Contraponto do professor Solano Lira ao artigo Cinema, que cinema?, de Evaldo Viana:
Caro Evaldo,
Sugiro a você (caso não o tenha feito) assistir ao filme Quarto 666, de Wim Wenders. Você tem razão ao falar da necessária existência de um cinema em Santarém, como forma de entretenimento e de veiculação de cultura, mas me parece que o nosso tempo apresenta outros problemas que ajudam a compreender a questão, a compreender a direção assustadora para onde a sétima arte se dirige.
Politizar o assunto revela-se inapropriado e não aponta o real problema da ausência do cinema. Se optarmos por essa vertente, a explicação terá de enveredar pelo questionamento da ausência de público, da preferência por mídias diversas, do motivo de o único cinema da cidade ter fechado, considerando a lógica capitalista da busca pelo lucro.
Além disso, teremos de pensar se realmente o governo municipal tem responsabilidade por disponibilizar cinema a preços acessíveis, atraentes ao público cada vez mais exigente pelo cinema comercial, em face de problemas mais graves, como a saúde, o desemprego e as péssimas condições das ruas.
Na condição de professor e profundo admirador do cinema, passei por momentos de decepção ao deparar que o jovem ou tinha pouco interesse pelo cinema ou tinha fascinação pelos enlatados norte-americanos, excluindo dessa lista bons diretores ali existentes. Não penso que essa decepção pode ser motivo de desânimo, e sim de luta pela causa, mas os fatos são os fatos.
Se você pudesse passar por essa experiência, lidar com o público, instalar um cinema talvez também se decepcionasse ou passasse a considerar outras condicionantes na compreensão do assunto. O mundo do Cinema paradiso é encantador, mas a modernidade perverteu os costumes, e o homem é fruto de suas circunstâncias.
Assim, podemos pensar a questão a começar por uma análise da ausência do público, do interesse por outras formas de entretenimento e pela acentuada venda de DVDs piratas e disponibilização de filmes em meios eletrônicos. Essas situações, de alguma forma, enfraquecem qualquer empreendimento e revelam a crise que a própria televisão sofre em decorrência desse mercado, como apontam algumas pesquisas.
Outro aspecto que gostaria de destacar em sua alegoria é essa mentalidade subserviente que manifestamos ao pensar que temos a obrigação de agradar turistas e por eles devemos manifestar vergonha. Uma pasta específica da Prefeitura deve tratar disso com as agências de turismo.
Nesse caso, você teria sido mais feliz excluindo o casal da narrativa, colocando outro jovem, de preferência sem notebook e disposto a correr até o ciber mais próximo, pagar pelo acesso e verificar as distâncias! Isso fortaleceria seu propósito comunicativo e imprimiria veracidade à narrativa e, ainda, acentuaria o tom de denúncia pretendido!
Ainda sobre essa questão, você, em nome da veracidade, deveria fazer o rapaz dar a resposta não em “um minutinho”, uma vez que todos sabem que o acesso à internet em Santarém é lento. Talvez a resposta devesse ser dada no dia seguinte!!!!
Garanto que alguém que se dirige a Santarém não o faz para assistir a um filme, o que enfraquece sua tese pela universalidade da argumentação e fraqueza da demonstração. A procura pelo cinema acaba sendo um acidente de percurso, uma exceção.
Seria, assim, mais interessante instalar cinema em Alter-do-Chão, para onde os turistas se destinam, considerando que o desejo de visitar pontos turísticos não encaixa um lazer como assistir a um filme.
Nossos conterrâneos, sim, talvez voltem cedo para as suas casas por falta de opção. Essa deve ser nossa preocupação. Confesso que o meu desejo de ter um cinema em Santarém é atender aos interesses dos santarenos, oferecer educação, valores, magia, fundamentalmente.
Quanto aos turistas, que gastem o dinheiro, que façam julgamento como todos fazem. Se morasse no Rio, não me envergonharia da assustadora violência; em São Paulo, do trânsito caótico. Somos bem tratados em alguns lugares e em outros não etc. A regra serve para Santarém, e a comparação revela-se injusta em face do atraso da cidade e da forma como o governo estadual trata o Oeste do Pará.
As pessoas não podem se envergonhar por uma carência como essa. Cada cidade tem seus problemas, tem seus privilégios. Eu trabalho diariamente com pessoas de Goiás, de Brasília, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e de Minas. Em nenhum momento fiquei envergonhado de contar como Santarém é nem me esqueço de desmistificar a mentalidade que ainda percorre o país sobre o ethos nortista. Não podemos reforçar essa mentalidade em nossa busca por garantir dignidade das pessoas.
Portanto, observemos o fato em si: a crise do cinema. Que o casal privilegiado fique a apreciar a beleza do Tapajós, beleza que talvez não tenha no local onde eles moram. Quanto aos nossos, talvez não tenham oportunidades de visitar outros lugares, nem por isso serão infelizes nem menos doutos.
Aqui parece que Kant é um belo exemplo: nunca saiu do lugar onde morava nem por isso deixou de ser capaz. Quanto ao rapaz, a escolha por esse personagem revela uma percepção elitista, uma vez que talvez o maior problema de nossa cidade e do País seja a necessária democratização da internet, a começar pela instalação e funcionamento de computadores nas escolas, de preferência com acesso à internet.