por Paulo Cidmil (*)
Passei a madrugada de 4 para 5 de maio com uma enorme ansiedade, imaginando o que poderia acontecer na manhã seguinte no Congresso Nacional.
Em contato com amigos que residem em Brasília e com meu irmão Guilherme Taré, que estava participando de uma comitiva que acompanhava os trabalhos da Câmara Federal, foi possível perceber o otimismo quanto à aprovação do plebiscito, o que acabou se confirmando.
Desde o final dos anos 80, acompanho o desenrolar desta luta por emancipação territorial e política do Oeste do Pará. Organizei em 89, no âmbito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Makunaimï – Uma Semana em Defesa da Amazônia) e em 1992, dentro do Fórum Global (Amazônia 500 Anos de Resistência Indígena e Popular), dois grandes seminários que tinham como proposta a discussão dos problemas amazônicos.
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Quando deixei Santarém em 1973, com um breve retorno em 1975, para definitivamente partir em 1976, esse sonho de um novo Estado chamado Tapajós já se fazia presente no coração de nosso povo.
Em fevereiro de 1989, sentado no que restava do velho trapiche municipal, pensava se valia à pena inserir no programa do seminário uma discussão sobre a criação de um novo Estado na Amazônia. Nossa história política não recomendava estimular esse sonho.
Velhas oligarquias detinham o poder político e econômico, exportando para outros mercados a produção fruto de atividades extrativistas, olhando para a floresta como um eterno banco de onde extraiam os recursos ao seu bel prazer, concentrando imensas áreas de terra, todas ou quase todas requeridas sem custos ou obrigações tributárias, controlando o comércio, os meios de transporte fluvial, explorando a pecuária e a força de trabalho de nosso povo.
Não tínhamos universidade, o movimento social organizado era embrionário. Quase nenhum sindicato, não havia movimento significativo de professores ou de estudantes, os poucos que se levantavam em defesa do meio ambiente eram tratados como lunáticos ou pessoas estranhas a nossa região.
Ao sul, Itaituba era um grande garimpo que preocupava o País inteiro, e mais ao sul em direção ao Mato Grosso só existia garimpo com milhares de dragas espalhadas nos afluentes do Tapajós. Quem seriam os governantes desse novo Estado?
Um compadrio de oligarquias do Baixo Amazonas capitaneadas pelos mais atrasados políticos da região que controlavam Santarém, em conluio com exploradores e contrabandistas de ouro? Que espécie de rapinagem viveríamos com essa gente de posse de um novo Estado?
Passei a acompanhar os passos desse movimento, sua tramitação no Congresso Nacional, os estudos de viabilidade, pesquisas, projetos de desenvolvimento, o surgimento de novos Municípios. Tambem sonhava com a emancipação, mas percebia, que a considerar à classe política de Santarém, a emancipação seria boa para alguns e um desastre para o povo e o meio ambiente.
Em 1998, visitei em Brasília o Comitê do Estado do Tapajós, fruto do esforço do então prefeito de Santarém Lira Maia e do santareno Heyderne Coelho, profundo conhecedor dos escanhinhos do Congresso. A idéia era mobilizar os outros prefeitos da região para ajudar a manter a estrutura física do Comitê, que atuaria junto ao Congresso e na mobilização dos futuros cidadãos tapajônicos que residiam em Brasília.
O projeto não foi adiante por falta de recursos, mas teve uma atuação significativa junto ao parlamento, ajudando a dar visibilidade no Congresso Nacional ao anseio de nossa região.
No curto espaço de 20 anos nossa região e principalmente Santarém, passaram por transformações muito importantes. Vimos o surgimento de diversos municípios ao sul, fruto de uma onda migratória com o boom do cultivo da soja que seguindo a BR163 chegou a Belterra e impulsionou a criação de novos municípios ao longo da BR163 e Transamazônica. Vimos Santarém ultrapassar os 200 mil habitantes e além de pólo comercial e Porto para escoamento agrícola transformar-se em centro educacional de ensino superior.
Ampliou-se a extração mineral com o projeto de Juruti e futuramente Alenquer e Monte Alegre. Ampliou-se a estrutura do Estado com representações do Governo Federal, do Estado do Pará e do Judiciário. Construiu-se massa crítica, os movimentos sociais se consolidaram e já não são vistos como meia dúzia de lunáticos; existe maior numero de sindicatos; trabalhadores rurais e os movimentos comunitários são atuantes, professores e estudantes se mobilizam, mesmo que no caso das faculdades particulares seja insipiente.
A internet conectou nossa região ao mundo e democratizou a informação. Ampliou-se o turismo em toda a região, que hoje atrai até produções cinematográficas (mesmo que ainda longe de nossas potencialidades), ampliou-se o interesse por realização de pesquisas na região e por produtos de origem cultural, o que ajuda a dar visibilidade a uma natureza e cultura diferenciada, difundindo outra identidade amazônica e tapajônica (é grande a diversidade cultural dentro da Amazônia). Hoje temos um novo cenário muito mais promissor, mas com muitos problemas que precisamos trabalhar as soluções, e que, não serão resolvidos com um simples sim no dia do plebiscito.
Discutir o nosso futuro político não é um privilégio da classe política nem das elites econômicas. No momento histórico que estamos vivendo esse futuro deve ser debatido por amplas parcelas da população. Ongs, sindicatos, grupos culturais, associações, universidades, escolas, centros acadêmicos, igrejas, todos são instrumentos para socializar discussões a respeito de nosso futuro.
Não podemos ficar a reboque dos políticos e partidos. Políticos devem ser apenas o veículo para fazer reverberar e transformar em políticas públicas e ações de Estado os nossos anseios e necessidades coletivas.
Temos hoje uma Universidade Federal, que enfim se chamará Universidade da Integração Amazônica – UNIAM, como originalmente proposto, que, se oxigenada por decisões democráticas de seus colegiados, poderá ser capaz de atrair novos talentos de diversas partes do país, ajudando a dar o salto qualitativo que a nossa juventude merece. Um centro de formação e pesquisa capaz de desenvolver tecnologia e conhecimento para exploração deste imenso patrimônio que são os recursos, hídricos, minerais e florestais de nosso futuro Estado.
Precisamos da pavimentação da estrada que liga Almeirim a Faro, e de toda essa região ao Estado do Amapá. Precisamos de pavimentação da Estrada que liga Juruti ao Tapajós e da outra que liga Juruti ao Rio Amazonas; estradas fundamentais para o desenvolvimento econômico do Lago Grande e da Vila do Curuai.
Precisamos da estrada que liga Juruti a cidade de Parintins no Amazonas. Precisamos de um projeto de desenvolvimento agrícola para a região da Calha Norte bem diferente do que hoje ocorre ao longo da BR163. Óbidos, devido a localização e profundidade do Rio Amazonas, poderá vir a ser o grande Porto para escoamento da produção de toda essa região (Nhamunda/AM, Faro, Terra Santa, Trombetas, Oriximiná, Curuá, Alenquer, Monte Alegre, Prainha, Almeirim, Monte Dourado e o Estado do Amapá). Um produto de Macapá poderá chegar a Manaus em 3 dias. Hoje são no mínimo 7 dias.
Precisamos de fomento ao desenvolvimento da agricultura familiar para garantir a diversidade da produção de grãos e horti fruti granjeiro. Precisamos que o projeto de um centro de pesquisa da EMPRAPA seja finalmente desenvolvido em Belterra, para também atender a essa necessidade.
Não temos nenhuma política de integração regional, seja na área do desenvolvimento econômico, seja através de programas especiais na rede pública de ensino. O turismo, a cultura e o esporte que poderiam ser poderosa ferramenta de integração entre as regiões sofrem com a falta de investimento e em alguns municípios com a inexistência de secretarias ou órgão de fomento.
Todas as cidades do futuro Estado, sem exceção, precisam de saneamento básico e obras de infra-estrutura. Também necessitam de escolas técnicas que atendam às necessidades de desenvolvimento econômica desses municípios.
Temos apenas um hospital de alta complexidade para atender os quase um milhão e meio de habitantes do futuro Estado e nenhuma política pública para equacionar o problema. A rede particular é excludente e limitada para intervenções de maior complexidade.
Pensar em uma grande capital, com palácio de governo, secretarias de estado, aparelhos de segurança e uns 30 mil novos empregos públicos deve ser o que passa na cabeça de muito político santareno. Mas concentrar os investimentos do novo Estado na cidade de Santarém para transformá-la em uma grande capital será um erro estratégico e não estaremos construindo um Estado.
Isso provocará um êxodo em direção a capital que em curtíssimo tempo terá mais de 600 mil habitantes e seus problemas sociais e de infra estrutura serão multiplicados numa dimensão que nem três novas penitenciárias do Cucurunã poderão conter. Empregos e qualificação profissional não acontecem com passe de mágica.
Não podemos debater sobre um plebiscito sem que todos os nossos problemas estejam expostos. Nossas necessidades são o nosso principal argumento e será discutindo sobre elas que poderemos chegar a projetos que visem a sua solução.
Os muitos programas de desenvolvimento que virão com o novo Estado não podem concentrar-se na capital (no caso de vir a ser Santarém, escolha mais obvia e mais sensata) e devem atender as necessidades de desenvolvimento de todas as regiões.
Esse ano estive na casa do amigo Sebastião Tapajós que festejava seu aniversário, lembrei que a mais de uma década nos encontramos, sempre motivados por algum trabalho. Nossa conversa vai sempre em direção ao futuro e esse futuro está sempre conectado a nossa cidade e região.
Sebastião sonha com um grande e moderno teatro na orla de Santarém, juntos sonhamos realizar o projeto “Rio Abaixo, Rio Acima”, por ele idealizado, que visa proporcionar intercâmbio cultural e difundir e aprofundar a sua pesquisa sobre a nossa cultura regional, que há muito ele universaliza. Tambem objetiva o registro e divulgação da produção cultural dos locais visitados pelo projeto.
Sonhamos com a Caravana Cultural BR 163, projeto com o objetivo de intercâmbio entre as cidades de Cuiabá e Santarém. Mas nosso principal assunto é o Estado do Tapajós, não há um novo fato que passe em branco. Estivemos em Brasília no inicio de abril e realizamos visita ao Congresso em busca de apoio para o projeto “Rio Abaixo, Rio Acima”.
Nossa pergunta era sempre a mesma: será que dessa vez entra em votação e passa?
Sonhar e trabalhar a realização do sonho produz uma vigorosa energia, difícil de expressar, é quase uma intuição que impulsiona o sonhador. Por vezes a vontade é tamanha que chega a ser possível vislumbrar o que ainda não se materializou. A isso chamo saudade do futuro.
Agora é a hora de um grande sonho coletivo, capaz de um olhar critico e generoso para cada cantinho desse nosso tão sonhado Tapajós.
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* Santareno, é produtor cultural. Reside no Rio de Janeiro.