Jeso Carneiro

Que venham as árvores!, de Helvecio Santos

Que venham as árvores!, de Helvecio Santos, Plantio de árvoras na orla de Santarém. Foto: Tamara Saré
Plantio de árvores na orla de Santarém. Foto: Tamara Saré/Facebook

por Helvecio Santos (*)

Tenho um amigo no Rio de Janeiro que diz que estamos “vivendo de ilusão”.

Na sua ótica, isso explica pularmos que nem malucos no Carnaval; torcermos que nem alucinados nos estádios, seja por times ou pela Seleção; lotarmos as praias nos ditos “pontos facultativos” e “buzuns” sucateados levam passageiros apertados como sardinha em lata; morre-se nas filas dos hospitais públicos caindo aos pedaços; mora-se atrás de grades, prisioneiros que somos da violência; estica-se o reles salário mínimo até o final do mês e assiste-se impassível ao saque que os políticos fazem na riqueza do país.

Como todo brasileiro que batalha diuturnamente pelo pão de cada dia, estou na roda viva dessa “ilusão” e, pior, criei para mim uma ilusão particular que fica a quilômetros de distância.

Explico: saí de Santarém, mas Santarém não saiu de dentro de mim.

Assim, por amor, sonho com uma Santarém melhor e em busca deste sonho faço cobranças. Ocorre que algumas pessoas não entendem essa demonstração de amor e creditam minhas cobranças ao Poder Público a um desejo febril de desmerecer o Berço Querido.

Minha lista é extensa e, eu por ser um sujeito do século passado, algumas cobranças já beiram décadas, mas eu não desisto.

Já cobrei a retirada dos barcos da frente cidade; já cobrei ciclovia em toda a extensão do cais, acompanhando a parte interior que dá para o asfalto; já cobrei poste em toda a extensão do cais e a transformação da faixa de areia em campos de futebol, futevôlei, vôlei e outros esportes; já cobrei esgotamento sanitário; já cobrei arruamento que permita à população alcançar a Praia Pajuçara.

Também já cobrei que a verba dada aos clubes de futebol seja usada numa parceria com os clubes para livrar a cidade das indesejáveis pets; já cobrei que o carnaval seja resumido ao carnaval de clubes; já cobrei que no “Bosque” (?) Vera Paz sejam construídas trilhas e instalado um orquidário sob a orientação da Sociedade dos Orquidófilos Santarenos; já cobrei que fosse criada a Secretaria de Sustentabilidade; já cobrei acessibilidade; já cobrei nivelamento das calçadas; já cobrei; já cobrei; já cobrei.

Para oferecer mais utilidade e conforto, cobrei ainda que toda a extensão do cais fosse brindado com o plantio de árvores. Sugeri que fossem plantadas mangueiras em baias avançando sobre a praia e ao redor do tronco fossem colocados bancos.

Alvíssaras! Será que o Prefeito leu?

Há dias uma matéria na mídia santarena noticiava que seria iniciado um programa de arborização na orla. Trinta e duas mudas das espécies ipê e sapupira seriam plantadas a partir da Praça do Pescador sob a batuta da Secretaria de Agricultura e Pesca.

Dentro da minha porção “vivendo de ilusão”, quando alguma coisa acontece dentro do que sonho para Santarém, me descubro pensando: fui atendido! Então, daqui de longe, sinto-me no dever de dizer: obrigado, Prefeito!

Não importa a espécie, que venham as árvores e com elas os pássaros, as flores e o frescor de sua acolhedora sombra. É preciso dar um basta nesse calor insuportável.

Como sonhar não custa nada, sonho um dia ver toda a extensão do cais coberta de mangueiras ou, quem sabe, ipês ou, quem sabe, sapupiras.

Na definição do “Aurélio”, cais é o “Lugar lajeado para desembarque de passageiros e carga, na margem dos rios ou do mar;”.

Por esta definição, é uma ilusão chamarmos de orla o que na verdade é cais. Mas se o Prefeito tiver coragem e tirar o bairro flutuante que fica em frente à cidade e arborizar toda a extensão do cais, aí sim, teremos bons motivos para nos orgulharmos da orla da nossa Santa Santa Santarém.

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* Santareno, reside no Rio. É advogado e economista. Escreve regularmente neste portal.

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