Jeso Carneiro

Faltam lideranças políticas no Tapajós

Sociólogo e professor da UFPA (Universidade Federal do Pará), Valber Almeida comenta o post Troco democrático: Não a Belém:

Jeso,

Pela maciça votação que o SIM recebeu aí na região, em cidades como Santarém, Belterra, Juruti, Alenquer etc., ficou claro que o Tapajós é de interesse tanto das camadas populares quanto das camadas médias e altas da população desta região.

No entanto, como eu já coloquei em outro comentário aqui, é preciso que avancemos agora na construção de um projeto de estado onde as camadas populares e a sociedade civil, configurada em movimentos sociais, sindicatos, associações, ONGs, institutos de pesquisa e universidades tenham, claramente, mais espaço de poder, maiores garantias de respeito e apoio aos seus interesses e seus direitos, e maior visibilidade.

Isso é fundamental para que, volto a dizer, conquistemos legitimidade perante a população e as camadas ditas pensantes da sociedade aqui do nordeste do estado. Porém, o que falta? Faltam lideranças para alavancar esse projeto. E este é o foco deste meu comentário.

Infelizmente, Santarém e cidades da região hoje padecem de grandes lideranças capazes de mobilizar massa pensante para construir um projeto alternativo de sociedade e de costurar a adesão a este modelo. Esse tipo de liderança é importante, mas as que temos hoje não gozam de legitimidade para tanto.

Tanto à esquerda quanto à direita, não há hoje no Tapajós uma liderança política ou popular que tenha um verdadeiro perfil de estadista capaz de compreender a realidade desta região, de dialogar com os diversos atores sociais e econômicos que fazem a sua história do presente para os agregar em um grande bloco político.

De agregar o conhecimento produzido sobre a mesma para o converter em um projeto de desenvolvimento que traga benefícios a todas as camadas da população e que mantenha o compromisso com a sustentabilidade, de emitir um discurso esclarecido e convincente sobre as necessidades da criação desta unidade federativa e de enfrentar, sem dubiedades e reticências, em nome deste projeto e dos anseios da população, as adversidades da luta política nas várias frentes que ela precisa ser travada: na imprensa, no legislativo estadual e Federal, em audiências públicas, fóruns de debate, seminários, entre outras.

O Lira Maia não goza de legitimidade pelos motivos óbvios referentes ao grande patrimônio acumulado na vida pública e aos vários processos contra ele na justiça.

A Maria do Carmo não convenceu como gestora e, apesar de eu acreditar sinceramente na sua honestidade e idoneidade enquanto pessoa pública, o nepotismo e apadrinhamento político que manteve o parasitismo de uma parte da militância petista local dentro dos serviços públicos corroeu grande parte da credibilidade moral do seu governo.

Claro que isso não é culpa exclusiva da Maria. Entendo que ela precisava manter o apoio das suas bases e garantir emprego para as lideranças dessas bases foi uma forma de garantir esse apoio. Mas, ao fazer isso, desconstruiu na prática aquilo que o discurso do PT sempre condenou: o patrimonialismo e o aparelhamento pouco republicano da máquina pública.

Por isso, a própria militância petista aí de Santarém é também responsável por não saber se portar dignamente assim que chegou ao poder, conforme aquilo pelo que sempre lutou e pregou. Não é à toa que grande parte dos líderes dessa militância se encontrem também desgastados na atualidade.

Eu esperava que o PSol ou o PSTU nos fossem oferecer um quadro melhor, mas os políticos dessas duas legendas parecem deslocados da realidade local: aliás, da realidade de modo geral. No caso do PSTU, trata-se de um partido que encruou. Preso a uma utopia revolucionária que não tem qualquer possibilidade de ocorrer na atualidade, é vítima de um autismo e de um purismo que o assemelha mais a um representante do cristianismo ortodoxo, representante das “vontades verdadeiras de Deus”, do que a um partido portador de projetos capazes de transformar a vida de uma coletividade humana.

No caso do PSol, não sabemos o que as suas lideranças pensam. Aliás, sequer sabemos se pensam. Nunca os vi escrever nada, nem aqui neste blog, nem em jornais da região, com raras exceções para o rapaz que comanda o DCE da UFOPa na atualidade, mas apenas coisas sobre a militância estudantil e a universidade.

E, diga-se, estes são espaços que poderiam estar sendo ocupados pelos militantes do partido, espaço onde divulgassem suas idéias, seus projetos para a sociedade e a região, demonstrassem que são pessoas sérias que pensam a sua realidade e que tem propostas para solucionar os problemas da mesma. Mas se portam como príncipes encastelados à espera das honrarias dos seus súditos e, em época de eleições, aparecem querendo votos como se neles tivéssemos de votar porque são melhores de caráter. Não é por aí, como sabemos.

O que pensam sobre segurança, saúde, educação, economia, cultura, esporte, lazer, sociedade? Nada! Costumam repetir um discurso marxista viciado que de dialético nada possui porque há muito já deixou de brotar da realidade dinâmica para os conceitos e passou apenas dos conceitos, imutáveis, para a realidade.

É um discurso ideológico e idealista. Talvez por isso, a senadora Marinor, totalmente alienada sobre a realidade da região, foi contra a criação desta unidade federativa. Não vejo um pensamento sistemático e esclarecido se apresentar com análises da realidade local e propostas convincentes e consistentes para mudá-la por parte dos integrantes do PSol. Em termos políticos, é um partido anti-estratégico ou sem estratégia, tanto para si mesmo quanto para a sociedade da região.

Há, portanto, um imenso vácuo de lideranças aí no Tapajós que dificulta a construção de um projeto mais legítimo e consistente de criação do estado. Talvez este seja o nosso maior problema na atualidade, visto que existe uma vontade social, possibilidades e potencialidades históricas concretas para que esta vontade se concretize, mas, ao mesmo tempo, uma barreira institucional de caráter político que emperra esse processo.

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