Ser Igreja ontem, hoje e sempre, por Nonato Sousa, NS da Conceição

Igreja de N. S. da Conceição, em Santarém

por Nonato Sousa (*)

Desde que entrei no Seminário, 1990, sempre foi me cobrada uma posição, ou ser ‘conservador’ e defender os movimentos eclesiais “alienantes” (ressalto as aspas), em especial a RCC; de outro lado, aqueles inspirados pela TdL (Teologia da Libertação), ditos ‘progressistas’.

Sempre percebi que essas posições não se excluíam, mas ambos tinham razão em determinado aspectos, exageros em outros, até diria se completavam. Como me posicionar?

A leitura do livro “Beber no próprio poço” do padre Gustavo Gutiérrez, profunda e consistente, fez me perceber uma experiência de fé, de amor e de esperança, que nasce de uma práxis libertadora dos pobres.

Entendi que a TdL seria uma espiritualidade que penetra cada vez mais no mistério de Deus em si mesmo e em sua relação com os homens e com o mundo, que depois encaixei no conceito de historicidade.

Uma espiritualidade pautada numa aventura comunitária, expressa no andar de um povo que faz seu próprio caminho no seguimento de Jesus. Até aí entendi como uma espiritualidade fortemente marcada pelo compromisso religioso, salvar, e social libertar (também não menos religioso).

Afinal, conforme a Primeira Carta de João no capítulo 4, ao discorrer que Deus é amor, ressalta que quem não ama não conhece a Deus; e nos exorta a amor mútuo, e conclui no versículo 20: “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?”

“E Jesus, respondendo, disse-lhes: Acautelai-vos, que ninguém vos engane; Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos”. (Mateus 24, 4-5).

Com certeza não me enquadravam nos rótulos propostos, somos Igreja, este é o rótulo que me identifiquei – SER IGREJA. Esta é a realidade, na qual, acredito, a realidade da nossa fé.

Deus, através do Espírito Santo, continua a servir todos nós que somos Igreja.

Como Jesus, devemos acolher os carismas, como graças que procedem do Espírito Santo e das quais a Igreja tanto necessita. O Apóstolo Paulo já chamava atenção: “Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens? Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo; porventura não sois carnais? (I Coríntios 3, 3-4).

Posição mais tarde defendida por Santo Irineu: “Com efeito é à própria Igreja que foi confiado o Dom de Deus. É nela que foi depositada a comunhão com Cristo, isto é, o Espírito Santo, penhor da incorruptibilidade, confirmação da nossa fé e medida da nossa ascensão para Deus”. Conclui dizendo que onde está a Igreja, “ali está também o Espírito de Deus; e lá onde está o Espirito de Deus, ali está a Igreja e toda a graça”.

Já estava claro o que era SER IGREJA. Outra situação que ajudou no meu discernimento foi o filme ROMERO (1989).

Não nego, fui às lágrimas, baseado em fatos reais, narra os três últimos anos da vida de Óscar Arnulfo Romero y Galdámez, arcebispo de San Salvador, capital de El Salvador.

Logo no inicio da película mostra uma manifestação, em fevereiro de 1977. O povo, em uma praça, sob a mira de militares, clama por liberdade e contesta a legitimidade das eleições presidenciais daquele ano.

Na verdade, um retrato do que ocorreu em vários países sul-americanos, nas décadas de 60, 70 e 80 do século passado. Mostrava a clara divisão, de um lado, uma elite política e militar procurava manter os privilégios; de outro, pobres do campo e da cidade (alguns na guerrilha) buscavam justiça social.

Nesse ínterim surge a figura de Oscar Romero, que a princípio defendia que a Igreja estivesse no centro, numa posição de vigia. Contudo, o próprio clero estava dividido entre os conservadores e os adeptos da TdL.

O Arcebispo Romero utilizava “a” rádio para expor suas posições: “Nossa fé requer que vivamos atentos ao que ocorre neste mundo. Continuo acreditando que a injustiça econômica é a causa principal de nossos problemas. É dela que provém toda a violência. A Igreja tem que se identificar com os que lutam pela Liberdade, tem que defendê-los e compartilhar sua perseguição”.

Meio caminho andado para meu posicionamento. São Oscar Romero daqui a pouco figurará nos altares, como santo católico, morreu defendendo seu povo e os ideais cristãos.

Outro marco foi “O Anel de Tucum”, longa metragem da Verbo Filmes de 1994, que retrata o cotidiano dos homens e mulheres que fazem das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e dos movimentos populares uma realidade.

O filme se passa no ano de 1992, mesmo ano que ocorre o 8° Encontro Intereclesial de Comunidades de Base em Santa Maria – RS. A partir do final dos anos 80 e começo dos anos 90, setores ligados ao pentecostalismo começam a ganhar força dentro da Igreja e no filme podemos fazer esta leitura logo no começo no momento em que o empresário, pai de André, diz que a Igreja tem que lidar somente com a questão espiritual, deixando a política a cargo deles, os empresários e os políticos.

O contraponto é visto nas palavras de Dom Luciano: “(…) Tão importante é a mensagem do Cristo que a Igreja se empenhe, se esforce para que todos tenham vida e que a tenham em abundância”.

Assista e se surpreenda com o final.

Nas palavras de Dom Pedro Casaldáliga: “(…) O anel de tucum uma palmeira da Amazônia, aliás, com uns espinhos meio bravos. Sinal da aliança com a causa indígena, com as causas populares. Quem carrega este anel normalmente significa que assumiu estas causas e as suas consequências. (…) Olha, isso compromete viu. Queima! Muitos e muitas por esta causa, por este compromisso foram até a morte!”.

Inspirou-me ainda o trabalho de Dom Hélder Câmara (1909-1999), religioso, bispo católico que ficou conhecido internacionalmente pela defesa dos direitos humanos. Recebeu diversos prêmios, entre eles, o Prêmio Martin Luther King, nos Estados Unidos e o Prêmio Popular da Paz, na Noruega.

Aqui perto de nós, o trabalho de Dom Erwin Krautler, no Xingu; Dom Martinho, em Óbidos (tantos outros) e nosso Bispo Dom Tiago Ryan.

Ao visitar Santarém em 1977, o General Geisel perguntou-lhe: “Como vai o seu rebanho, reverendo?” e Dom Tiago respondeu: “O meu vai bem, e o seu?”.

Em suas palavras, clara denúncia à violência policial, confirmada, durante um sermão na catedral de Santarém, onde desafiou a polícia a, cada vez que pretendesse agredir qualquer pessoa, que fosse, antes, a sua casa, agredir o bispo.

O posicionamento da Igreja latino-americana registrado em Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, sempre ratificou essa predileção em anunciar e denunciar as injustiças. Não tinha como não me apaixonar por este jeito de SER IGREJA.

Hoje sou membro atuante do MCC – Movimento de Cursilho de Cristandade, e os movimentos a tempos deixaram de ser apenas este braço espiritual como suponham alguns, cada vez mais inseridos na Evangelização em comunhão plena com a Igreja e sua opção evangélica.

SER IGREJA ontem (Jesus), hoje (nosso bispos) e sempre será a favor dos mais pobres, fracos e injustiçados, o único vermelho que carrega é o sangue dos mártires que tombaram por causa desta opção.

Nas palavras Santo Inácio de Antioquia: “Segui ao bispo, vós todos, como Jesus Cristo ao Pai. Segui ao presbítero como aos Apóstolos. Respeitai os diáconos como ao preceito de Deus. Ninguém ouse fazer sem o bispo coisa alguma concernente à Igreja. Como válida só se tenha a eucaristia celebrada sob a presidência do bispo ou de um delegado seu. A comunidade se reúne onde estiver o bispo e onde está Jesus Cristo está a Igreja católica”.

Concluo, parafraseando São João Crisóstomo, da igreja não devo me afastar, nada é mais forte do que ela, mais alta que o céu e mais vasta que a terra e nunca envelhece.

Creio que Jesus nunca precisou de adoradores, nem de admiradores ou simpatizantes. Chama a si SEGUIDORES que sigam seus passos até a cruz… E o sangue dos nossos mártires é semente de novos cristãos, como dizia Tertuliano de Cartago.

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* Licenciado em Filosofia pela Faculdade Entre Rios do Piauí – FAERPI (2016), bacharel em Administração com ênfase em Finanças e Tributos, pelo Centro Integrado de Ensino Superior do Amazonas – CIESA (2011). Bacharel em curso Filosófico-teológico pelo Instituto de Pastoral Regional – IPAR – CNBB N2 (1996). Tem experiência na formação e elaboração de projetos de pesquisa acadêmica, atuação na área de Filosofia como docente, com ênfase em Metafísica, Teologia Bíblica, assessoria em cursos para lideranças comunitárias. 25 anos de experiência como formador nas comunidades da Diocese de Santarém – PA. Na área de comunicação: produção de textos para revista Programa da Festa de Nossa Senhora da Conceição – PFNSC (1996-2004). Em curso, especialização em Ética, Teologia e Educação pelas Faculdades EST.

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