundial patrocinado pela UNESCO.

O povo, indiferente ao resultado, não identificou que eram seus filhos que na verdade estavam sendo reprovados pelas Nações Unidas. E a propaganda, socorrendo o poder estabelecido, entrou logo em cena para desviar o foco das notícias para longe do relatório.

É assim que é construída a alienação nacional denunciada pelo Tibério e o Manuel Dutra. Enquanto isso, aqui e alhures vão sendo loteados os cargos na administração pública em troca de apoio na campanha que se avizinha. Ação que alimenta as “micromáfias” disfarçadas em partidos políticos, que por sua vez alimenta a “microcorrupção” que domina a consciência coletiva. Tudo isso em nome do poder, garantido através de dispendiosa propaganda paga por nós.

Muitas vezes nos dá vontade de desistir, mas não podemos agir assim. Não podemos perder a esperança de uma Santarém, de um Pará, de um Brasil e de um mundo melhor. Porém está ficando difícil, após ler o que o Dutra e o Tibério escreveram, manter acesa a tocha dessa esperança. Acredito que o caminho passa pela educação, mas este 88º lugar me deixou meio desanimado.

O poder, desde a sua origem, possui enorme potencial de transformar, para pior, o caráter e a personalidade das pessoas que o detém. Segundo o francês Diderot, se nesse mundo tudo fosse excelente, não haveria nada excelente.

Ainda bem que o filósofo disse isso. Pelo menos serve como consolo!

———————————————–

* Santareno, é engenheiro florestal. Dirige o ICBS (Instituto Cultural Boanerges Sena).

Sair da versão mobile