
Comentário do leitor que se assina Jeferson Matos Cardoso, enviado por e-mail, a propósito da vila balneária de Alter do Chão, em Santarém:
Visitar a imunda Santarém e outras aventuras em um dos lugares mais sujos do mundo (Alter do Chão)
Senhor Redator,
É com muita náusea que me valho destas linhas para expressar os meus sentimentos quanto à nossa querida Santarém e quanto à nossa “internacional” vila de Alter do Chão.
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Chega a ser vergonhoso, e até mesmo ultrajante, trazer um amigo de fora para visitar a nossa “terrinha”.
Santarém se tornou uma imensa “latrina a céu aberto”. Esgotos proliferam-se até mesmo pelo centro da cidade. O rio Tapajós, na orla, com certeza faz inveja ao Ganges e ao Yamuna na Índia, faltando a nós apenas os cadáveres fétidos e pútridos que passeiam pelo Ganges, os quais são devorados por abutres e cachorros famélicos.
Falando em abutres, suponho que os daqui “gorjeiam até mais do que os de lá”, pois que não devem perder em número.
Na nossa, agora internacional, vila de Alter do Chão, a qual já foi reportagem nas folhas de turismo do britânico “The Guardian” e do norte-americano “The New York Times”, a situação é igual ou até mesmo pior.
Ridículas lixeiras, as quais, visivelmente, foram providenciadas a um baixo custo, fins economizar sabe-se lá o quê, feitas de chão de madeira, com tela metálica nas laterais, e com uma “portinhola” propensa à abertura por cachorros, gatos e até mesmo por urubus, são inadequadas para uma coleta ideal do lixo urbano.
O que será que afetou a mente dos nossos governantes? Será que o responsável, ou os responsáveis por essa situação, nunca pensaram que a coleta do lixo urbano tem que ser feita, idealmente, em containers de plástico (ou polímero etc), com tampa, e com fundo que possua locais de dreno para que as mesmas possam ser regularmente lavadas?
A vila possui alguns cilindros de plástico para a coleta de lixo, porém sem tampa, o que facilita o trabalho dos abutres.
Vejo que essa tomada de consciência não deveria partir apenas dos nossos governantes, mas também da população, principalmente daqueles oriundos das classes econômicas mais favorecidas e, supostamente, mais esclarecidas.
No último mês de janeiro, quando estive por aí, conversei sobre essa situação com diversas pessoas, dos mais ricos aos mais pobres, dos supostamente mais esclarecidos até com aqueles que não tiveram a oportunidade de uma educação formal mais refinada, e, quase todos, com raríssimas exceções, comportam-se de maneira unânime (e ultrajante): fazem ouvido de mercador ou então arregalam os olhos para cima com um leve ar de imbecilidade do tipo “eu não sei ou não sabia de nada”. O semblante é de total alheamento.
Outros, pasmem, fazem até chacota e retrucam, com deboche e desdém, jocosos palavrões.
Suponho que essa recusa na mudança de perspectiva mental da população é o maior entrave na tomada de decisão dos nossos governantes, pois se ninguém reclama significa que está tudo muito bem, afora não estar.
A fim ilustrar melhor o que estou dizendo, lembro-me que, há alguns anos atrás, quando comentei com um amigo e com um amigo desse amigo (ambos muito conhecidos na cidade e, supostamente, muito bem esclarecidos) que o assassinato do navegador neozelandês Peter Blake, na foz do Amazonas, estava relacionado com a condição de miséria social do Brasil e, em especial, da Amazônia, quase fui agredido.
Foi preciso falar bem alto e em bom tom que eu estava falando como um “amazônida” e não como um forasteiro.
No dia seguinte, a ONU publicou uma nota reiterando o que eu tinha dito e ainda informou que a foz do rio Amazonas tinha o segundo maior índice de pirataria fluvial do mundo só perdendo para a foz do rio Mekong na China.
Todos nós santarenos temos uma ligação muito forte com a nossa cidade, com as nossas praias etc e temos muito orgulho da nossa história e das nossas belezas naturais, mas temos que, urgentemente, parar de cantar o refrão “não permito senhores que ninguém goste mais do que eu de Santarém”, sob o risco de perdemos a capacidade lógica e discriminativa e enveredarmos por um ufanismo “imbecilóide” onde o obtuso atropela o óbvio.
Obs.: O título desse pequeno artigo (comentário) foi parodiado do livro “Visit Sunny Chernobyl: And Other Adventures in the World’s Most Polluted Places” by Andrew Blackwell – Visitar A Ensolarada Chernobyl: E Outras Aventuras nos Lugares Mais Poluídos do Mundo.
Detalhe: O capítulo V (Soymageddon – Deforestation in the Amazon) retrata a devastação da Amazônia, nos arredores de Santarém, para o plantio de soja.
Sou santareno atualmente morando em Curitiba-PR.
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