Residente em Alenquer, Marjean Monte comenta o mais recente artigo de Emanuel Júlio Leite:

A discussão aqui proposta é oportuna. Com relação ao comentário do Paracelso, concordo com boa parte. Porém, gostaria de ressaltar que na época em que o Emanuel foi secretário talvez tenha sido o único período em que houve uma aproximação dos municípios com o fim de discutir uma política conjunta para o desenvolvimento do turismo.

Eu era coordenador de Turismo e Cultura de Alenquer e no contexto do Programa Nacional de Municipalização do Turismo várias reuniões foram feitas, e até um jornal de divulgação regional foi criado (“Na Hora”).

Chegou-se a ensaiar a realização de um festival folclórico em Santarém que trouxesse as principais atrações dos municípios vizinhos. Parece-me que foi um período de pujança à atividade, com investimentos e ações concretas em todas as esferas de governo. Não vi, depois disso, nenhuma iniciativa parecida.

Quanto à grafia do Sairé, primando bela objetividade, a ancestralidade borari deve ser colocada em perspectiva. O ilustre conterrâneo Dr. Luiz Ismaelino Valente, no seu mais recente livro (“O Curumu de Alenquer na obra de Francisco Gomes de Amorim”, 2010) surpreende seus leitores com o relato de que já no início do século XIX, quando a região ainda era majoritariamente habitada por índios, o Sairé já era festejado nas aldeias às margens dos lagos ximangos.

Conta o autor que no ano de 1837 a festa de S. Tomé (espécie de padroeiro dos silvícolas) fora celebrada no curumu (lago próximo à cidade), na choupana do tapuio Tomé. Em seguida, transcreve a descrição do cenário em que é encenada a festa, na peça “O Cedro Vermelho”, do poeta lusitano, informando que o espaçoso terreiro ostenta “ao centro, um mastro, enfeitado com folhagens naturais e uma bandeira no topo.”

Ismaelino, às vezes parafraseando, às vezes transcrevendo pequenos trechos da obra de Amorim, transporta seu leitor com maestria para dentro da festa do santo dos índios, narrando a chegada dos “juízes” e “juízas” em “uma canoa de duas toldas de folhas de palmeira (…) ao toque de tambor e pífano”, e sob o pipocar dos foguetes, das “salvas de espingarda e ‘vivas’ ao Senhor São Tomé (…) iniciam a procissão do ‘sairé’, primeiro passo para ‘saltar as fogueiras’ e ‘derrubar o mastro’””.

À página 103, o autor transcreve a explicação de Gomes de Amorim: “Sairé ou toriua é um semicírculo de cipó, com seis palmos de diâmetro, quadripartido, tendo uma cruz e um espelho em cada uma dessas partes e outra cruz no meio da periferia…”, ou seja, guardando absoluta identidade com o símbolo utilizado na festa de Alter-do-chão.

Vê-se (e o Dr. Ismaelino me corrigirá se eu estiver errado), que desde sempre Sairé foi grafado com “S”.

Para colocar um pouco mais de lenha na fogueira, lembro o que ocorre com o muiraquitã. Sempre achei que tais pedras só eram encontradas em Santarém. Porém, Fulgêncio Simões, outro ilustre alenquerense, em 1908 (“O município de Alemquer”) conta que o Cônego F. Bernardino de Souza, em meados do sec. XIX referia-se à existência dessa pedra somente no rio Nhamundá, e relata que os índios a chamavam de puúraquitã.

Simões ainda diz: “Destas tive algumas e umas de maior grandeza, que representava a cabeça e o pescoço de um cavalo, que foi para Bolonha, para o célebre museu do Sumo Pontífice Benedito XIV(…). Resta saber se estas pedras são originais do rio Nhamundá, ou se existem também nos demais rios que “afluem ao norte do Amazonas”. No rio Mamiá, o maior afluente da margem direita do rio Curuá, encontram-se no leito do dito rio, pelo verão, pedras multicores, entre as quais a da cor do Muêraquitan, com a mesma consistência desta. Serão iguais? É o que o exame científico dirá, quando o incentivo particular e o impulso dos poderes públicos saírem da condenável indiferença pelas nossas riquezas naturais.”

Estabelecidas as premissas para a controvérsia, deixo as conclusões aos estudiosos do assunto, com muito mais autoridade do que eu para dizer a quem assiste a razão.

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Um comentário em: Política regional de turismo

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  • Paulo Cidmil disse:

    Natural que nos livros de historiadores e pesquisadores brasileiros conste o Çairé com S, afinal devem obedecer a norma e se expressar em bom português. Se o texto fosse em Tupi Guarany, Jê, Aruak ou Karib seria diferente. Felizmente são línguas ainda vivas, mas dadas como mortas. Grafar Çaire com Ç é uma forma de fazer referencia e valorizar esse patrimônio.
    Sei que é assunto para muita polemica, se enveredarmos por essa discussão de origem, seja Borari ou outra etnia qualquer, chegaremos a problemas mas complexos que não ficam apenas no campo das idéias e remete a questões que interferem na vida cotidiana de muitas comunidades, como por exemplo, de ser ou não ser remanescentes indígenas, de ter ou não ter direito a usufruto de território, como já os tem as comunidades quilombolas.
    ÇAIRÉ, no meu entender, é uma forma de prestigiar, valorizar, dar visibilidade, diferenciar, estabelecer já na comunicação do evento a referencia de sua origem.
    Aos que ficam incomodados com a grafia errada, se vista do ponto de vista da língua portuguesa, eu pergunto o porque de não se incomodarem com a expressão “mocorongo”.
    Se o que incomoda é o fato de como seremos vistos aos olhos dos outros, porque aceitar ser chamado de mocorongo e ainda dizer “com muito orgulho”. Quando todos sabem que a expressão mocorongo pode significar matuto, abestado, idiota, pouco esclarecido, ignorante, fácil de enganar e outras formas depreciativas, isso em todo o território brasileiro.
    O que seria pior ser chamado de “mocorongo” ou escrever ÇAIRÉ supostamente errado. Ou será que escrever ÇAIRÉ seja a comprovação de que somos todos um bando de “mocorongos”.
    Não seria mais fácil dizer ao idiota que ri da grafia ÇAIRÉ: compre um dicionário de Tupy Guarany. As línguas indigenas agradecem