Jeso Carneiro

Sujeira é praga ou parasita?

por Helvecio Santos (*)

No vestiário da minha academia de natação tem uma frase interessante: “Lugar limpo não é o que mais se limpa. Lugar limpo é o que menos se suja”. Alguém adivinha para onde voa meu pensamento toda vez que leio a frase? Bingo!!! Isso mesmo! Para Santarém.

Certamente muitos não irão gostar, mas não tem jeito, somos um povo “sujismundo”.

Leia também dele:
Elegância do comportamento.
São Francisco, tu és o maior.

Sempre que leio nos meios de comunicação santarenos sobre a sujeira que nos assola, logo vem uma parcela da população reclamando que a prefeitura não disponibiliza meios e nem faz, regularmente, a coleta de lixo. Não estão totalmente sem razão mas, credito a nosso povo a parcela maior da culpa pela sujeira que se alastra em nossa cidade e arredores.

Recentemente “A Gazeta” (17/09/2011) denunciou que o nosso belo Coreto da Praça da Matriz virou “depósito de lixo” e, não bastasse, também “servindo de varal para secar roupas”. A matéria descreve que “ao redor dele é possível ver o acumulo de lixo, como sacos, garrafas plásticas e até uma montanha de bagaço de cana. A iluminação está danificada e o fedor de urina mostra a falta de conservação do local”.

Ora, é sabido que bem perto existe uma outra referência da identidade santarena, a Garapeira Ypiranga que, sob o comando do amigo Cacheado, promove animadas serestas diurnas, nos sábados pela manhã, o que já se tornou um “point” de todos que gostam de ouvir um gogó afinado, de um bom papo e de uma cerveja gelada.

Não quero crer que os freqüentadores deste ambiente tão romântico usem o coreto, de saudosas lembranças, como mictório e/ou depósito de lixo.

Mas, é fato, a descrição d’A Gazeta é estarrecedora!

Também ano passado, quando aí estive, fui até o Mirante, e o cenário era desolador. Lixo na escadaria que dá acesso pela Adriano Pimentel e em todos os cantos do local. Na escada e no Mirante, lixo de todo “quilate”, abundando restos de “marmitex”, verdadeiramente um prato cheio para ratos.

A praia em frente à cidade, em toda extensão, é um misto de garrafas pet, sacos plásticos, sobras de peixe, garrafas e cacos de vidro, roupas, malas, muita poça de água podre e, coroando tudo isso, línguas de esgoto sanitário a cada 50 metros.

A rua do comércio também não fica atrás, mas ali tem uma peculiaridade que me fez rir, na minha última visita. Havia um navio de turista aportado e alguns se aventuravam pelo comércio. Na esquina da Travessa 15 de Agosto com Rua do Comércio, um casal olhava fixamente para um buraco do qual vinha um som de água. Parei observando a cena. O turista com a máquina pronta para disparar, provavelmente pensando que era um rio subterrâneo. Talvez esperasse um peixe passar para qualificar a foto. Ri ao ver sua cara de nojo ao perceber que o que observava nada mais era que esgoto só que, diferente dos outros, este era subterrâneo.

Ri para não chorar…..fiquei envergonhado!

Em Alter do Chão, ouso dizer, nosso outrora cartão postal, a situação é para dar cadeia.

Andei na orla da Praia do Cajueiro por aproximadamente 15 metros e ali recolhi roupa de banho, garrafas pet e de vidro, sacolas plásticas, lata de cerveja e refrigerante, pente velho, prendedor de cabelo e outros mais. Com a ajuda de um pedaço de madeira, amontoei nesse curto, espaço aproximadamente uns 15 quilos de lixo. Também na orla, em frente a um hotel, uma imensa manilha despeja sujeira na praia.

O comércio contribui fortemente para este caos, principalmente os supermercados. O lixo que produzem é jogado na calada da noite na calçada disponível mais próxima.

Dentro do Mercadão 2000 a insalubridade é caso de saúde pública! Mas, como toda a cidade é suja, o que chama a atenção é o gosto que os vendedores de peixe e de outros produtos “in natura” têm em sujar as pessoas que por ali passam em trajes limpos, como se estes fossem seus inimigos e não compradores.

Um desavisado que olhasse no dia seguinte, de longe, o trecho da Galdino em frente e próximo à sede do São Raimundo após os bailes que ali são promovidos, ia pensar que o asfalto era pintado de branco. Na verdade são copos jogados pelos preguiçosos bailariqueiros que imaginam que há uma lixeira sempre à distância do comprimento do seu braço.

Não é exagero afirmar que um dos nossos esportes preferidos é o lançamento à distância de garrafa pet, lata de cerveja ou refrigerante, seja do ônibus, do carro de passeio, da moto e até à pé. Melhor dizendo, lançamento à distância do que não nos serve ou não nos convém.

As poucas lixeiras disponíveis ou estão cheias ou estão quebradas. Assim, a Prefeitura não tem toda a culpa como os arautos de plantão querem fazer crer. Repor lixeira custa caro!

Com este cenário, nenhuma fotografia que alcance o chão, tanto na cidade quanto nos arredores, está livre de mostrar beleza e lixo, razão da super população de urubus, sendo a única cidade que conheço onde os abutres, por se acharem tão íntimos, não se intimidam a ponto de serem atropelados por carro.

No outrora cristalino Tapajós, o presente é desolador e o futuro, funesto!

A matança é capitaneada pelos barcos que despejam excremento diretamente no rio, avolumando-se o problema quando estão atracados. Assim, a água em frente à cidade está contaminada e, óbvio, imprópria para tudo. Acresça-se a isso o seu afunilamento pela ilha defronte que cresce a cada vazante. Se providências não forem tomadas, um dia toda essa porcaria ficará represada em frente à cidade. Nesse dia, “estar na fossa” deixará de ser expressão de “dor de cotovelo”.

Mas ainda há tempo, desde que injetemos doses cavalares de amor na relação com nossa velha Santarém. Não falo do amor do gogó, do somente falar, mas do amor que protege e cuida, do amor que age. Se assim fizermos, nossa cidade será melhor!

É preciso nos conscientizarmos que não adianta empurrar o lixo para a frente da casa do vizinho pois o vento, a chuva e os ratos trazem de volta. Também não adianta deitar fezes na água para serem lavadas. A água não lava tudo, e nesta parcela de exclusão, as fezes humanas estão incluídas.

Cantar “Minha Terra tão Querida” não é prova de amor. Prova de amor é não jogar espinhas de peixe nas praias de Alter do Chão, não urinar no Coreto, não emporcalhar o Mirante etc etc etc.

O povo tem que antes fazer sua parte para então cobrar!

Não sei se sujeira é praga ou parasita mas o que sei é que precisamos, urgentemente, se for praga, combater e, se for parasita, nos livrar, sob risco de deixarmos para os maiores interessados, nossos filhos, essa herança maldita, os quais nada podem fazer profilaticamente.

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* Santareno, e advogado e economista. Reside no Rio de Janeiro.

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