por Edwaldo Campos (*)
Dedicada ao meu amigo Cristovão Sena, atualmente o melhor perfil de mocorongo que conheço.
Ser mocorongo não é só viver no seio da Amazônia, despenteando os cabelos da floresta, abraçando as praias, dando adeus ao Tapajós. Ser mocorongo, também, não é só ter nascido no luxo, com sobrenome tradicional, afinando as mãos e sofisticando os gestos em deslumbrantes coquetéis, e morrer com os cabelos esbranquiçados pelos lustres elegantes do recreativo.
Porque ser mocorongo não é só ter nascido, é dizer que nasceu, e com orgulho. Com orgulho de ter vindo ao mundo sobre este ventre bonito da musa dos versos do Emir, Damasceno, Felisbelo Sussuarana e Wilmar Fonseca; com orgulho de ter nascido na terra contada por Rodrigues dos Santos, pintada por João Fona e cantada por Toscano e Machadinho nas eternas canções do seu Isoca.
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É conhecê-la um pouco mais: saber que a Ponta Negra era mais longa, que maracujá que não é peroba, que a Aldeia, hoje vestida, já foi chão dos Tapajó; e que quando se quer dizer que é grande, não é preciso dizer quanto tem, quanto ganha, basta exclamar: Sou São Francisco! Sou Fluminense!
Precisa saber que ser mocorongo é não querer ser mais que o povo que a fez e sustenta. Porque ser mocorongo é amá-la, bendizê-la e querê-la como a seus filhos, com a mesma ternura de uma mãe que conforta em seu leito o seu primeiro filho que a pouco nasceu e ainda chora.
Ser mocorongo é ser natural, tão sem preconceito e espontâneo, como a poesia que não se deixa fechar na artificialidade de burgos imaginários. Ser mocorongo é ser simples como Renato Sussuarana, Laurimar Leal, Elias Navarro e Iris Fona, o gênio tapajó da arte nata e pura que enfeitam o corpo desta terra sem roubá-la seus encantos; e amar e admirar o que ela tem, não jejuando seus costumes; e falar e lutar por aquilo que lhe falta, construindo, como fizeram Elias, Babá Corrêa e como e fez e faz Everaldo; é engrandecê-la pela voz que vai distante, distraindo seu povo, unificando sua gente, divulgando sua arte, educando o, como faz o Ercio, o Ednaldo, o Eriberto, João Silvio e a dedicada Iêda, que ensina um vale todo a escrever; é importar-se com ela e comentá-la, como fazem Osmar Simões, os senadores da matriz e os jovens deputados da praça da Saudade.
Mas, ser mocorongo, mocorongo mesmo é conhecer no íntimo este povo que se envaidece e canta o branco de suas praias, o azul de seu rio e o sorriso limpo do horizonte desta encantadora mulher tão quentemente abraçada pelo sol do Equador.
É saber que ele costuma ter retrato de políticos na sala, um ramo de palha benzida em cima de um troço qualquer, e um coqueiro a sorrir no quintal; é saber que lhe fala sempre da Curuá-Una, da Santarém- Cuiabá, que lhe bebe lembrando Timóteo e que é experte em piracaia.
É preciso saber que o mocorongo tem sempre um lugar na casa reservado a seresta, no quintal ou dentro mesmo; e na cozinha em lata ou em paneiro a gostosa cucurunã, e algumas folhas de canela ou cidreira para variar o café.
Precisa saber que o mocorongo prefere o pirarucu ao bacalhau, o tarubá a outro vinho, e que tem costume de não gravar nomes pra chamar por apelidos; que ser mocorongo é mentir por ser poeta,é ser caboclo sem querer ser chamado, e querer ser sem ter nascido, é estar longe, na fossa, e chorar ao ouvir ou a cantar a Canção de Minha Saudade.
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* É poeta e compositor nascido em Alenquer e mocorongo. O texto acima é de 1971.