Jeso Carneiro

Santarém: duas reportagens, dois enfoques

por Jairo Silva Oliveira (*)

Estava viajando no domingo dia 11 quando tive a oportunidade de ler duas reportagens que me chamaram a atenção. Uma delas estava na revista de bordo da TAM (Tam nas Nuvens) e versava sobre o novo filme de Camila Pitanga e suas impressões sobre a experiência de ter filmado na Amazônia.

A outra fazia parte da revista Veja e tratava do mesmo assunto – a experiência de filmar na Amazônia – mas desta vez mostrando um suposto desabafo das equipes de filmagens da TV Globo, que relatavam como é difícil filmar na região. O enfoque de uma matéria foi totalmente diferente da outra.

O filme de Camila Pitanga tem um título estranho – “Eu Receberia as Piores Notícias dos Teus Lindos Lábios” – poucos santarenos o reconheceriam pelo nome. Mas bastaria que dissesse que foi aquele filme rodado em Santarém, estrelado pela bela atriz global e então os habitantes da Pérola do Tapajós teriam sua memória refrescada.

Muitos se lembram de tê-la visto caminhando pela orla, por Alter do Chão e até nas peixarias da cidade, nos idos do ano de 2010.

Camila Pitanga se desmancha em elogios pela região. Em suas palavras, Santarém é “um lugar de muito sol, onde eu estava comendo bem, levando uma rotina bastante gostosa, de acordar cedo, ensaiar, tomar banho de rio, e só então filmar”. Em outro trecho, mostrando sua veia ambientalista, exagera: “Lá eles já sabem praticar o desenvolvimento sustentável. Você vê a qualidade de vida nos olhos das crianças.”

Comentando sua impressão sobre a paisagem santarena, também não deixa por menos: “As praias fluviais são muito impressionantes, com paisagens radicalmente diferentes de tudo que eu já tinha visto, uma exuberância. Foi uma emoção estar lá e quero voltar com certeza.”

Finalmente faz (mais uma vez) propaganda tanto da culinária quanto de um restaurante local ao falar sobre a comida santarena: “Tudo é bom mesmo, mas tem um prato chamado Mega Tapajós que é o meu prato! É um peixe com um creme defumado que é uma loucura, uma orgia gastronômica”.

A reportagem continua se desdobrando por quase uma dezena de páginas, até chegar a uma parte onde se deixa de falar do filme para comentar uma experiência de fazer um cruzeiro particular pelas praias do oeste do Pará. Um resumo do que foi mostrado nesta última parte pode ser lido na frase do articulista: “… nenhuma experiência foi tão intensa como a viagem de oito horas de barco para filmar em São Pedro, idílica comunidade às margens do rio Arapiuns”.

Quando se lê a reportagem da revista Veja, tem-se a impressão de que estão falando de outro mundo. O periódico ressalta que existem várias dificuldades naturais de se filmar na região por conta dos obstáculos da natureza e da falta de infraestrutura. Diz que o diretor de fotografia foi vitimado por uma ferroada de arraia-mirim e que até hoje sua ferida não cicatrizou; que a equipe da Globo enfrentou pernilongos e formigas bravas (‘de repente, elas comiam a gente inteiro’) e deu a entender que as filmagens eram uma troca de favores: a Globo viria se contrapor à invasão que a concorrente Record está promovendo na região Norte e, em troca os paraenses teriam suas belezas turísticas divulgadas para todo o Brasil.

Tentei analisar as duas reportagens como um personagem neutro, de preferência, tentando me colocar na pele de uma pessoa que não fosse santarena. Melhor ainda, alguém do sul/sudeste que nunca visitou a região e que, por conta das notícias que povoam o noticiário nacional, tem a imaginação que a Amazônia tem ruas infestadas de jacarés.

Transformando-me em tal personagem, eu poderia chegar à conclusão que as boas maneiras impediriam que Camila Pitanga falasse mal da cidade que a “recebeu de braços abertos”; ou ainda que a revista Tam nas Nuvens faz parte do acervo de uma companhia aérea e, como tal, tem que falar bem de qualquer ponto turístico do país, para incrementar suas vendas de passagens. Poderia chegar também à conclusão de que a reportagem da revista Veja foi isenta de preconceito, somente informando com objetividade qual é a realidade da Amazônia.

Mas felizmente, eu sou santareno. Não um santareno bairrista que fecha os olhos para os problemas daqui, muito pelo contrário: o que for errado deve ser mostrado e combatido. Mas mesmo assim achei que a balança do preconceito e da reportagem tendenciosa pendeu mais para o lado de Veja. Não que a matéria da Tam não tenha sido exagerada em alguns momentos. As palavras da bela Pitanga que dizem que já sabemos praticar o desenvolvimento sustentável e que nossas crianças têm qualidade de vida são, no mínimo, questionáveis.

Mas a revista Veja simplesmente não mostrou ninguém que falasse bem da cidade. Nem um único ator ou integrante da equipe de produção. Mostrou que temos mosquitos, infraestrutura precária, arraias que ferram seres humanos, tudo bem, isto é verdade! Mas será que foi tão ruim assim filmar aqui? Os atores que visitaram Santarém e Alter do Chão estavam todos mentindo para a imprensa local quando falavam de nossas paisagens exuberantes, de nossa gente acolhedora, de nossa comida deliciosa, da relativa tranquilidade que ainda vivemos em Santarém?

Ou ainda, comentando a passagem mais ridícula da reportagem, será que existem candirus na praia de Alter do Chão, prontos para “entrar por aqueles orifícios mais particulares do corpo humano”, como diz a matéria? Sem falar que gostaria de saber qual é a “maré” da “praia ribeirinha” que quase arrastou dois carros da produção. Acho que o redator não sabia se a Globo estava no rio ou no oceano.

Não saberia dizer se sou bairrista. Provavelmente não, porque a palavra, para mim, tem algo de radical em seu significado; é aquele que diz que tudo no lugar onde nasceu ou onde vive é maravilhoso, em detrimento dos demais. Mas ainda assim, meu senso crítico sabe reconhecer uma reportagem falha. Pelo que sei, um dos pilares do jornalismo é que toda história possui dois lados. O lado do Pará, conforme diz Veja, é apenas o dos pernilongos e das arraias.

P. S: Se houver qualquer dúvida sobre o que estou escrevendo, os leitores deste renomado blog podem conferir ambas as reportagens. Uma na página https://www.tamnasnuvens.com.br/revista/site/ e outra na edição de Veja desta semana, sob o título Os riscos das gravações em lugares exóticos.

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* Santareno, é servidor público federal.

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